À espera de um milagre

Com revisão e sugestões de Laila Damascena.

De todos os argumentos usados durante os acalorados debates sobre a instalação das ciclovias na cidade de São Paulo, um em particular sempre me irritava bastante: “isso não resolve o problema do trânsito em São Paulo”, diziam.

Ora, alguém disse acreditar que ciclovias iriam resolver o problema do trânsito em São Paulo?

Ninguém em sã consciência diria isso. O problema é enorme, diverso, complexo e não tem como ser solucionado por uma única medida qualquer que seja. Passa por melhorias em vias, aumento e melhoria da qualidade de meios de transporte público de massa, desincentivo ao uso de carros individuais e, no limite, por uma mudança cultural.

Não consigo ver o intuito de contribuir num argumento como esse. A única intenção que consigo enxergar é a de interditar o debate subordinando a mera consideração da medida que se critica a um ideal inalcançável. Se só pudermos discutir solução definitiva, qualquer melhoria incremental fica necessariamente inviabilizada.

Pois bem. Vemos esse mesmo tipo de argumento ser muito usado agora a respeito da crise. Impeachment por si só não resolve, dizem alguns, que sem uma reforma política ampla nada melhora. Que a corrupção é mais abrangente. Pergunto novamente: alguém disse que tirar Dilma resolve algum desses problemas?

É a mesma técnica argumentativa adotada no caso das ciclovias: se não resolve completamente o problema, não vem ao caso. Da mesma forma que se tentava interditar a proposta das ciclovias, se tenta agora interditar o debate a respeito de deposição do governo.

Há aqueles que fazem alertas contra a esperança de que tudo se resolva com a saída do governo do PT, apontando que temos outros grandes problemas sérios a resolver independentemente do que aconteça com o governo. Esses me parecem bem intencionados, querem que as pessoas não percam de vista os grandes desafios que temos como nação.

O que me intriga é usar essa retórica para tentar dissuadir as pessoas de defenderem o que consideram melhorias incrementais ou até mesmo passos à disposição para um resultado a ser construído. Achar que Temer não é solução para todos os nossos problemas não impede que se acredite ser uma melhoria comparado ao governo Dilma.

Outros acreditam que o caminho passa por remover também Temer, seja por Impeachment, seja pela via do TSE, o que levaria a novas eleições. Isso não impede a defesa do impeachment de Dilma, que é o que está à mão com mais possibilidades de acontecer no curto prazo.

A corrupção também não será resolvida, claro, ninguém espera realmente por isso, nem a economia se transformará magicamente de um dia para o outro. Assim como o trânsito de uma metrópole, a solução para esses problemas passa por soluções diversas, complexas. Interditar o debate não ajuda em nada na construção dessas soluções.

Argumente que o impeachment é indevido, que é uma solução ruim, que Temer vai ser pior que Dilma, bata na forma, no conteúdo, na moralidade, tudo bem. Mas faça um favor ao debate: não o interdite à espera de um milagre.

One thought on “À espera de um milagre”

  1. Impedir a Dilma não dá para dizer se melhora ou piora. É exercício de futurologia. Me parece piorar, mas, em algum cenário, pode melhorar sim. Agora o processo de tentativa de impeachment de dois anos até agora só piorou, estragou e atrapalhou o país. Afirmo categoricamente que nada que possa sair dessa situação será em qualquer medida melhor do que se ele não tivesse começado.
    Com as atuais soluções palacianas, é certo que o resultado será inacreditávelmente terrível o não impeachment

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