O que é preciso pra entender desemprego no Brasil?

Somos bombardeados por indicadores relacionados à economia diariamente e fica muitas vezes difícil entender o que eles querem significam de fato. Um que eu acho especialmente complicado é o indicador do desemprego.

Primeiro, porque a metodologia pode não ser muito intuitiva. A taxa de desemprego por exemplo não mede a fração de pessoas que precisa de emprego e não tem, mas sim a fração de pessoas que estão no mercado de trabalho e se encontram desocupadas. Estar no mercado de trabalho significa estar trabalhando ou ter procurado emprego nos últimos 30 dias.

Ou seja não são considerados na estatística: quem está numa situação tão miserável que nem tenta procurar emprego, a pessoa que está recebendo seguro desemprego mas não procurou trabalho, quem arranjou um subemprego pra ter o que comer e parou de procurar trabalho e por aí vai. Dessa perspectiva, nem é tão estranho assim que o uso do seguro-desemprego tenha crescido enquanto a taxa de desemprego caía.

Segundo, porque o Brasil tem atualmente duas importantes pesquisas oficiais que medem a taxa de desocupação. A PME, Pesquisa Mensal de Emprego, é uma pesquisa feita pelo IBGE em 6 grandes regiões metropolitanas brasileiras. Vários estados ficam de fora e o interior dos estados que são contemplados com uma região metropolina também. Isso faz com que a PME seja uma estimativa bastante enviesada.

O IBGE planeja substituir a PME pela PNAD contínua (PNADc). A PNAD é como se fosse uma atualização constante do censo. Ao contrário do censo que visita cada domicílio, a PNAD é feita por amostragem. Mas ao contrário da PME que só enxerga 6 grandes metrópoles, a PNAD chega a mais de 3.500 municípios, conseguindo uma visão bem mais abrangente do que acontece país a fora.

Desde que a PNADc começou ela vem mostrando uma taxa de desemprego maior que aquela vista pela PME. Não por acaso o governo tende a usar sempre os dados da PME. O plano era que a PNADc passasse a ser a única pesquisa utilizada e que a PME deixasse de ser executada a partir de 2015. Com o aumento de desemprego, acho provável que o governo pressione o IBGE a continuar publicando a PME até que os problemas da economia sejam sanados.

Uma semana atrás, no dia do trabalhador, um perfil do governo no Twitter publicou um gráfico comparando a taxa de desemprego do Brasil com outros países com o objetivo de mostrar que apesar do aumento não estava tão ruim.

Gráfico do governo comparando desemprego medido pela PME com de outros países
Gráfico do governo comparando desemprego medido pela PME com de outros países

Comparar taxas de desemprego entre países pode ser uma coisa problemática porque países diferentes podem usar metodologias diferentes. E também porque cada um pode estar numa tragetória diferente. Considere por exemplo os EUA que estão com uma forte recuperação da atividade econômica e vêm tendo uma reduçao do desemprego nos últimos tempos com o Brasil que vai na direção inversa.

O governo, obviamente, escolheu usar o número da PME para sua comparação. Mas o gráfico é bizarro por muito mais que só esse problema: se você prestar atenção vai perceber que os 0,5 entre os 6,4 da Alemanha e os 6,9 da Argentina são maiores no gráfico do que os 1,7 entre os mesmos 6,9 e os 8,6 da Índia. E você aí achando que só a Globo News gosta de usar escalas bizarras pros gráficos, hein?

Nessa quinta dia 7 de maio saíram os dados da PNADc, com uma taxa de desemprego de 7,9%. Com os dados mais confiáveis e abrangentes da PNADc em mãos, resolvi fazer um pequeno exercício: peguei o gráfico do governo, selecionei a área da barra dos 6,9 da Argentina que fica acima dos 6,4 da Alemanha e considerei como 0,5. Daí empilhei até dar os 1,7 que precisa somar aos 6,2% da PME. O resultado:

Gráfico do governo consertado com os dados da PNADc. Escala do conserto é a da diferença entre Alemanha e Argentina
Gráfico do governo consertado com os dados da PNADc. Escala do conserto é a da diferença entre Alemanha e Argentina

Dois resultados do exercício: 1) os 7,9 do Brasil ficam bem maiores que os 8,6 da Índia com a escala usada entre Alemanha e Argentina, o que mostra que o gráfico é uma piada de mau gosto; 2) o Brasil não vai lá muito bem nessa comparação.

E, infelizmente, a perspectiva do Brasil não é boa, a expectativa é que o desemprego aumente, basta ver que temos notícias todos os dias de grandes demissões. Esse ano vai ser dureza.

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