Um belo monte de problemas

Nessa semana tivemos um apagão controlado em 11 estados brasileiros. O Ministério das Minas e Energia e Operador Nacional do Sistema (ONS) demoraram bastante a se pronunciar e até agora não deram uma explicação completa.

Os fatos conhecidos até o momento, segundo eles, são: batemos recorde de consumo no horário de pico, houve problemas na transmissão de energia de geradoras do norte e nordeste para o sudeste e centro-oeste.

Essa restrição levou a uma queda da frequência dos 60Hz normais para 59Hz, o que levou algumas geradoras a se desligarem para evitar danos a si mesmas. Para evitar um efeito dominó, o ONS pediu a grandes distribuidoras que fizessem uma redução controlada da disponibilidade de energia, o que foi feito com o desligamento de algumas subestações.

A partir daí há discordâncias entre o Ministério e o ONS: para o Ministério houve falha no sistema de segurança em pelo menos uma das geradoras, que não deveria ter se desligado.

O que parece é que o sistema não está capacitado para lidar com a demanda energética dessas duas regiões, seja porque está produzindo pouco, seja porque não consegue transmitir o suficiente a partir do norte/nordeste. Nos dias que seguiram o apagão, o Brasil importou energia da Argentina nos horários de pico, para garantir abastescimento.

O mais preocupante é que nossa demanda está reprimida: nós estamos há alguns anos com queda na atividade econômica e na produção industrial. A indústria é o setor que mais consome energia no país. Já imaginou se o país estivesse crescendo e a produção industrial estivesse crescendo? A julgar pelos acontecimentos dos últimos dias, já teríamos que estar em um racionamento.

O governo me parece ter falhado nas duas pontas da questão energética: oferta e demanda. Começo pela segunda: em 2012, Dilma foi para a televisão anunciar uma canetada para redução das contas de energia, principalmente as da indústria, através de renovação automática de contratos de concessão e de subsídios diretos.

Além disso o governo incentivava já há alguns anos a aquisição de novos bens que consomem energia através da redução de IPI e do programa Minha Casa Melhor. O governo fez isso tudo quando já se previa que um quadro hidrológico preocupante para os anos seguintes, o que indicaria a necessidade de fazer o contrário: criar incentivos para a reduçao do consumo de energia, inclusive a ampliação dos preços de energia.

O ideal mesmo seria que a demanda pudesse subir: que milhões de brasileiros pudessem pela primeira vez ter ar condicionado e lavadora de roupas. Isso nos coloca na outra ponta: o investimento para ampliação da oferta. Nós sabemos que houve casos de geradoras que ficaram sem poder ser usadas porque não foram construídas as linhas de transmissão.

Novas hidrelétricas que estão sendo construídas em rios na região norte estão com anos de atraso (se bem que, com restrições de transmissão não daria pra usar). Um terço das obras prioritárias para manutenção do sistema de acordo com o ONS não foram executadas. E aí veio a questão da falta de chuvas, que fez com que as termelétricas tivessem que ser ligadas, encarecendo a energia.

Na campanha e antes dela, Dilma garantia sempre que não havia risco de racionamento. Depois de eleita, várias das garantias feitas pela candidata foram por água abaixo, como sabemos. Talvez por isso mesmo ela esteja resistindo muito a ter que assumir a necessidade de prevenir um problema maior com um racionamento agora, mostrando que o planejamento de que se orgulha de ter feito não foi assim tão bom.

Tudo indica que Dilma vai imitar Geraldo Alckmin e deixar para declarar racionamento quando já estivermos na iminência de um colapso do sistema. Não sei vocês, mas eu já estou tomando mais cuidado com o uso de energia elétrica (e água, claro), porque não quero ficar sem.

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