Marina é evangélica, logo conservadora?

Ouço muita gente dizer que Marina é evangélica e que isso é um problema em si mesmo. Um dos argumentos que invariavelmente aparece nesses debates é que Marina defendeu Feliciano. Acho que discutir essa afirmativa é uma forma razoavelmente boa de resumir a questão toda.

O acontecimento que gerou essa afirmação foi um debate em que Marina foi questionada por um professor de Ciência Política sobre suas posições com relação ao Estado laico. Segundo o professor, um dos seus alunos teria ficado surpreso com a intenção do professor de ir ao debate: “mas ela é evangélica”, teria sido a restrição do aluno.

Marina começa comentando a restrição do aluno:

É engraçado que você disse, né, que alguém falou: ‘Você vai pra esse encontro? Mas a Marina é evangélica.’, né? E as vezes a gente quer combater um preconceito com outro.

Mais pra frente fala que é favorável ao Estado laico e, depois de citar vários outros políticos que segundo ela são equivocados e ateus ou católicos, argumenta que eles também não devem ser criticados por serem ateus ou católicos, e sim pelos equívocos que cometem na política. Por que tanto bafafá com ela ser evangélica, então? Ela então cita Feliciano dizendo o seguinte:

Feliciano é equivocado e não deveria estar na Comissão de Direitos Humanos não é porque ele é evangélico. É porque ele não tem tradição de defesa dos direitos humanos. É por ele não estar preparado para os Direitos Humanos.

Algumas pessoas interpretam isso como uma defesa das posturas do Feliciano. Do meu ponto de vista, não há como fazer essa interpretação a partir da fala da Marina, ela é bem clara em dizer tanto que Feliciano é equivocado quanto em dizer que ele não deveria estar na Comissão de Direitos Humanos.

Quando coloquei esse argumento para alguns amigos que dizem que Marina defende Feliciano, argumentaram que o problema é que Marina errou ao dizer que a crítica a Feliciano incluía o fato de ele ser evangélico, eram só sobre as questões mesmo. O aluno do professor é um exemplo de que esse problema existe, mas vamos supor que a maioria das críticas diferenciam as coisas: isso não muda o alvo da defesa da Marina – ela está se colocando em defesa da tolerância religiosa, não da pessoa nem das posturas de Feliciano. Não dá pra transformar uma defesa em outra só porque o alvo da defesa, em tese, não existe.

A esse último, contra-argumentam o seguinte: mas é possível desassociar essas posições da religiosidade das pessoas? Afinal de contas, é por serem religiosos que são contrários aos direitos da minoria. Ora, isso me parece contradizer o argumento que eles mesmos usaram anteriormente, que a crítica não seria à religiosidade, mas vamos ponderar.

Faz sentido colocar todos os religiosos no mesmo bolo? Leonardo Boff e Marco Feliciano estão no mesmo time? O que vejo é que há, por exemplo, muitos cristãos, tanto católicos quanto evangélicos, que toleram ou até defendem os direitos humanos e civis das minorias. Há gays cristãos, também, tenho um exemplo na família. Por mais que isso possa parecer não fazer sentido algum (pra mim não faz), a fé é questão privada de cada pessoa e a liberdade religiosa merece ser respeitada. Isso mostra, do meu ponto de vista, que ser religioso (e evangélico especificamente) não significa que a pessoa terá posições contrárias ao reconhecimento de direitos de minorias. Nem todo religioso é um Feliciano ou um Malafaia.

Do outro lado, há pessoas que são menos religiosas, que fazem só o show necessário a campanhas, como é o caso de Aécio e Dilma, por exemplo. Nem por isso eles fazem uma defesa institucional de causas progressistas. Olhando os programas de governo dos três principais candidatos, o programa da Marina por incrível que pareça fica na frente, com uma defesa de pelo menos dois pontos bem concretos para a questão dos direitos LGBT: equiparação legal dos direitos de uniões civis entre pessoas do mesmo sexo e fim dos empecilhos à adoção de crianças por casais homoafetivos.

Aécio e Dilma não tem defesa específica nenhuma nos seus programas. Com 12 anos de governos petistas, depois de 8 anos de governos tucanos, a conquista do reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo teve que vir de uma decisão do Supremo Tribunal Federal e até hoje não foi codificado na lei. Tentativas de criar políticas contra homofobia foram jogadas fora por pressões da bancada evangélica, de que Marina não é nem foi integrante e que tem como expoentes aliados de Dilma como Anthony Garotinho e Eduardo Cunha. Avanços do Programa Nacional de Direitos Humanos 3 (PNDH3) foram revertidos. Ou seja, ser religioso, especialmente evangélico, não é condição necessária para representar uma política conservadora com relação aos direitos LGBT.

E aí é que eu chego na questão que eu considero a principal: se Marina se destaca positivamente em comparação aos outros dois grandes candidatos, ou no mínimo se iguala a eles, por que é praticamente só ela que sofre críticas em cima de críticas nessa questão? O que parece, infelizmente, é que Marina está certa: as críticas realmente não são exclusivamente às ideias, como querem meus amigos. São feitas especifica e principalmente pelo fato de Marina ser evangélica. É uma reação preconceituosa e contrária à liberdade religiosa.

Já estou te ouvindo dizer que Marina não é nenhuma santa e que tem várias posições questionáveis. Tem sim! Por exemplo, jogar a questão do aborto para um plebiscito é covarde e insensato – decidir direitos de minorias por votação da maioria é algo que vai contra o espírito da democracia. Dizer que “casamento” é definido pela Constituição como união entre homem e mulher é desonesto, porque pressupõe que a Constituição seja imutável, o que não é. Dizer que “casamento” é um sacramento pode fazer sentido, mas que sentido existe em um sacramento estar codificado na Constituição de um Estado laico? Se for o caso, mudemos o nome de tudo que tenha a ver com a parte civil do casamento para “união civil” e retiremos qualquer menção ao gênero dos unidos e qualquer menção à palavra casamento, ora!

Viu? Critiquei pesadamente a Marina, sem pra isso ter que citar a religião dela uma vez sequer. E posso extender críticas bastante similares aos outros dois grandes candidatos, que as merecem tanto quanto. O foco na religião cria uma cortina de fumaça que faz parecer que só Marina tem problemas no reconhecimento dos direitos de minorias, quando a verdade é que na prática ela pode representar até um passo à frente dos outros dois grandes candidatos.

Vamos parar com a hipocrisia.

2 Replies to “Marina é evangélica, logo conservadora?”

  1. Acho que a sua argumentação é procedente em alguns pontos, mas peca em outros. Quando dizem que o problema da Marina é ser evangélica eu estou totalmente de acordo que é preconceito, e que ela tem que ser criticada pelos aspectos seus na política, e não pelos religiosos. O problema é que, apesar do discurso bonito em torno do Estado laico, que ela faz muito bem, ela incorpora em sua agenda política uma série de questões religiosas – o que se torna, sim, um problema. Não por ser evangélica, esse argumento é válido para qualquer um que misture as duas coisas.

    Na defesa que ela faz do Feliciano, por exemplo, está certíssima de dizer que ele não deveria estar lá porque era despreparado, por não ter um histórico e nem preparação para tratar dos direitos humanos. Mas, para além disso, além do despreparao e da falta de envolvimento histórico, o Feliciano tem sim um problema de mistura da religião com a política que o torna ainda mais inadequado para o posto. E esse aspecto a Marina coloca debaixo do tapete. Ao justificar o direito de pregar a cura ou que homossexuais são pervertidos/pedófilos/doentes/promíscuos, ele traz para a agenda política aspectos conservadores ligados, por sua justificativa, à religião. E isso é sim um problema.

    Leonardo Boff e Feliciano não estão no mesmo time porque suas religiões são diferentes, mas porque o primeiro usa de argumentos religiosos para promover a tolerância, a diminuição da desigualdade e o amor ao próximo e o segundo usa a religião para segregar, oportunisticamente se promover e cercear direitos ao invés de aumentá-los. E você sabe que não estou defendendo um por ser católico e condenando o outro por ser evangélico, logo eu que quero de qualquer forma minha excomunhão. É o uso político que cada um faz da religião que os difere. Há evangélicos que, tal qual Boff, fazem um uso compreensivo e agregador da religião na política – não pela religião em si só, mas por terem nela a orientação de políticas públicas inclusivas.

    Sobre o programa da Marina, não sei qual versão você consultou, se a original ou a que foi imediatamente reparada. Mas o recuo entre ambas, após as ameaças no Twitter do Malafaia, foi muito grande. Essa, talvez, seja a área onde a Marina mais demonstra esse mesmo problema de imiscuir política e religião: ao não conceber o casamento CIVIL homoafetivo, o programa defende que seja garantida a união civil, mas não o casamento. Parece bobagem, mas não é. Primeiro, porque, formalmente, a união civil não existe na legislação brasileira. Ela é uma adequação da prática jurídica, por entendimento dos cartórios. O galho é: há muitos casos de reversão desses direitos no caso de sucessão, herança e até separação. Ou seja: não é a mesma coisa união civil e casamento civil. O significativo nesse ponto é que, ao defender claramente a abordagem da união civil, Marina está aceitando a pressão religiosa (sim, é religiosa) conservadora nas políticas de direitos humanos no país. Ok, concordo que nem Dilma nem Aécio compraram o argumento de defesa de uma legislação que assegure o casamento. Mas, no jogo político, isso é melhor do que a agenda da Marina, e por uma razão simples: ao não se comprometer com um lado (no caso, o conservador), ambos podem fazer vista grossa para as práticas progressistas implementadas no país, na maioria das vezes, por iniciativas do judiciário. Foi o caso do casamento civil igualitário no Brasil: Dilma não fez nada a favor, mas sua maior contribuição foi não fazer nada contra. Aécio seguiria na mesma linha. Nesse sentido, ao adiar a coisa empurrando uma não-decisão com a barriga, os direitos adquiridos vão acontecendo à margem da legislação formal e, um dia, de tão óbvia e imiscuida à sociedade, é naturalmente incorporada. No caso da Marina, o problema de escolher um lado, o conservador, ela assume uma abordagem de retrocesso, e não de avanço. E, sim, nesse caso, é uma adoção de sua percepção de mundo religiosa que orienta sua tomada de decisão na política e, sim, isso é um problema. Ou seja, a agenda da Marina, ao colocar aspectos vagos de inclusão, representam, na verdade, a adoção por um caminho de regulamentação conservadora – o que, na prática, indicaria retrocesso.

    Logo, quando muitos (eu, inclusive) criticam a Marina pelo aspecto religioso, não é por ela ser evangélica, é por ela trazer, por conta disso, uma agenda conservadora muito perigosa para a agenda política brasileira. Por que só ela é criticada por isso? Porque, protegidos por partidos “macacos velhos”, Dilma e Aécio sabem jogar o jogo: recebem oportunisticamente líderes religiosos, concedem em questões importantes da agenda religiosa (como a da legislação financeira ligada a igrejas) para manter um apoio, mas não adotam, no que se refere à agenda político-social, os radicalismos ligados à prática político-religiosa. Já a Marina, não. Não só o recuo dado no programa de governo é significativo como também a base de apoio que ela sinaliza construir é problemática. Ao não ter nenhuma base política sólida no Congresso, o grupo que diretamente vem se apresentando o interlocutor da candidata é o da bancada religiosa, maior responsável pelos conservadorismos políticos nos últimos anos.

    Que há pessoas que, cegamente, criticam a Marina por ela ser evangélica, e só por isso, há – e, concordo com você, não são poucas. Essas críticas são sim preconceituosas e merecem uma desconstrução bem feita. Contudo, isso não absolve a candidata pelo fato de trazer para sua agenda política questões que, em seu discurso, “orientam sua moral política”. E isso é, sim, extremamente problemático e pode sinalizar uma incorporação da agenda mais conservadora que temos em nosso Congresso Nacional. Logo, critico sim a Marina pelo que ela traz da religião evangélica para a sua prática política. Não defendo e nem critico católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas ou o que for. Mas critico qualquer um que, fazendo uso de seu argumento religioso, use-o na política para fortalecer políticas sociais conservadoras.

    1. “O problema é que, apesar do discurso bonito em torno do Estado laico, que ela faz muito bem, ela incorpora em sua agenda política uma série de questões religiosas – o que se torna, sim, um problema. ”

      Certamente, mas aí entra no ponto que eu abordei no texto: independente da razão, ela tem sim aspectos conservadores importantes na sua agenda. Mas os outros grandes também tem, mesmo não sendo religiosos. A Dilma deu agora uma guinada pra esquerda ao defender criminalização da homofobia – ironicamente porque ficou feio pra ela a candidata Marina ter um programa mais progressista, mas nós sabemos que não foi isso que ela defendeu nos últimos 4 anos.

      Feliciano, ironicamente, só entrou pra a CDH porque o PT permitiu, tirando a prioridade que sempre deu historicamente a essa comissão, não dá pra esquecer e deixar de colocar isso em perspectiva.

      “Essa, talvez, seja a área onde a Marina mais demonstra esse mesmo problema de imiscuir política e religião: ao não conceber o casamento CIVIL homoafetivo, o programa defende que seja garantida a união civil, mas não o casamento. Parece bobagem, mas não é. Primeiro, porque, formalmente, a união civil não existe na legislação brasileira. Ela é uma adequação da prática jurídica, por entendimento dos cartórios. ”

      Concordamos de novo, tem até isso lá no texto. Mas ter na legislação ou não é irrelevante, basta editar a legislação pra ter. E se for pra equiparar direitos, que é o que tem no programa, não vai ter diferença pra questões de herança nem nada. Então concordo.

      “Dilma e Aécio sabem jogar o jogo: recebem oportunisticamente líderes religiosos, concedem em questões importantes da agenda religiosa (como a da legislação financeira ligada a igrejas) para manter um apoio, mas não adotam, no que se refere à agenda político-social, os radicalismos ligados à prática político-religiosa”

      É esse o ponto em que eu discordo frontalmente de você pelas razões que expliquei no texto: Marina tem posições conservadoras sim, mas ela também está disposta a fazer vista grossa e de inclusive incorporar no programa de governo questões que não só reconhecem direitos adquiridos, mas que avançam, o que nenhum desses dois candidatos fazem. Eu não consigo ver nenhuma evidência de que Marina tenha interesse de fazer mais do que os outros dois já fazem. Mas aí você vai falar do recuo no programa, já falo dele.

      Mas apesar de discordar, acho que esse já é uma questão que dá pra ser levantada sim, seria melhor se fosse demonstrando que Marina lutou mais ativamente contra direitos na sua carreira política do que Dilma como governante, não consigo achar essa evidência.

      “Ao não ter nenhuma base política sólida no Congresso, o grupo que diretamente vem se apresentando o interlocutor da candidata é o da bancada religiosa, maior responsável pelos conservadorismos políticos nos últimos anos.”

      Interlocutor como assim? Como eu disse no texto, a bancada evangélica é da base da Dilma. Ela tava outro dia cedendo a pressões do Eduardo Cunha e há uma semana almoçando com Garotinho em campanha. Acho que não tem nenhum, mas nenhum mesmo, sentido em colar a bancada evangélica na Marina. Ela não participou da bancada evangélica, não vejo nenhum motivo pra achar que ela vai ser a favor do fundamentalismo e das táticas deles. Dilma, essa sim, está aliada com eles e cedeu em várias, várias questões. Se fosse pra considerar esse risco, Dilma tem um histórico pior.

      Também acho que dá pra levantar essa bola, mas se ignorar que a bancada evangélica está com Dilma e não mostrar que Marina participa e concorda com as táticas da bancada, fica uma análise meramente baseada no medo irracional, do meu ponto de vista. É algo que eu coloquei no texto também.

      “Logo, critico sim a Marina pelo que ela traz da religião evangélica para a sua prática política.”

      Pois, faça isso sim, critique o que ela traz. O fato de ela trazer isso da religião é menos importante, mas pode falar também, não tem problema. Só não esquece que existe uma prática política bem mais ampla, tanto dela quanto dos adversários, que não pode ser desconsiderada e que coloca tudo em perspectiva.

      Aí você entra com o recuo. Vou escrever um texto ainda pra falar exclusivamente desse caso, mas já adiantando: nesse ponto a gente também tem uma discordância frontal, fundamental: pra você foi recuo, pra mim foi erro da equipe.

      Foi uma gafe gigantesca e calhou muito pros críticos da Marina que entre um e outro tenha havido tweets do Malafaia criticando. Mas Marina explica que o texto que foi ao ar foi a contribuição original do setorial e não o que havia sido discutido com ela e outros membros da campanha.

      Eu não vejo nenhum motivo pra não acreditar na explicação dela: de fato é o que há no programa “corrigido” é o que a Marina fala desde 2010. Inclusive a defesa estúpida de dar um nome diferente (união civil), como eu também disse no texto.

      Eu acho que o que tá fazendo as pessoas verem isso como recuo é que elas *querem* ver isso como recuo. O preconceito contra ela impede as pessoas de aceitarem que pode ter sido sim um erro do pessoal que publicou. E sejamos honestos, candidatura com possibilidade de se eleger nenhuma seria tão progressista num programa de governo, infelizmente.

      Não seria a primeira vez que uma candidatura publicou uma versão anterior do programa. Você deve se lembrar que em 2010 a Dilma publicou uma versão do programa de governo que falava sobre aborto e que foi consertado depois da chiadeira de quem? Sim, bancada evangélica.

      Qualquer que seja a forma como você olha essa questão do programa da Dilma em 2010 e o da Marina de agora, dá pra ver que não tem como defender que ‘Marina é diferente por causa do recuo’.

      Se Dilma queria fazer aquele programa, mas cedeu a pressão da bancada evangélica, é um recuo tão ruim quanto. Se Dilma não queria fazer o programa e meramente corrigiu, mostra que erros desse tipo acontecem e que não acreditar que foi o que aconteceu no caso da Marina é má vontade com ela.

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