O que é e como funciona uma bolsa de valores?

Petrobrás vs Chevron e Exxon
Petrobrás vs Chevron e Exxon. Ainda acha que a Petrobrás caiu porque as petroleiras caíram?

A gente vê muito falar que a bolsa de valores caiu ou subiu de acordo com as notícias ou o humor do “mercado”. Com quedas seguidas no valor das ações da Petrobrás, houve muita gente dizendo que isso era um ataque dos especuladores para punir o governo. Será que faz sentido essa acusação? Resolvi escrever o que eu aprendi até agora – não sou da área, então se achar erros ficarei feliz com correções ;).

Empresas têm capital que é composto por dinheiro, equipamentos, propriedades. Os sócios geralmente entram com dinheiro próprio ou conseguem investidores que passam a ser donos de partes do capital da empresa. A bolsa de valores é uma instituição que compõe o sistema financeiro e permite a empresas venderem participação na empresa em troca do aumento do seu capital. É um jeito de juntar dinheiro através da incorporação de novos sócios.

Esse processo é geralmente chamado de IPO, sigla em inglês que significa Initial Public Offering – Oferta Pública Inicial. Na oferta inicial, decide-se quantas ações comporão o total do capital da empresa, quantos porcento dele cada sócio deve manter e quantas serão ofertadas. Uma instituição financeira é contratada para avaliar o preço inicial adequado para a ação. Bancos de investimento compram todas as ações e passam a oferecê-las na bolsa.

O objetivo dessa oferta pública é basicamente, deve ficar claro, levantar dinheiro para o caixa da empresa, para que ela possa ampliar investimentos. A empresa passa a ter vários donos que podem mudar conforme as ações são renegociadas, daí passar a ser chamada de Sociedade Anônima (as famosas S.A.). Há outras formas de se tornar S.A. sem ter que abrir ações na bolsa, mas toda empresa que está na bolsa é uma S.A.

Porque esses novos donos são geralmente minoritários, não conseguem ter grande poder de decisão sobre a empresa e podem sofrer com más decisões tomadas pelos majoritários e por isso precisam de alguma proteção.

Além da lei, que tem dispostivos para proteger minoritários, a bolsa de valores também tem um papel importante: para tornar pública uma empresa, a bolsa exige que determinadas práticas de governança e transparência sejam adotadas, tais como a publicação trimestral de resultado financeiro. Há regras também para obrigar que a empresa faça anúncio de fatos que sejam relevantes para todos os sócios e potenciais sócios.

Uma coisa que eu demorei a entender é qual o benefício para a empresa depois da capitalização na oferta inicial. Depois da oferta inicial a empresa pode também obter financiamento através de emissão própria de dívida, as chamadas debêntures: você empresta dinheiro para a empresa comprando as debêntures e ela promete pagar de volta depois de determinado tempo com juros. A transparência exigida pela bolsa é essencial para que seja possível avaliar o risco de emprestar dinheiro para as empresas.

Além disso, a própria capitalização pode ser repetida com emissão de novos blocos de ações. Foi o que a Petrobrás fez em 2010, por exemplo: criou novas ações e as vendeu inclusive para trabalhadores, que puderam usar para isso seu FGTS. O capital da empresa é ampliado pelo dinheiro pago pelos compradores, que vai para seu caixa e passa a poder ser usado para investimentos.

Quando novas ações são emitidas para aumentar o capital total, o percentual dos sócios já existentes sofre uma redução. Pense comigo: se eu tenho 1 parte de 5, tenho 20%; se crio mais 5 partes, passo a ter 1 em 10, 10%. Para evitar essa perda de tamanho da participação, os sócios existentes têm que aportar mais dinheiro para comprar mais ações. O Governo Federal fez isso em 2010 para se manter dono de mais da metade da empresa. Para isso usou uma manobra financeira que envolveu inclusive vender à Petrobrás barris de petróleo que estavam ainda em poços que sequer haviam sido furados.

Voltemos à bolsa. Além das ações individuais, há também os índices, que consideram as cotações de várias ações para formar uma cotação única que procura representar o todo. Há indices para setores específicos como energia e, no caso da Bovespa, o ibov, um índice que tenta representar o mercado como um todo, com ações de vários setores, cada uma com um peso. Ações da Vale e da Petrobrás têm um peso bem grande no ibov por serem duas das maiores S.A.s do país, grandes quedas ou grandes ganhos nelas vão provavelmente carregar o índice para o mesmo lado.

Muito bem. E o que faz os preços das ações subirem e caírem? O famoso mercado: investidores institucionais (fundos de investimento e de pensão, por exemplo) ou individuais (eu, por exemplo) tentam usar as informações fornecidas pela empresa, perspectivas do setor e situação da economia em geral para adivinhar se os lucros da empresa crescerão ou cairão. É a esse trabalho de adivinhação que se chama de especulação.

Se alguém acha que a empresa vai piorar, a tendência é querer vender a ação. Ela olha a cotação do momento e coloca as ações a venda naquele preço. Se as ações forem vendidas rapidamente, tudo bem. Se não, o investidor tem duas opções: ficar com as ações ou baixar o preço para torná-las mais atrativas. É assim que a cotação cai.

Pensemos pelo lado do comprador: se eu acreditar que a empresa terá bons lucros no meu horizonte de investimento, vou comprar. Então coloco uma proposta de compra pelo preço da cotação atual e temos aí o mesmo caso do vendedor: se ninguém me vender, eu posso desistir da compra ou aumentar o valor da minha oferta para conseguir comprar. É assim que a cotação sobe.

Ofertas de compra e de venda para ações da CEMIG
Ofertas de compra e de venda para ações da CEMIG

Observe a caixinha de cotação acima de uma corretora de ações. Dá pra ver que no lado da venda as ofertas são de preços maiores que o da cotação atual e as ofertas de compra estão na cotação. Se as coisas continuarem assim nada acontece, então um dos lados vai ter que dar um passo na direção do outro, ou novas ofertas terão que aparecer para que negócios sejam concretizados.

Agora que entendemos como são formadas as cotações, suponha que um investidor queira “punir” o governo fazendo a cotação das ações da Petrobrás cair, por exemplo. Durante as eleições havia quem acreditasse que os investidores faziam isso como forma de incentivar o voto contra Dilma, já que sempre que ela subia nas pesquisas as ações caíam.

O que o investidor precisa fazer é induzir a venda de muitas ações a preços baixos. Caso ele tenha o poder de induzir uma histeria generalizada, ótimo: caso tenha ações da empresa, ele pode vender as suas pelo preço atual, logo antes de causar a histeria, não sofrendo ele próprio o revés.

A outra possibilidade é ele próprio colocar muitas ações a venda por um preço bastante baixo, levando investidores a não aceitarem comprar por preços mais altos. Isso faria muito mal a ele próprio, já que vai receber por suas ações um preço bem abaixo do que elas valeriam na verdade.

E o pior: provavelmente o investidor só conseguiria manter o preço artificialmente baixo por pouco tempo, já que com cabeça fria outros investidores conseguiriam perceber que a ação está barata e começariam a ir atrás delas aceitando pagar cada vez valores mais elevados, quando as mais baratas parassem de ser vendidas. Isso faria o preço voltar ao patamar mais próximo do real.

Pensando de forma mais realista, o mais provável é que os investidores estivessem reagindo a expectativas do que aconteceria caso os respectivos candidatos fossem eleitos. Com um histórico de má gestão na Petrobrás pelo governo Dilma, era de se esperar que a gestão ruim e o uso político continuariam e que com as outras opções a situação melhoraria. Eu sei que eu estava.

As bolsas de valores são instrumentos muito interessantes, que dão a empresas acesso a muitas possibilidades de se financiar. Além disso, é uma ferramenta interessante para dar acesso à população em geral não só aos riscos, mas aos lucros das empresas. É um jeito de ser dono de um pedacinho de empresas em que você acredita. Espero que tenha ajudado um pouco a entender o que elas são.

Obrigado ao Leonardo D’Angelo por me ensinar que quem compra as emissões iniciais de ações são bancos de investimentos e não corretoras.

Obrigado ao Sílvio Cruz por me ensinar que nem toda S.A. é também aberta (ou seja, tem ações na bolsa).