Meta de inflação de 3% dá em 15% de desemprego?

Durante as eleições, a presidente Dilma Roussef disse num debate que os candidatos da oposição propunham reduzir a meta de inflação dos atuais 4,5% para 3% e que isso significaria 15% de desemprego. Antes disso, em maio, ela havia dito que uma meta de 3% geraria desemprego “lá pelos 8,5%, 9%, 10%, 11%, 12%. Por aí“.

Ignorando a falta de precisão que indica falta de amparo teórico sólido, de onde ela tirou isso? Suponho que seja da teoria relacionada à chamada curva de Phillips. Quando foi criada, na década de 50, a curva de Phillips representava a realidade empírica do mundo da época: existia uma correlação entre níveis mais altos de inflação e níveis mais baixos de desemprego. Olhando essa realidade, acreditava-se na existência dessa relação inversa.

Mas a teoria foi posta a prova alguns anos depois pelo que veio a ser chamada “estagflação”: desemprego e inflação altos, indicando que não havia uma relação inversa assim tão forte. Diante da nova realidade empírica, a teoria foi revista e incorporou as novas informações. Depois de muito debate, os economistas chegaram à conclusão de que políticas anti-inflacionárias tinham sim relação inversa com taxas de desemprego, mas somente no curto prazo. Diante de políticas restritivas, a inflação cai, o desemprego pode aumentar, mas nada impede que volte a cair em seguida, sem que a inflação volte a crescer.

Nem precisa ir muito longe para confirmar essa visão. Veja o gráfico abaixo que eu produzi com os dados do IPEA para desemprego (dados da PNAD – que tem taxas maiores que as da PME do IBGE em razão da melhor cobertura) e do Banco Central para inflação e taxa de juros durante o governo Lula, por exemplo:

Inflação vs desemprego: dados do IPEA e do BC
Inflação vs desemprego: dados do IPEA e do BC

A SELIC é a taxa básica de juros, um dos instrumentos utilizados pelo Banco Central para controle da inflação. Em 2003 a meta de inflação foi de 8,5%. Durante o primeiro ano de mandato, Lula decidiu com Palocci quais seriam as metas para 2004 e 2005: para 2004 a meta baixou para 5,5%, para 2005 caiu para os atuais 4,5%. Para atingir essa meta é que a taxa de juros foi aumentada de 2004 para 2005 como pode ser visto no gráfico e dá pra perceber que o governo teve bastante sucesso em reduzir a inflação medida, sem que crescimento equivalente e persistente da taxa de desemprego acompanhassem, muito menos nos níveis absurdos sugeridos por Dilma.

Se Lula conseguiu baixar em 4 pontos percentuais a meta de inflação sem produzir desemprego, por que será que Dilma acha que reduzir 1,5 pontos causaria uma explosão dos níveis de desemprego? Não tenho explicação racional. Será que Dilma não acompanhou a evolução do conhecimento econômico? Não acompanhou as medidas e os resultados do governo de que participava? Não conhece os níveis de inflação e emprego de vizinhos nossos como o Chile, ou dos EUA, que já está com nível de emprego recuperado depois da crise, com inflação baixa? Ou a China, que tem inflação próxima de 2%, com desemprego de 4%?

Acho que ela sabe disso tudo, sim. A defesa feita por Dilma me parece uma tentativa de usar a retórica para defender suas políticas sem escancarar o que acredita de fato. Ela acredita ser essencial para o crescimento do país que o governo continue gastando, que se continue colocando bilhões no mercado através de empréstimos via BNDES e desonerações fiscais para setores que o governo ache que precisam, mesmo que isso custe inflação maior

Mais do que isso: Dilma acredita que um pouco de inflação faz bem ao crescimento, mesmo que os estudos disponíveis sobre o assunto mostrem que só há relação estatisticamente significativa entre crescimento e inflação nos casos de inflações acima de 20%. Ou seja, não há indicação nenhuma de que deixar a inflação subir de 4,5% para 6,5%, como fez o governo, ajude com crescimento. Isso só faz atrapalhar a vida das pessoas, especialmente as mais pobres, que são mais afetadas por aumentos de preços. Até porque, o Bolsa Família, de que os extremamente pobres dependem, teve perda real de valor por ter ficado 3 anos sem reajuste e ser reajustado em somente 10%, quando a inflação acumulada no período foi de 19,6%.

Voltando às desonerações e desemprego, dizem Dilma e Mercadante que essas políticas foram as responsáveis por manter o nível de emprego até agora. Será? Existem números demonstrando que os setores que receberam desonerações demitiram menos? O que eu sei é que o setor automobilístico está demitindo, apesar de ter sido beneficiário das desonerações. Mas ainda que fosse o caso e as medidas estivessem salvando postos de trabalho, gostaria de propor a seguinte reflexão: só até setembro de 2014, a política de desonerações gastou 76 bilhões (que agora o governo quer mudar a lei pra poder abater da meta de superávit!) e atingiu apenas alguns poucos setores escolhidos a dedo pelo governo. Por que esses postos de trabalho merecem ser salvos em detrimento dos outros?

É possível que o setor não fosse demitir sem as desonerações ou que tenha demitido mesmo as tendo recebido. Qualquer que seja o caso, o que foi feito com o dinheiro que foi economizado, já que não foi reinvestido no país, como mostra a queda do nível de investimento de 18% do PIB para 16,5% do PIB no governo Dilma? Colocaram no banco pra render? Tiraram como lucro? Existe alguma avaliação dessa política que demonstre o real benefício social? Quantos empregos foram salvos? Qual nível de renda ajudou a garantir? E por que os outros setores que não foram beneficiados não demitiram em maior número? É muito dinheiro pra gastar sem avaliar, não acha?

É sabido que os preços de carros no Brasil são muito maiores do que poderiam ser, algo que fica evidente ao ver que carros produzidos aqui e exportados para Argentina e México são mais baratos lá, mesmo com a necessidade adicional de logística! O país é um paraíso para essas empresas montadoras de carros: qualquer risco de redução de compras leva o governo a dar uma ajudinha, vai reduzir preço pra quê? Há um risco grande de que essa política esteja na verdade protegendo lucros dos empresários ao invés de proteger empregos de trabalhadores, principalmente diante da realidade de que há demissões no setor.

Vamos pensar num caso alternativo: os trabalhadores são demitidos. Nesse caso, eles poderiam receber o seguro desemprego, que nesse ano vai custar 35 bilhões. Só com as desonerações feitas para setores específicos da indústria até setembro daria para triplicar o seguro desemprego, atendendo mais pessoas ou aumentando os vencimentos dos beneficiários. Como ainda tem outubro a dezembro faltando na conta das desonerações, é possível que esse valor ainda cresça de forma significativa, talvez dê até pra quadruplicar o seguro desemprego. O dinheiro iria diretamente para os trabalhadores, não incorrendo no risco de fazer distribuição de renda às avessas.

Infelizmente, acho que a realidade está prestes a mostrar para Dilma, Mercadante e seus eleitores que as políticas deles é que acabam sendo recessivas e que se há algum número macroeconômico altamente correlacionado com nível de emprego, principalmente num país com crescimento populacional significativo como o nosso, é o do crescimento do PIB. Já tivemos o pior mês para o emprego desde 1999, com 30 mil demissões a mais que contratações. Se o nível de emprego ceder, talvez percebam que as desonerações amiúde não ajudam.

O baixo nível de desemprego é o último bastião de defesa do governo Dilma, mas se a política econômica não sofrer mudança de rumo, e nada indica que vá, não acho que vai durar muito. E não, não vai ter nada a ver com meta de inflação baixa.