Os números absolutos atacam novamente

Há alguns meses eu escrevi sobre como o uso de números absolutos pode servir para confundir os incautos e fazer comparações que não fazem sentido. Recentemente houve um novo exemplo disso que é bastante ilustrativo. Uma matéria da Folha de São Paulo saiu com a seguinte manchete: “Miséria cresceu mais em SP que em Estados do Nordeste”.

Miséria cresceu mais em SP que em Estados do Nordeste
Manchete da Folha

Essa manchete é falsa e é muito fácil ver isso! Em São Paulo, o número de miseráveis era de 690 mil pessoas, de acordo com a matéria, e cresceu para 815 mil. Na Paraíba, era de 131 mil e foi para 180 mil. Em números absolutos, é bem claro que SP teve crescimento maior: foram 125 mil novos miseráveis, enquanto a PB teve um aumento absoluto de 49 mil.

Mas usar números absolutos para calcular aumento cria distorções que podem ser evitadas usando  percentuais… basta calcularmos a variação percentual para ver que na verdade o crescimento foi proporcionalmente maior na PB: surpreendentes 37%, contra 18% de São Paulo. Dá para ver por esse gráfico que fiz com os dados da matéria que, considerando somente SP e os estados do nordeste, SP é o segundo estado em que a miséria mais cresceu. A Paraíba fica em primeiro de longe e São Paulo é seguido bem de perto por Alagoas:

Crescimento da misérias 2012-2013 nos estados do nordeste e SP
Crescimento da misérias 2012-2013 nos estados do nordeste e SP

A matéria diz que 15% dos novos miseráveis brasileiros está no estado de SP. Isso é uma informação verídica, mas que fica descontextualizada sem levar em conta que SP é muito mais populoso que os outros. No parágrafo seguinte a matéria ensaia dar essa informação, citando o número de habitantes, mas sai pela tangente com “naturalmente um mau resultado tem peso numérico maior”, que quer que isso queira dizer.

O gráfico a seguir mostra o número de novos miseráveis por mil habitantes. Podemos ver que os 125 mil novos miseráveis de SP ficam muito menos assustadores quando colocados no contexto dos seus 43,6 milhões de habitantes, enquanto os 118 mil do Maranhão representam assustadores 17,5 pessoas por mil habitantes, quando considerados seus 6,7 milhões de habitantes totais.

Novos miseráveis por mil habitantes
Novos miseráveis por mil habitantes

Disse menos assustador ali mas fiquei pensando que não tem nada de menos assustador no crescimento da miséria. É um problema grave que ainda atinge muita gente e que teve um crescimento substancial em todos os estados brasileiros com exceção da Bahia e do Distrito Federal de 2012 a 2013 (e temo que 2014 também).

É importante lembrar que esses números foram represados pelo IPEA durante a campanha eleitoral, para evitar prejudicar a candidata presidenta. Também acho interessante que os defensores incondicionais do PT, embora reclamem da Folha por em tese ser contrária aos governos do seu partido, citam matérias como essas sem o menor pudor ou reflexão.

De qualquer forma, torçamos para que Dilma consiga nos próximos 4 anos reverter esse quadro e voltar à queda que vínhamos tendo até seu governo, cumprindo enfim sua promessa de erradicar a miséria.