A escolha dos caças suecos

Um comentário (de alguém que aprofundou muitíssimo pouco na questão e confessa) sobre a escolha dos caças suecos pelo Governo Federal: vi muita gente batendo, especialmente gente que faz oposição ao governo atual (entre as quais me incluo) falando que depois de tanto tempo o governo fez a pior escolha.

Eu discordo e acho que na verdade acabou foi fazendo a melhor escolha mesmo. Me explico: os franceses eram os mais caros e pelo que li seriam assim não só no contrato inicial de compra, mas em todo o processo produtivo e de manutenção. No entanto, eu ficava do lado deles quando a decisão era entre franceses ou estadunidenses por um motivo muito simples: os estadunidenses não topam fazer transferência completa de tecnologia – em especial, eles não estavam dispostos a transferir todo o código fonte dos sistemas dos caças.

Agora você imagina: sem os códigos fonte nós não só não teríamos como consertar e modificar os caças completamente, como não teríamos nunca certeza de se os caças estão enviando informações de telemetria pro pentágono ou se poderiam até mesmo receber comandos dos EUA remotamente. Quando nós defensores do Software Livre levantávamos essa questão no passado, a alguns parecia teoria da conspiração. Afinal de contas, um aliado nunca faria uma coisa dessas, certo? Se a crise de espionagem não foi suficiente pra abrir os olhos dessas pessoas, não sei do que vai precisar. Se nós não temos todos os códigos fontes dos caças eles não são só assets, são liabilities. E das grandes. Simples assim.

Aí veio a decisão pelos caças suecos – aparentemente em razão da crise de espionagem, dizem; Snowden nos salvando mais uma vez da falta de noção e falta de pé no chão! Os caças suecos serão completamente fabricados no Brasil, com transferência tecnológica completa e sairão mais baratos que os dos EUA e os da França. Quem me conhece sabe que eu não sou desses que acha que tem que ter indústria brasileira protegida, garantia de conteúdo nacional, muito menos sou ufanista. Mas acredito que em questões de defesa isso pode fazer a diferença.

Uma coisa que tem sido levantada como ponto fraco dos caças suecos é que eles são ainda protótipos e nunca estiveram em combate; isso significa que o desempenho deles não foi ainda testado e que levará mais tempo ainda para que eles sejam colocados em uso de fato. Nós já estamos usando a gambiarra da gambiarra da gambiarra, então isso é um problema grave.

Até hoje a questão de nunca terem sido testados em combate me parecia importante – apesar de não ser suficiente pra me demover da questão da transferência tecnológica que pra mim é ponto fundamental, inegociável. Mas a Andrea Ferraz, com quem tenho um amigo comum, numa discussão no facebook, fez o seguinte comentário:

… Quanto ao fato de o caça não ter sido testado em guerras, isso não é problema, mas sim, uma vantagem para a Fab, pois estaremos envolvidos em decisões chave do projeto e poderemos incluir nessa etapa nossas necessidades.

Não tinha pensado por esse lado, mas faz sentido. Se nós nos envolvermos no processo e levarmos a sério poderemos, além de absorver tecnologia, usar nossa experiência com os caças atuais e o patrulhamento das nossas fronteiras e defesa do nosso espaço aéreo pra tornar os caças ainda mais customizados para nossas necessidades.

Levando tudo isso em consideração, do meu ponto de vista não tinha escolha melhor.

Resenha: O Engajamento do Brasil nas Operações de Paz da ONU

Demorei, mas acabei hoje de ler O engajamento do Brasil nas Operações de paz da ONU, livro do amigo (e desde ontem Doutor, meus pára-choques!) Lucas Rezende. O propósito central do livro é descrever e analisar o real engajamento do Brasil nas operações de paz da ONU através de analise comparativa proporcional de envio de efetivo (especificamente militar – tanto tropas quanto observadores – e policial, no caso).

Capa do livro

Foi uma leitura muito interessante pra mim que sou noob completo no assunto porque ao preparar o terreno pra o propósito principal, o Lucas faz uma descrição e revisão bibliográfica da própria formação da ONU e dos debates sobre quais deveriam ser os mandatos da Organização, em particular do seu Conselho de Segurança e das suas operações de paz.

Faz uma descrição muito interessante das mudanças que ocorreram a esse respeito, com a crescente preponderância das operações intra-estatais e da aceitação de operações de imposição de paz, opostas às de manutenção da paz após o declínio soviético.

Pra colocar o Brasil na salada, começa por uma descrição da evolução da política externa brasileira, seu foco e modus operandi desde tempos pré-ONU até a atualidade. Em particular achei muito interessante a posição constante do Brasil contra as operações de imposição de paz.

Mas aí chegamos no filé mignon do livro: a análise que nos mostra que, apesar de o Brasil ter aumentado sua participação em organizações multi-laterais e apesar da demanda pelo assento no Conselho de Segurança, o Brasil ainda é muito aquele tipo de participante que diz “nós devíamos fazer X” quando na verdade está dizendo “vocês deviam fazer X” – mesmo com número razoável de participações em operações de paz, o Brasil participa quase sempre com número ínfimo de tropas e policiais. Quando há uma maior participação, no geral, é com observadores (militares, o livro não tem dados de civis).

A principal exceção à regra é a operação de paz em que o Brasil ainda está envolvido até hoje e que comanda – a MINUSTAH, do Haiti, mas mesmo nela o Brasil não chega a ter uma liderança firme em termos de contribuições proporcionais, sendo equiparado por Jordânia e Nepal.

É possível que isso signifique uma mudança de postura, o futuro dirá; infelizmente o livro acaba a análise das dados no ano de 2009, mas já propõe que seria interessante uma análise do impacto que o terremoto de 2010 no Haiti teve no engajamento brasileiro e eu já adiciono aqui uma segunda: o impacto da imigração de haitianos que tem entrado ilegalmente no Brasil desde então.

Pra terminar, a única crítica/sugestão que me veio em mente: os gráficos seriam provavelmente mais fáceis de ler se estivessem em formato de barras empilhadas, como o desse exemplo.

No mais, leitura recomendada pra todo mundo que se interessa por política, relações internacionais, política externa, ONU, guerra e paz!