Pedaladas para dummies

Fiquei pensando num jeito simples de pensar o que são as pedaladas e cheguei nessa historinha. Imagine a seguinte situação:

Um casal tem um filho e quer ensinar a ele como gastar dinheiro de forma responsável. Estabelecem uma mesada e fazem com ele um acordo: se não gastar de uma vez e chegar ao final do mês com algum dinheiro sobrando, a criança ganha uma caixa de chocolates.

O menino não faz muito esforço para atender o acordo. Pelo contrário, vai com amiguinhos a lanchonetes, compra doces e tudo. Mas com um detalhe: sabendo que um dos seus amigos sempre tem bastante dinheiro e é íntimo o suficiente para não negar ajuda, alega ter esquecido o dinheiro e pede que o amiguinho pague, prometendo pagar depois.

Apesar do padrão de gastos indicar que não vai sobrar nenhum dinheiro, os pais continuam satisfeitos porque o menino sempre mostra o dinheiro que ainda tem e, do ponto de vista dos pais, tudo indica que ele está mesmo gastando aos poucos.

Ao final do mês, na última conferência, o menino ainda tem dinheiro em mãos e ganha a caixa de chocolates. Prêmio conquistado, o menino paga o amiguinho que ficou devendo.

Os personagens da historinha, na realidade: o menino é o governo, o amiguinho são os bancos públicos, os pais são o povo brasileiro e o Congresso Nacional.

Em 2013, técnicos do Tesouro Nacional alertaram através de relatórios que a situação fiscal brasileira era grave e que iríamos perder o grau de investimento em até 2 anos. Dilma decidiu ignorar esses alertas e, para não assustar o público, decidiu adotar o artifício que ganhou o nome depedaladas. Ou seja, deixar de repor os gastos dos bancos públicos com os programas sociais.

O objetivo do uso desse artifício não era “garantir programas sociais”, como o governo quer que acreditemos, nem faria sentido. O governo apresentava superávits, certo? Então tinha dinheiro, não repôs por quê? Essa é a pergunta de 1 milhão de pedaladas: por que motivo o governo decidiu deixar de depositar o dinheiro nos bancos públicos?

Muitas desculpas são inventadas, mas o objetivo me parece bastante óbvio: assim como o menino da historinha, o governo tinha muito a ganhar escondendo a situação real das contas nacionais. Enganava o Congresso, enganava as agências de rating e, mais importante de todos: enganava os eleitores.

Para ganhar as eleições, era crucial negar à oposição o discurso de que a economia ia mal. A campanha foi fortemente baseada em chamar de pessimistas quem apontava erros na política econômica e alertava para o crescente desajuste fiscal. O personagem “Pessimildo” dava o tom: se fala que o Brasil está à beira do colapso fiscal é porque é da turma do quanto pior melhor.

Peadalas
Saldo do governo na conta do governo na CAIXA ao longo do tempo

E para a oposição ficava de fato muito difícil defender que havia um problema quando o resultado fiscal do governo vinha positivo mês após mês. Depois das eleições, como fica fácil ver no gráfico, o governo tirou o pano de parte da fraude fiscal e mostrou a situação real: um déficit primário, algo inédito em 10 anos, de 32 bilhões de reais.

Foi o equivalente de os pais do menino da nossa história ficarem sabendo que, ao contrário do que pensavam, não só o filho gastava todo o dinheiro, como já estava devendo bastante ao amiguinho. Dilma insiste que tudo aconteceu já no final do ano de 2014. Acredita quem quer.

Outra coisa que gostam muito de dizer é que isso é algo que “todos fizeram”. O gráfico já torna óbvio que o que houve foi bem diferente do que vinha acontecendo. O mais importante nem é a amplitudo vertical dos déficits, mas a demora em fechá-los. Você vai perceber que eles são fechados depois de datas importantes, no caso de 2014 as eleições. Por que deixar os bancos tanto tempo sem reposição se havia dinheiro para cobrir?

Pra mim pelo menos está claro que Dilma usou dinheiro dos amiguinhos pra garantir sua caixa de chocolates. Foi por pouco, com base numa campanha vil, vergonhosa, com base numa fraude, mas ganhou. A ver se vai conseguir convencer de que deve mantê-la.

Novas conversas sobre Petrobrás

No comecinho de 2013 eu tive alguns debates com amigos sobre a Petrobrás, em especial sobre a política de manter os preços de combustíveis mais baixos do que o preço internacional, e escrevi um texto tratando dos principais argumentos.

Os argumentos são vários e giram geralmente em torno do caráter público da empresa. Muitos argumentos inclusive continuam a ser usados até hoje. Na verdade, alguns amigos tentam até hoje dizer que o que houve não foi um subsídio consciente, mas sim um esforço para suavizar a volatilidade do preço.

Já seria difícil comprar esse argumento considerando o longo período em que o preço foi mantido abaixo da cotação internacional, mas a presidente Dilma reconheceu expressamente durante a campanha de 2014 que a ideia era subsidiar, como escrevi aqui na época.

Para além da mera negação, os dois principais argumentos são: por ser uma empresa pública, a Petrobrás não deve se preocupar com lucro e deve sim ser usada para praticar políticas públicas de interessa nacional, como o subsídio ao preço de combustíveis.

Como argumentei lá em 2013, acho que o governo pode dar subsídios ao que bem entender, desde que o faça através do orçamento, com debate público. Subsídios são uma forma de transferir renda e de criar incentivos que podem ser bons ou ruins. No caso do subsídio aos combustíveis, houve transferência da renda de todos os brasileiros (que são os donos principais da Petrobrás) para quem usa carros.

O preço reduzido também contribuiu com o aumento da frota nas cidades, causando mais poluição e congestionamentos, o que causa prejuízos à sociedade como um todo. Podia até ser que o Congresso autorizasse esse subsídio, que na minha opinião é absurdo, mas nesse caso seria uma decisão democrática. Da forma como foi feito, a Petrobrás foi usada meramente para pular esse inconveniente debate.

Aí vem o outro argumento. Como é sabido, esse subsídio aos preços de combustíveis gerou muito prejuízo para a Petrobras, já que nós não somos auto-suficientes e tivemos que importar para atender à demanda. A Petrobrás ficou na absurda posição de ter mais prejuízo quanto mais combustível vendia.

Bom, mas é uma empresa pública e não precisa lucrar, certo? Eu acho esse argumento fundalmentamente errado, porque é através do lucro que a empresa gera caixa para investir. O lucro também é um indicador de que os investimentos estão fazendo sentido econômico.

Mas sejamos pragmáticos: torrando caixa com compra de combustíveis como a Petrobrás torrou, ao mesmo tempo em que aumentava expressivamente os investimentos no pré-sal, a Petrobrás teve que fazer muitos empréstimos para conseguir honrar seus compromissos.

Ela é conhecida hoje como a petroleira mais endividada do mundo. E, com a perda do grau de investimento, a empresa ficou sem crédito no exterior. Agora, com o preço do petróleo baixíssimo, arriscando inclusive tornar o pré-sal inviável, a Petrobrás está sendo obrigada a cortar investimentos e vender ativos para conseguir honrar os pagamentos dos empréstimos.

Dilma recentemente disse que é “um escândalo” acreditar que a Petrobrás possa quebrar. É verdade! Empresas estatais não quebram. Por lei. Quando a empresa fica sem dinheiro para honrar compromissos o governo é obrigado a colocar dinheiro do contribuinte para cobrir o buraco. É como se nós todos fossemos fiadores da Petrobrás.

Enfim, eu acho que a Petrobrás deve sim perseguir o lucro e a sensatez econômica. Mas vamos supor por um minuto que faça sentido ela ter prejuízos para implementar uma política pública. Nesse caso, não faz sentido a empresa ser aberta, ter ações na bolsa.

Sendo único dono de uma empresa pública, o governo poderia decidir que faz sentido arriscar dinheiro dos contribuintes para fazer algo que interessa ao povo. Mas quando se envolve acionistas diversos, o interesse dos acionistas é algo que precisa ser levado em conta.

E antes que você diga foda-se os acionistas, deixe-me lembrar uma coisa aqui.

Em 2010, quando as coisas pareciam ir bem, o governo brasileiro fez uma gigantesca capitalização da Petrobrás. Em outras palavras: convidou investidores a comprarem novas ações da empresa para obter fundos para investimentos. O governo permitiu que 30% do FGTS fosse usado para investir na empresa e 26 mil trabalhadores aplicaram R$ 423,8 milhões em ações da Petrobrás em 2010.

Não são bilionários rentistas do malvado capital financeiro, são trabalhadores que confiaram parcela significativa do seu fundo de garantia. De lá pra cá as ações tiveram uma queda de 82%. Os 423,8 milhões dos 26 mil trabalhadores viraram 76,2 milhões. O investimento médio de 16 mil reais virou pouco menos de 3 mil reais. O FGTS rende pouco, mas destruir dinheiro assim ele não destrói.

Se o governo está disposto a adotar políticas economicamente insensatas que destruam a empresa, não dá pra compartilhar esse ônus com acionistas, principalmente os trabalhadores que confiaram seu fundo de garantia. Dá? Se insistir em fazê-lo, é fundamental fechar o capital da empresa.

Aproveitando a atual situação do petróleo no mercado mundial, com queda de preço que prejudica todas as petroleiras, os governistas vão tentar dizer que não é um problema exclusivo da Petrobrás. Eles não estão errados, mas também não estão contando toda a verdade. Veja o gráfico abaixo, tirado do Google Finance, que mostra a variação percentual do valor das empresas petroleiras desde outubro de 2010:

Comparação de petroleiras de outubro de 2010 até hoje
Comparação de petroleiras de outubro de 2010 até hoje

Vemos que de fato todas as empresas de petróleo vêm sofrendo desde fins de 2014, quando o preço do petróleo começou a cair. Mas vemos também que a Petrobrás vem tendo queda desde 2011 e está descolada do restante do grupo desde então. Tanto Chevron quanto Exxon conseguiram não ter perdas com relação a outubro de 2010, a Shell (RDSA) teve uma queda de 17%. Já a Petrobrás teve a queda de 82% que já comentei acima.

Há dois outros pontos importantes para observarmos no gráfico. Primeiro: a Lava Jato, outro fator que certamente impacta o valor de mercado da empresa, fez as primeiras prisões em março de 2014. Vemos que boa parte da queda de valor, perto de 50%, veio antes disso. Ou seja, a derrocada começou bem antes da Lava Jato aparecer.

Segundo: há uma reação significativa na época da eleição em 2014. Essa reação se deveu às chances elevadas de que a oposição iria ganhar e foi revertida imediatamente após a vitória de Dilma.

Não tem jeito. Lava Jato e preço do petróleo são obviamente fatores que impactaram nessa perda enorme de valor que destruiu parte do FGTS dos trabalhadores que acreditaram nas promessas, mas estão longe de ser a razão mais importante. Como vimos, 50% da queda já vinha de antes de qualquer desses dois eventos.

A causa da maior parte da crise da Petrobrás é, como em diversas outras crises brasileiras, a incompetência do governo Dilma.

Quando os papéis se invertem

Há muitas semelhanças e muitas diferenças entre os segundos mandatos de Fernando Henrique Cardoso e Dilma Rousseff. Os dois presidentes começaram o novo mandato com queda significativa de popularidade, ao terem que finalmente desligar os custosos aparelhos que mantinham a economia saudável de forma artificial.

Na esteira da baixa popularidade, ambos viram crescer manifestações de rua: no caso de FHC puxados por organizações ligadas ao PT como a CUT, no caso de Dilma iniciados por movimentos não ligados à política tradicional e movimentos sociais. Os dois também viram surgir movimentos pró-impeachment.

Em 1999, FHC e seus aliados, incluído aí o atual Senador Aécio Neves, defendiam o governo acusando os que pediam impeachment de golpistas que não aceitavam o resultado das urnas. Já a oposição defendia que golpe mesmo teria sido FHC manter a situação artificialmente boa para se eleger. Além disso, procuravam motivos que servissem de justificativa legal.

Quem se interessa por refrescar a memória vai ver que os papéis da oposição e situação, pelo menos no que diz respeito à retórica sobre impeachment, estão quase perfeitamente espelhadas. Hipócritas, ambos, igualmente toscos.

Mas e nas ações, estão também igualmente espelhados?

Em várias discussões que tive no Facebook houve a defesa da tese de que não: que o PSDB está sendo hoje bem mais irresponsável que o PT foi à época. Os argumentos são geralmente focados em 3 pontos principais;

  1. O PSDB estaria sendo mais afoito que o PT foi em 99, forçando um impeachment sem ter um motivo legal configurado
  2. Que seria golpismo independentemente de haver ou não motivo porque se teria decidido pelo impeachment a priori e só então buscado o motivo e que o golpismo estaria sendo liderado pelo PSDB
  3. Que lideranças importantes do PSDB como Aécio Neves fustigam o impeachment ao invés de colocar freios, geralmente citando o papel que Lula e Dirceu tiveram em segurar as rédeas enquanto partes da bancada petista se conflagravam

Eu discordo e vou tentar explicar por quê. Para subsidiar ainda mais meus argumentos, gostaria de recomendar o vídeo que resgata discursos importantes feitos durante a votação de um recurso que pedia abertura do processo de impeachment em 1999.

Em primeiro lugar, o PSDB não assumiu ainda oficialmente a defesa do impeachment. Aécio, como presidente do partido, nunca falou que está na hora de instaurar o processo. O que ele repete insistentetemente é que há processos correndo no TCU e no TSE e que é importante que os fatos sejam apurados lá e que o funcionamento das instituições seja garantido.

Não há como se falar ainda em forçar impeachment por conversas de bastidor. O PSDB, diferentemente do PT em 99, não apresentou pedido de impeachment nem defendeu oficialmente nenhum deles ainda.

Em segundo lugar, basta ver o vídeo para notar que não havia prova clara de cometimento de crime de responsabilidade por FHC: o próprio José Dirceu, ironia das ironias, chega a dizer que não era necessária prova para condenação de FHC, já que era óbvio o desvio de conduta. É bom lembrar que Dirceu era o presidente do PT na época.

E essa também não foi a primeira vez, e FHC não foi só vítima direta: o então deputado petista Jaques Wagner, hoje Ministro da Defesa e cotado para a Casa Civil, entrou com pedido de impeachment contra Itamar Franco por discutir uma medida provisória com o candidato do governo, em 1994. E o objetivo não era tirar o presidente! Foi uma clara manobra para ganhar as eleições contra FHC no tapetão, já que só restava 6 meses de mandato para Itamar.

Dá pra dizer que o PSDB está sendo mais afoito que o PT foi? Nem perto. E com o que eu disse acima eu acho que também fica bem claro que Aécio e FHC de maneira alguma ultrapassaram o que Dirceu e Lula representaram no governo FHC com relação impeachment.

Enquanto o PT pedia impeachment por qualquer coisa e seu presidente defendia a remoção do presidente na tribuna do Congresso, Aécio e FHC estão todo santo dia dando declarações de que não há ainda motivos para impeachment e o PSDB sequer protocolizou pedido de impeachment. A situação pode mudar, mas por enquanto é essa.

Com isso acredito que ficam vencidos os pontos 1 e 3. E quanto ao 2?

Bom, eu acho esse um bom argumento, embora não necessariamente concorde que é o caso atualmente. Como meu amigo Fabrício Vasselai sempre nos lembra, não precisa ser ilegal para ser golpe. O problema pra mim é que se for pensar assim qualquer impeachment será golpe.

No Brasil, infelizmente, a única coisa que impede impeachment de todo presidente parece ser não a vontade das oposições, mas sim a dificuldade de conseguir a justificativa legal que dê ao processo o verniz de legitimidade necessário e os votos que o efetivem. Todos os presidentes desde a redemocratização governaram sob pedidos constantes de impeachment, inclusive Lula! O impeachment à espera dos motivos e dos votos está aí desde 1990 e o PT foi o principal usuário dele.

Agora, quanto a dizer que o PSDB lidera essa ideia nos dias de hoje, acho difícil argumentar. O PSDB cumpriu seu papel de oposição de ir à justiça naquilo que considera errado para colocar o governo contra a parede, e o partido do governo tem feito o mesmo, como é de se esperar. Também é fato que alguns deputados do PSDB estão fazendo discursos pró-impeachment e apoiando um movimento para atiçar a ideia na opinião pública, como os do PT faziam também.

Mas, como foi dito anteriormente, o PSDB não defendeu oficialmente o impeachment em nenhum momento ainda e, mais importante, não protocolizou nenhum pedido de impeachment nem defendeu nenhum oficialmente. Um dos autores do pedido de impeachment de Dilma mais famoso no momento, Hélio Bicudo, foi fundador do PT.

Na entrevista que deram nesta semana ao Roda Viva, Bicudo e outra autora, Janaína Pascoal, não pouparam críticas à oposição em geral, e a Aécio e FHC em particular, por não se esforçarem pelo impeachment! A verdade é que perto do empenho do PT pelo impeachment nos anos 90, que pode ser visto no vídeo mencionado acima e na quantidade de pedidos de impeachment protocolizados, a postura do PSDB é acanhadíssima. Acho que fica demonstrado que falta substância a essa parte do ponto 2.

Conclusão: o que dá pra dizer hoje sobre a oposição é que há uma movimentação preliminar pelo impeachment por alguns parlamentares, enquanto as grandes lideranças colocam freios. Qualquer discussão mais concreta só está acontecendo nos bastidores e está longe do tipo de posicionamento que o PT teve nas tentativas contra FHC.

Isso não significa que o que a oposição está fazendo é de natureza diferente ao que o PT fez à época. Nem mesmo tenho interesse de justificar ou defender o PSDB. Não há santos, demônios ou inocentes nesse jogo. Acho que é importante ser coerente e usar a mesma régua para os dois.

O que eu pretendo com toda essa argumentação é justamente contrapor a tentativa de usar réguas diferentes e fazer parecer que o PT foi de alguma forma mais correto, menos afoito, menos golpista. É demonstrar que se você acha que o PSDB está indo contra Dilma além do que o PT foi contra FHC, você provavelmente não conheceu ainda a história toda do que foi o PT na década de 90.

Era uma vez os movimentos sociais

Há poucos dias, o MST saiu de um período grande de quietude e ocupou prédios do Ministério da Fazenda em protesto contra o ajuste fiscal e, em especial, redução de recursos para a reforma agrária. O que causa espanto é que tenham demorado tanto para agir, visto que Dilma é reconhecidamente a presidente que menos fez reforma agrária nos últimos 20 anos.

No começo do ano me propus o exercício de comparar Dilma com o que, a julgar pelas críticas de seus correligionários, é o padrão de ruindade: Fernando Henrique Cardoso. Comecei a olhar alguns dados de coisas que são tradicionalmente defendidas por petistas como reforma agrária e demarcação de terras indígenas.

No caso da reforma agrária, peguei dados do governo de assentamentos desde 1995 e coloquei os primeiros quatro anos dos dois presidentes em gráficos para comparação:

Área de assentamentos criados
Área de assentamentos criados
Famílias assentadas
Famílias assentadas

Enquanto FHC assentou quase 270 mil famílias, Dilma chegou a pouco mais de 30 mil. Em termos de área de assentamentos, mais uma vez FHC ganha de lavada, tendo criado assentamentos cuja área total representa 4 vezes a de Dilma.

Era de se esperar que com um desempenho pífio desses o MST estivesse fazendo invasões diariamente sob o governo Dilma, mas quem eles atazanavam mesmo era FHC. Ao invés de invasões e protestos, Dilma ganhou o singelo apoio do líder do MST no começo do segundo mandato, em evento oficial do governo, ocasião em que disse que Dilma era quase uma santa.

Na semana que passou, houve em Brasília a quinta edição da Marcha das Margaridas, um movimento criado no ano 2000, com nome que homenageia uma militante que lutava por direitos trabalhistas e foi assassinada.

O movimento, em tese, é favorável à reforma agrária, à demarcação de terras indígenas e contrário ao que pessoas como Kátia Abreu, que chegou a organizar um leilão de armas para organizar resistência armada ao que ela chama de invasões indígenas a propriedades rurais.

A presidente atual não é só a que menos fez reforma agrária, mas é também a que fez campanha para que Kátia Abreu fosse eleita senadora, mas a transformou em Ministra da Agricultura. E não se engane, não foi uma cessão ao PMDB, que sequer foi consultado: Kátia Abreu é cota pessoal da presidente. O que vocês acham que as Margaridas fizeram na manifestação?

Se sua aposta é que elas denunciaram essa situação, você perdeu. As Margaridas deram palanque a Lula no primeiro dia do evento para defender o governo e atacar a oposição e fizeram ato de desagravo para Dilma no segundo, tendo ela como convidada de honra. As causas ficaram para segundo plano, a defesa do governo que foi muito pior que o do sempre denunciado FHC se tornou o principal. Talvez não supreenda saber que o evento contou com forte patrocínio estatal. BNDES, Banco do Brasil, Caixa, Itaipú, deram quase um milhão em patrocínio para a marcha.

Anteriormente eu falei de demarcações de terras indígenas, uma defesa histórica do petismo e de movimentos como o da Marcha das Margaridas. Dilma não só alterou o processo de demarcação, retirando poder da FUNAI e dando mais voz aos ruralistas, como também orientou a FUNAI a interromper os processos. Não a toa, ela tem desempenho pífio nisso também, comparada a FHC, como mostram os gráficos que fiz com dados do governo para os primeiros anos de mandato de Dilma e FHC:

Tamanho da área de terras indígenas homologadas
Tamanho da área de terras indígenas homologadas
Número de áreas de terras indígenas homologadas
Número de áreas de terras indígenas homologadas

Alguns gostam de dizer que o caso é de diminishing returns – que o grosso das terras já teriam sido demarcadas, ou no caso da reforma agrária, já redistribuídas, o que naturalmente reduziria a velocidade do processo. É um argumento ridículo no caso das homologações de terras indígenas, porque há mais de 20 processos prontos na mesa da Dilma, só precisa assinar (esses dados também estão nas planilhas).

No caso da reforma agrária, acho risível argumentar isso, mas a Ministra Kátia Abreu disse que não há mais latifúndio. Bom, se vocês concordam que ela está certa, espero que no próximo governo que não seja do PT o MST e a Marcha das Margaridas sejam tão compreensivos com o presidente quanto têm sido com Dilma.

Mas não é só nas áreas fundiárias que os movimentos sociais se tornaram apêndices do governo. A então presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), Vic Barros, prometeu em maio de 2015 que caso houvesse cortes na educação, haveria protestos. A promessa é bizarra, já que em maio de 2015 os cortes na educação já abundavam desde janeiro.

Kátia Abreu com as presidentes da UNE e UBRES
Kátia Abreu com as presidentes da UNE (que usa broche pró-Dilma) e UBRES

A nova presidente da UNE, Carina Vitral, na foto acima com broche pró-Dilma, ao lado da Ministra Kátia Abreu (que a postou em seu twitter), decidiu levar a cabo a promessa feita por sua antecessora: foi a Brasília participar de ato de desagravo da presidente Dilma. Sim, os protestos prometidos acabaram sendo a favor do governo que faz os cortes que a UNE repudia. A lógica mandou lembranças.

O líder do movimento dos sem teto (MTST), Guilherme Boulos, também foi ao evento. Fez duras críticas a políticas do governo, mas deixou claro que prefere isso a um governo de qualquer das alternativas que, segundo ele, são os que governaram por 500 anos antes dos governos do PT. A mensagem dele é clara: o governo é uma porcaria, mas é o nosso governo. Pode ser pior que o “deles”, mas é “nosso” (leia-se do PT, o partido a quem tudo se perdoa).

Depois de fazer críticas à política econômica do governo, foi até a presidente a quem deu caloroso abraço sob gritos de “Fora já, fora já daqui, o Eduardo Cunha junto com o Levy”. Isso sim é diálogo.

Para coroar esse ato, por falar nisso, o presidente CUT não deixou por menos. Discursou prometendo que se qualquer tentativa de interferir no mandato da presidente Dilma ou de atacar Lula, iriam para as ruas “entricheirados, de armas na mão“. Mais tarde disse que não se referia a armas de verdade, que era mera figura de linguagem. Tá certo, então.

O último argumento que costuma sobrar para quem tenta defender de alguma forma esse governo é o de que “nos últimos anos” houve aumento do salário mínimo e redução da miséria. Pois bem. Esquecem de perceber que FHC deu aumento real de salário mínimo bem maior que o de Dilma.

Além disso, já sabemos que a partir de 2013 o número de miseráveis não só parou de cair como voltou a aumentar, resultado mais do que esperado dado que Dilma despriorizou o poder de compra do Bolsa Família.

Gráfico Bolsa Família vs Inflação mostrando que a falta de ajuste descolou o benefício da inflação
Gráfico Bolsa Família vs Inflação

Não há defesa possível para esse governo, do ponto de vista dos movimentos sociais e, ainda assim, é exatamente o que eles fazem, sob o pretexto de estarem defendendo a democracia.

Os movimentos sociais no Brasil acabaram. É o resultado de 13 anos de cooptação, de acomodação de interesses das lideranças, da criação de boquinhas aqui e ali dentro da estrutura do Estado para os aliados. Dilma é muito pior que o padrão de ruindade dos movimentos sociais, o governo “neoliberal” de FHC. E mesmo assim merece uma defesa quase incondicional.

É mesmo hora de tirar esse grupo do poder.

Desconstruindo um caso de desonestidade intelectual

O crítico de cinema Pablo Villaça é um comentarista assíduo de política. Recentemente ele lançou uma campanha para tentar mostrar que a crise na verdade é algo construido pela mídia. O texto é um monumento à desonestidade intelectual e portanto vale perder um tempinho dissecando.

Seguem partes do texto com comentários intercalados, texto completo aqui.

Eu fico realmente impressionado ao perceber como os colunistas políticos da grande mídia sentem prazer em pintar o país em cores sombrias: tudo está sempre “terrível”, “desesperador”, “desalentador”. Nunca estivemos “tão mal” ou numa crise “tão grande”

Villaça começa usando uma técnica muito conhecida em debates políticos: a criação de espantalhos. Isso significa substituir a realidade complexa por uma simplificada e extremada, mais fácil de contrapor.

Temos sim notícias dizendo que a crise é grande e temos mesmo alguns indicadores que estão com os piores números em muito tempo. Isso é péssimo e desalentador, porque vínhamos de uma trajetória de melhoria e nos foi prometido que melhoraríamos mais quando na realidade ganhamos uma reversão da tendência. Mas dizer que a imprensa como um todo tem dito que nunca estivemos tão mal é um exagero calculado.

Em primeiro lugar, é preciso perguntar: estes colunistas não viveram os anos 90?! Mas, mesmo que não tenham vivido e realmente acreditem que “crise” é o que o Brasil enfrenta hoje, outra indagação se faz necessária: não lêem as informações que seus próprios jornais publicam, mesmo que escondidas em pequenas notas no meio dos cadernos?

Concordo com ele: houve muitas crises mesmo nos anos 90. A crise da hiperinflação por exemplo, que foi finalmente controlada pelo Plano Real. Depois, crises internacionais que impactaram muito nossa economia que ainda vinha se recuperando do total descontrole dos anos 80 e início dos 90.

As crises dos anos 90 foram realmente impactantes e de difícil solução por exigirem grande número de reformas que acabaram sendo feitas principalmente pelo governo FHC, abrindo o caminho para a bonança da era Lula. Mas isso não significa que o que vivemos agora não é crise.

Vejamos: a safra agrícola é recordista, o setor automobilístico tem imensas filas de espera por produtos, os supermercados seguem aumentando lucros, a estimativa de ganhos da Ambev para 2015 é 14,5% maior do que o de 2014, os aeroportos estão lotados e as cidades turísticas têm atraído número colossal de visitantes. Passem diante dos melhores bares e restaurantes de sua cidade no fim de semana e perceberá que seguem lotados.

Aqui vemos o cerne do argumento de Villaça: como pode haver crise se encontro nos jornais tantas notícias positivas? O problema é que nem tudo que ele diz aí é verdadeiro e o pouco que é não significa muito com relação a crise.

A Safra agrícola por exemplo não é afetada pela crise, é resultado do que foi feito em 2014. Ter safra recorde não significa que as vendas serão boas, mas nada impede que sejam, já que parte significativa da produção pode ser exportada. A capacidade de exportação tem mais a ver com o estado da economia dos países consumidores e a crise nesse caso ajuda, já que desvaloriza o real frente a outras moedas.

A desonestidade fica clara no segundo ponto: o setor automobilístico teria imensas filas de espera. Mas é mesmo? Então me explica a queda de 20% na venda de veículos em 2015, levando à menor em 8 anos. E a queda pela metade da venda de caminhões, que indica diminuição do investimento? Se há filas para adquirir os carros, por que os pátios estão lotados e trabalhadores sendo colocados em férias coletivas ou demitidos?

A única explicação que eu tenho é que Villaça tenha visto uma notícia dizendo que determinado modelo (que aposto ser de luxo) está com fila de espera e resolveu generalizar para ‘setor automobilístico’. Que é um fator importante que ele não levou em consideração: a crise não atinge todos igualmente.

Os mais ricos, como eu e ele inclusive (e como ele reconhece ao final do texto), podem demorar para sentí-la ou passar por ela sem perceber muito. Pessoas que tem dinheiro sobrando podem, na verdade, ganhar com a crise, aproveitando os juros elevados pagos por títulos públicos e privados. Daí o fato de os “melhores bares e restaurantes” estarem ainda cheios. Isso significa que não há crise?

Será que Villaça realmente acredita que a inflação dos últimos 12 meses, de quase 9%, não comeu boa parte da renda dos mais vulneráveis, que recebem Bolsa Família sem reajuste suficiente desde 2011? Ou será que ele não acredita nos dados publicados pelo IBGE, que indicam queda no nível de renda dos brasileiros e aumento do desemprego?

Ou será que está cego aos cortes que o Governo Federal tem feito, inclusive no que teoricamente é sua maior prioridade, a educação, com redução drástica no FIES, PROUNI, Pronatec, programas de pós graduação e até custeio de universidades, levando-as a passar um baita aperto financeiro? A UFBA teve a luz cortada, invenção da mídia?

Não. Tenho certeza de que Pablo Villaça não é tão cego. O que ele faz é colocar uma viseira e escolher os fatos que interessam. Fechar os olhos à situação do Brasil como um todo e focar no seu próprio círculo, na sua própria bolha. É como o cavalo que usa uma viseira para não ser distraído pela realidade que existe em volta. A diferença no caso dele, animal racional, é que o uso da viseira é sua própria escolha. O objetivo dele fica claro ao final do texto, em que ele diz:

Que é, afinal, o que eles querem. Porque nos momentos de verdadeira crise econômica, os mais abastados permanecem confortáveis – no máximo cortam uma viagem extra à Europa. Já da classe média para baixo, as consequências são devastadoras, criando um quadro no qual, em desespero, a população poderá tender a acreditar que a solução será devolver ao poder aqueles mesmos que encabeçaram a verdadeira crise dos anos 90. Uma “crise” neoliberal que sufocou os miseráveis, mas enriqueceu ainda mais os poderosos.

Para Villaça, não importa a realidade. Importa é não dar argumento para que alguma força política eventualmente convença seus seguidores de que podem, afinal, ser sim melhores que o PT que ele defende com unhas e dentes. Com a mesma garra que usou para ajudar a sujar as imagens de Marina e Aécio nas eleições de 2014, Pablo Villaça agora tenta fazer com que seus amigos e seguidores, menos vulneráveis e distantes do olho do furacão da crise, fechem os olhos à realidade que assola os mais pobres. Quer que escolham usar viseiras junto com ele.

Assim fica menos difícil defender a manutenção no poder do seu partido preferido daqui a alguns anos, quando tiver que explicar aos amigos e seguidores que fazem parte da sua bolha por que foi que a desigualdade e a miséria aumentaram, renda caiu, juros e inflação aumentaram, crescimento econômico foi desprezível: “Que crise?” dirá ele. “Esqueçam a imprensa, olhem suas fotos no Facebook, você não fez coisas boas?”, é 13 confirma!

“Votei pelo pobre”

Muita gente que votou pela reeleição da presidente Dilma, ao ser confrontada com os grandes problemas do primeiro mandato, argumentava: “voto pelo que é melhor para o pobre e Dilma priorizou os mais pobres”. Lembro até de uma pessoa dizer que preferia a estratégia de Dilma de crescer menos mas com mais apoio aos mais pobres – como se o crescimento baixo fosse parte da estratégia. A mim parece claro que quem falava isso não tinha prestado atenção no primeiro mandato de Dilma.

Não precisava ir muito longe. Enquanto a inflação crescia, programas como Bolsa Família ficaram anos sem reajuste. Devia ser óbvio para qualquer pessoa que se interessasse um mínimo por se informar que os mais vulneráveis estavam sofrendo uma corrosão brutal da sua renda.

Isso era tão claro pra mim que eu nunca parei pra olhar os dados, mas acabei ficando com uma coceirinha de curiosidade pra ver afinal qual era o tamanho do problema, então sentei e fiz uma planilha e um gráfico:

Gráfico Bolsa Família vs Inflação mostrando que a falta de ajuste descolou o benefício da inflação
O benefício manteve poder de compra no governo Lula, perdeu no governo Dilma

Fica claro olhando o gráfico que houve um descolamento entre o valor do benefício e a inflação depois do ano de 2011. Hoje o benefício básico está em 77 reais e deveria estar próximo de 94 reais para que mantivesse o mesmo poder de compra do governo Lula. 18% menor do que devia.

Dá pra ver também que no início de 2014, ano eleitoral, o governo se lembrou de que nenhum reajuste tinha sido dado desde 2011 e que ficaria menos fácil  enganar os militantes e deu um aumento. Digo menos fácil porque difícil não seria. Quem votou pelos pobres votando em Dilma ou decidiu ignorar a realidade ou é dogmático, acredita que independentemente do que fizer o PT sempre será a melhor opção, defende de forma praticamente incondicional. É o militante capaz de defender que Dilma seria a melhor opção para questões indígenas mesmo sendo a presidente que menos demarcou terras indígenas depois da democratização.

E qual o resultado dessa redução da prioridade do Bolsa Família? O governo fez o que pôde para segurar dados ruins que deveriam ter sido publicados antes das eleições, como por exemplo os dados do IPEA sobre a miséria. Dilma havia prometido erradicar a miséria, chegou a adotar como slogan do governo “País rico é país sem pobreza”.

Mas, de novo, bastava usar um pouquinho a cabeça! Se a inflação está alta e o principal programa que serviu para tirar as pessoas da miséria foi corroído por ela, é óbvio que a miséria aumentaria. A única forma de a miséria não ter aumentado seria falsear os dados, usar uma faixa de miséria que fosse completamente incompatível com 4 anos de inflação (e sempre acima da meta!).

Alguém poderia tentar dizer que foi porque havia restrições orçamentárias. Seria até engraçado, visto que o governo torrou dinheiro como se não houvesse amanhã justamente no mesmo período, desembocando num gasto imenso em 2014.

Mas eu acho ainda mais interessante colocar esse argumento frente aos seguintes fatos: no mesmo período, o governo deu desonerações de folha de pagamento que só no ano de 2014 consumiram 1 ano de Bolsa Família e não produziram efeito no emprego, segundo o próprio Ministro da Fazenda. Houve outras desoneração não ligadas à folha de pagamento, que somadas a essa atingiram mais de R$100 bilhões: 4 vezes o Bolsa Família.

Isso sem contar o gasto enorme do BNDES, através de empréstimo subsidiado (ou seja, pago em parte pelo povo brasileiro) para empresários. Tudo isso, segundo a justificativa oficial, para aumentar a taxa de investimento. Dilma prometeu elevá-la a 24% do PIB, conseguiu foi fazê-la cair para 19%.

Já agora, no segundo mandato, mesmo reconhecendo que as contas do país estão desajustadas e que um ajuste fiscal é necessário, Dilma decidiu aumentar os empréstimos feitos pelo BNDES em 2 vezes o valor anual do Bolsa Família: 50 bilhões, através de mais um aporte do tesouro.

Bolsa Família? Dilma se empenhou foi em ampliar a Bolsa Empresário. Parabéns pra você que votou em Dilma pelo pobre. Vamos prestar mais atenção da próxima vez?

O que é preciso pra entender desemprego no Brasil?

Somos bombardeados por indicadores relacionados à economia diariamente e fica muitas vezes difícil entender o que eles querem significam de fato. Um que eu acho especialmente complicado é o indicador do desemprego.

Primeiro, porque a metodologia pode não ser muito intuitiva. A taxa de desemprego por exemplo não mede a fração de pessoas que precisa de emprego e não tem, mas sim a fração de pessoas que estão no mercado de trabalho e se encontram desocupadas. Estar no mercado de trabalho significa estar trabalhando ou ter procurado emprego nos últimos 30 dias.

Ou seja não são considerados na estatística: quem está numa situação tão miserável que nem tenta procurar emprego, a pessoa que está recebendo seguro desemprego mas não procurou trabalho, quem arranjou um subemprego pra ter o que comer e parou de procurar trabalho e por aí vai. Dessa perspectiva, nem é tão estranho assim que o uso do seguro-desemprego tenha crescido enquanto a taxa de desemprego caía.

Segundo, porque o Brasil tem atualmente duas importantes pesquisas oficiais que medem a taxa de desocupação. A PME, Pesquisa Mensal de Emprego, é uma pesquisa feita pelo IBGE em 6 grandes regiões metropolitanas brasileiras. Vários estados ficam de fora e o interior dos estados que são contemplados com uma região metropolina também. Isso faz com que a PME seja uma estimativa bastante enviesada.

O IBGE planeja substituir a PME pela PNAD contínua (PNADc). A PNAD é como se fosse uma atualização constante do censo. Ao contrário do censo que visita cada domicílio, a PNAD é feita por amostragem. Mas ao contrário da PME que só enxerga 6 grandes metrópoles, a PNAD chega a mais de 3.500 municípios, conseguindo uma visão bem mais abrangente do que acontece país a fora.

Desde que a PNADc começou ela vem mostrando uma taxa de desemprego maior que aquela vista pela PME. Não por acaso o governo tende a usar sempre os dados da PME. O plano era que a PNADc passasse a ser a única pesquisa utilizada e que a PME deixasse de ser executada a partir de 2015. Com o aumento de desemprego, acho provável que o governo pressione o IBGE a continuar publicando a PME até que os problemas da economia sejam sanados.

Uma semana atrás, no dia do trabalhador, um perfil do governo no Twitter publicou um gráfico comparando a taxa de desemprego do Brasil com outros países com o objetivo de mostrar que apesar do aumento não estava tão ruim.

Gráfico do governo comparando desemprego medido pela PME com de outros países
Gráfico do governo comparando desemprego medido pela PME com de outros países

Comparar taxas de desemprego entre países pode ser uma coisa problemática porque países diferentes podem usar metodologias diferentes. E também porque cada um pode estar numa tragetória diferente. Considere por exemplo os EUA que estão com uma forte recuperação da atividade econômica e vêm tendo uma reduçao do desemprego nos últimos tempos com o Brasil que vai na direção inversa.

O governo, obviamente, escolheu usar o número da PME para sua comparação. Mas o gráfico é bizarro por muito mais que só esse problema: se você prestar atenção vai perceber que os 0,5 entre os 6,4 da Alemanha e os 6,9 da Argentina são maiores no gráfico do que os 1,7 entre os mesmos 6,9 e os 8,6 da Índia. E você aí achando que só a Globo News gosta de usar escalas bizarras pros gráficos, hein?

Nessa quinta dia 7 de maio saíram os dados da PNADc, com uma taxa de desemprego de 7,9%. Com os dados mais confiáveis e abrangentes da PNADc em mãos, resolvi fazer um pequeno exercício: peguei o gráfico do governo, selecionei a área da barra dos 6,9 da Argentina que fica acima dos 6,4 da Alemanha e considerei como 0,5. Daí empilhei até dar os 1,7 que precisa somar aos 6,2% da PME. O resultado:

Gráfico do governo consertado com os dados da PNADc. Escala do conserto é a da diferença entre Alemanha e Argentina
Gráfico do governo consertado com os dados da PNADc. Escala do conserto é a da diferença entre Alemanha e Argentina

Dois resultados do exercício: 1) os 7,9 do Brasil ficam bem maiores que os 8,6 da Índia com a escala usada entre Alemanha e Argentina, o que mostra que o gráfico é uma piada de mau gosto; 2) o Brasil não vai lá muito bem nessa comparação.

E, infelizmente, a perspectiva do Brasil não é boa, a expectativa é que o desemprego aumente, basta ver que temos notícias todos os dias de grandes demissões. Esse ano vai ser dureza.

“Com Aécio seria pior”

Alguns defensores do governo e do partido do governo, ao se depararem com críticas ao segundo mandato da presidente Dilma costumam contra-argumentar com “Com Aécio seria pior”.

Eu acho que seria muito melhor e explico: em primeiro lugar, teríamos um presidente competente em política, que não estaria cometendo gafes bizarras a cada dia de mandato, como Dilma. A inabilidade política do atual governo é tamanha que conseguiu causar a inversão da relação de forças entre executivo e legislativo, que historicamente pende para o lado do executivo. Inauguramos em Dilma 2 um Parlamentarismo à brasileira.

Segundo, Aécio teria crebilidade. Dilma passou a campanha inteira negando que houvesse problemas, negando que faria tarifaço (que agora chamam de realismo tarifário), negando que aumentaria juros, negando que faria ajuste fiscal. Aécio, ao contrário, passou a campanha inteira chamando atenção aos desequilíbrios da economia e à necessidade de fazer um ajuste fiscal sério para proteger os programas sociais. E Marina também, diga-se.

Em terceiro lugar, Aécio teria um time inteiro comprometido com essa melhoria da gestão e da economia. Nós sabíamos que o Ministro da Fazenda seria Armínio Fraga, que foi professor de Joaquim Levy. Mansueto Almeida, grande conhecedor das contas públicas, provavelmente faria parte da equipe também. Não teríamos Luciano Coutinho tentando esconder os dados das operações financeiras no BNDES, que seria saneado. E assim seria em outros Ministérios importantes, como o do Planejamento. Dilma, ao contrário, tem uma colcha de retalhos com uma ilha de sanidade: Joaquim Levy.

Mas em uma coisa eu concordo com esses defensores do governo: mesmo que Aécio tivesse entrado, nós não escaparíamos desse 2015 difícil que já estamos vivendo, com tarifaço, inflação e juros altos e possivelmente de um 2016 bem fraco, com tudo que vem junto: desemprego, precarização de serviços públicos, queda no investimento. A grande diferença seria a velocidade com que venceríamos essas dificuldades e a qualidade do esforço feito.

Na verdade, do ponto de vista do debate político acho que foi até uma coisa boa Dilma ter ganhado. É bom que seja ela a lidar com os problemas que criou. Até consigo imaginar esses defensores incondicionais dos governos petistas a plenos pumões colocando a culpa no novo presidente por todas as mazelas. Como estão fazendo no DF, destruído pelo petista Agnelo Queiroz, diga-se de passagem.

Mas a verdade é que tudo isso é consequência do primeiro mandato de Dilma. De fato não adiantava ter evitado sua reeleição. Se nós que fizemos campanha contra tivéssemos conseguido, teríamos uma recuperação bem menos dolorida e muito mais rápida, não tenho dúvidas. Mas para evitar que uma recuperação fosse necessária o único jeito era não tê-la eleito em 2010.

E dava pra perceber que isso seria uma boa ideia, bastava prestar atenção no que fazia a Ministra-chefe da Casa Civil Dilma Roussef, no segundo governo Lula. E eu, depois de votar duas vezes em Lula, votei nulo em 2010, porque prestei bastante atenção e não gostei do que vi.

Foi com o aumento da preponderância de Dilma no governo Lula que começou a famigerada política de dar dinheiro público para grandes empresas nacionais via BNDES, com a intenção de formar campeões nacionais que pudessem competir lá fora. A Oi, a JBS e as empreiteiras agradecem. Digo dar porque os empréstimos são subsidiados, ou seja, com juros abaixo do valor de mercado. E a diferença quem paga somos nós, os brasileiros que pagam impostos.

Além disso o BNDES fez bilhões e bilhões em empréstimos subsidiados para aventureiros, como Eike Batista, cujos projetos deram errado e agora não têm como devolver o que receberam emprestado. Um banco que era pra ser “Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social” investindo em negócios de um empresário amigo, sem nenhum retorno social e de altíssimo risco.

E para fazer esses empréstimos, o BNDES pegou recursos emprestados do Tesouro Nacional, que emitiu dívida para bancá-los. Ou seja, aumentamos a dívida que todos os brasileiros pagam às maiores taxas de juros do mundo para emprestar a taxas menores que as de mercado a empresários amigos.

Para piorar a situação, o BNDES se recusa a abrir os detalhes de empréstimos feitos. O presidente do banco, Luciano Coutinho, está inclusive levando multas do TCU por se recusar a dar transparência aos contratos. A Câmara acaba de aprovar emenda do PSDB a uma medida provisória que obriga o BNDES a publicar esses dados. Vamos ver se passa no Senado e se Dilma assina.

Durante os anos 2000 tivemos uma oportunidade única nas nossas mãos. Os ventos internacionais sopravam nos empurrando e chegamos a conseguir fazer superávits bastante acima da meta. Foi um momento em que poderíamos ter reduzido nossa meta de inflação e em decorrência disso as taxas de juros, no médio prazo.

Poderíamos ter feito reformas tributárias que fizessem que os pobres deixassem de ser os que sustentam o Estado, tornando nossa carga tributária progressiva. Com a economia em crescimento sem a necessidade de muita ajuda estatal, poderíamos ter feito um ajuste fiscal de longo prazo, que nos colocasse em outro patamar de poupança doméstica e investimento público, mais compatíveis com os de um país em desenvolvimento.

E veja, foi exatamente isso que os Ministros Palocci e Paulo Bernardo pensaram! Começaram a pensar sobre um ajuste com horizonte de 5 anos. O que fez Dilma? Garantiu que o debate nascesse morto: desautorizou os Ministros e disse que plano de longo prazo não cabe. Disse Dilma (para ver a página ampliada basta criar uma conta, não é necessário assinar):

Esse debate é absolutamente desqualificado, não há autorização do governo para que ele ocorra

Fazer um exercício dentro do meu gabinete e achar que ele será compatível com o nosso país não é consistente. Quando você fala em dez anos,  Tem de “combinar com os russos”, que são as 180 milhões de pessoas que vivem no Brasil

Veja bem: tem que “combinar com os russos”, é claro, é óbvio, é ululante. Mas para combinar com os brasileiros tem que antes ter uma proposta pra apresentar. E Dilma já detonou a proposta incipiente antes que ela ganhasse forma. O jeito de pensar da futura presidente está todo aí nessa entrevista: pensar longo prazo é besteira, ajuste fiscal não se debate, o negócio é gastar e, acima de tudo, se quer fazer alguma coisa tem que ter autorização da comandate Dilma. Não viu quem não prestou atenção.

Se a proposta do ajuste fiscal de longo prazo planejado e em tempos de bonança tivesse prosperado, talvez nós não fôssemos hoje forçados a fazer um ajuste recessivo.

A recessão econômica que começa a apontar em Dilma 2 seria inevitável qualquer que fosse o eleito em 2014, isso não se discute. Dava pra eleger alguém que nos tirasse dela mais rápido, o que infelizmente não fizemos. Para evitar que a recessão viesse, só se o Brasil tivesse prestado mais atenção em quem estava elegendo para presidente em 2010. Fica pra próxima.

Tudo o que disser pode e será usado contra seu argumento

Pode até não parecer pra quem me acompanha só recentemente, mas eu costumo ser bem compreensivo com presidentes do Brasil. Presidentes têm que lutar diariamente com um Congresso acostumado ao patrimonialismo, cheio de coronéis clientelistas sem os quais não se governa.

Dá pra discutir no detalhe cada aliança e o custo/benefício das concessões feitas, mas não tem nada de errado em fazer alianças: o povo colocou lá os parlamentares e o presidente tem que fazer o possível para criar uma coalizão que permita avançar na agenda nacional. Um presidente habilidoso consegue mais por menos. Foi assim com FHC e foi assim com Lula.

As razões que me levam a ter muito menos paciência com o governo Dilma estão listados nos vários textos desse blog. Seu completo amadorismo na articulação política tem garantido que o Congresso ruim cobre um preço muito mais caro do que devia. Mas o assunto desse post é outro: o ajuste fiscal do governo Dilma.

Ajuste fiscal não é novidade no país. Durante o governo FHC, ajuste fiscal foi um dos passos mais importantes para garantir o sucesso do plano Real e da estabilização. Além do aperto orçamentário, o Brasil sofria naquela época de uma série de problemas estruturais e conjunturais que abalavam nossa economia.

Pra começar, tínhamos acabado de sair de um período em que a inflação anual era de mil porcento ao ano, em que o orçamento era uma peça de ficção, em que os estados podiam na prática emitir dinheiro! E de um governo que confiscou a poupança dos brasileiros. E quem acha que isso se resolveu em 1994, 1995 se engana muito. A desvalorização cambial de 1999 que teve forte impacto na nossa economia, por exemplo, a Lei de Responsabilidade Fiscal, criada no segundo mandato, e muitas outras reformas estruturais foram também passos essenciais da estabilização.

O Congresso por onde essas medidas tinham que passar não era manso, claro: basta dizer que Antônio Carlos Magalhães era um dos aliados pero no mucho da época e gostava de fazer uma cena. Pra completar, a década ainda foi salpicada de crises internacionais: dos tigres asiáticos, da Rússia, do México e por aí vai.

Tudo isso fez com que o governo FHC acontecesse num período muito difícil. Eu gosto de brincar que ele pegou o país no modo hard. Foi necessário que gastos fossem priorizados (o que significa que alguns tinham que diminuir ou acabar) e impostos fossem aumentados para financiar gastos essenciais, vide criação da CPMF para financiar o SUS, por exemplo.

Seus adversários políticos gostam de culpá-lo por todos os problemas, como se ele fizesse por querer, por mal. Que ele errou em muitas coisas não há dúvidas, ele mesmo reconhece alguns erros, que poderia ter consertado o câmbio em 1997, por exemplo, que foi ruim esperar tanto e ser obrigado a fazer de supetão. Mas fazer por querer o mal do povo?

Lula também fez um ajuste fiscal em 2003, conduzido inclusive com a ajuda de Joaquim Levy que é hoje Ministro da Fazenda. Na época, ele havia sido herdado do governo FHC e mantido como secretário do Tesouro Nacional. Ganhou nessa época o apelido de Levy mãos de tesoura.

O ajuste de Lula foi um ajuste sério também, mas ele tinha pegado o país no modo normal: os grandes problemas da instabilidade econômica já tinham sido resolvidos, a agenda de reformas tinha avançado tanto que não havia mais água batendo na bunda, o que infelizmente permitiu que a agenda não avançasse, também, mas isso é assunto pra outro post. O ponto principal é que o ajuste não precisou ser duro porque a situação estava boa.

Com alguns anos de mandato, Lula tirou a sorte grande: o aumento do preço das commodities fez com que o Brasil ganhasse fortes e bons ventos internacionais, que impulsionaram a economia. A descoberta do pré-sal fez com que as possibilidades ficassem ainda maiores.

Em alguns anos, o governo teve problema até mesmo pra gastar tudo o que podia, acabou fazendo mais superávit primário do que precisava! Tem gente que gosta de comparar os governos Lula e FHC, mas se esquece dessa enorme diferença de conjuntura que torna qualquer comparação meio injusta.

Mas os ventos internacionais começaram a ralear ao final do governo Lula e uma crise internacional fez com que a economia global diminuísse seu ritmo abruptamente. O governo tomou medidas importantes que impediram que o pior da crise chegasse aqui e entregou até mesmo um crescimento surpreendente em 2010.

Foi nesse clima que Dilma assumiu seu primeiro mandato. Assim como Lula, Dilma pegou o país no modo normal. Apesar das maquiagens na contabilidade, ainda não havia problemas com aumento de dívida, os fundamentos ainda estavam sólidos e se já não havia ventos internacionais soprando, não havia também problemas graves nem fora nem dentro do país. Basta ver os documentos da época para ver que havia imenso otimismo dentro do governo, que previa crescimento médio de 5,5% ao ano para o primeiro mandato.

Mas depois de quatro anos de erros que não reconhece, Dilma acabou deixando o país numa situação bastante ruim que já exige um esforço fiscal sério. Colocou o país no modo hard. Não há crises internacionais no momento: os Estados Unidos já se recuperaram e já têm desemprego menor que o nosso, assim como o Reino Unido, Alemanha e muitos dos nossos vizinhos. Mas suas próprias medidas criaram um caminhão de problemas domésticos que precisam ser resolvidos.

Resultado: Dilma agora se vê obrigada a lidar com uma situação bem mais comparável com o que foi o governo FHC. Se vê obrigada a fazer um ajuste fiscal de gente grande, que já está tendo efeitos significativos nos orçamentos do setor público, incluindo aí as universidades federais programas ligados à educação, como PRONATEC e FIES.

Os efeitos também já começam a atingir o setor privado: pessoas perdem seus empregos (2015 teve o pior fevereiro desde 1999), vendas, intenção de consumo, confiança do consumidor estão em queda… Tudo indica que nosso PIB encolheu nos dois primeiros meses de 2015 e nós estamos só começando. A inflaçao em alta, resultado das barbeiragens do governo com a conta de luz e os preços de combustíveis que foram segurados por anos em níveis irreais também não ajuda.

Dilma agora vai se ver em situaçao parecida à em que FHC se viu: tendo que defender medidas difíceis, impopulares, que vão cobrar seu preço do país. Vai aumentar impostos, cortar gastos públicos. Ideal seria uma reforma tributária que tornasse a carga tributária mais progressiva – ou seja, que os ricos pagassem mais pelo governo que os mais pobres, ao contrário do que é hoje, sem dúvida.

Mas esse é o tipo de coisa que é muito mais fácil fazer em períodos de bonança e alta popularidade. E infelizmente o período de bonança e alta popularidade que foi de 2003 a 2008 foi desperdiçado, não se avançou (o que também merece outro post). Esperar que Dilma consiga passar uma legislação complexa como essa num momento de crise e com o Congresso rebelde é querer demais.

Podemos e devemos lutar pelo ideal, pode ser até que se consiga algum meio termo. Mas exigir isso de Dilma ou colocar só nela a culpa por não chegar lá, nesse momento, seria injusto. Mesmo que ela torne a coordenação política menos amadora, será difícil.

E sim, não vai dar pra dizer que Dilma faz tudo por mal. Assim como FHC, Dilma quer o melhor para o Brasil, não tenho dúvidas. Daqueles que ainda tem coragem de defender o governo virão várias justificativas perfeitamente razoáveis para as medidas – e é bem provável que eu concorde com muitas. Só lembro o seguinte: tudo que você disser para justificar o que Dilma está fazendo pode e será usado contra seus argumentos a respeito de FHC.

Ninguém pode negar

Há pouco mais de 10 anos eu estava começando num trabalho novo como coordenador de tecnologia. Havia diversos problemas com os serviços de TI que a equipe de então lutava constantemente para resolver. Um dos maiores era um servidor de arquivos, o computador que guardava os arquivos compartilhados por todos os funcionários.

As pessoas viviam reclamando que o acesso era lento, que caía com frequëncia e por aí vai. Perguntei à equipe qual era o problema e me disseram que já tinham colocado 3 placas de rede adicionais no servidor e que tinha mais uma já a caminho, para reforçar a comunicação do servidor com o restante da rede.

O administrador que eu tinha trazido comigo e eu achamos estranho. Ao invés de falar do problema e do diagnóstico falaram da solução. Questionamos: mas vocês tem certeza que o problema é comunicação do servidor com a rede? Cara de interrogação.

Depois de fazermos uma análise do desempenho do servidor descobrimos que o problema da lentidão era o tempo de acesso ao disco que estava muito ruim. Não havia nenhum problema na comunicação com a rede: o servidor não usava sequer 30% da capacidade de uma única placa de rede.

A equipe que estava tentando resolver o problema achava que tinha feito tudo o que podia. O único problema é que tinham errado no diagnóstico e estavam tratando o problema errado. Colocar placas de rede adicionais até pode ser solução pra alguns casos, mas pra esse não ajudava em absolutamente nada. E a equipe não sabia porque sequer tinha informações…

Sempre lembro dessa situação quando vejo Dilma falar de economia. “Fizemos desonerações”, diz ela, como se fosse óbvio que esse é o remédio adequado. Se erraram, diz ela, foi na dosagem das medidas. Como se houvesse uma dose maior ou menor de veneno que faça bem.

“Ninguém pode negar que nós fizemos de tudo para a economia reagir”, disse a presidente hoje. Dá a entender que não havia políticas alternativas que pudessem ser aplicadas com maior sucesso que as que escolheu. Até parece que não houve um coro de economistas chamando atenção para o diagnóstico errado.

Não importa que nada tenha funcionado. Não importa que o investimento tenha caído. Não importa que o mercado de trabalho tenha desacelerado. Não importa que o próprio Ministro da Fazenda da presidenta tenha reconhecido que as desonerações foram uma política cara e ineficiente.

Não importa que isso tenha causado um rombo nas contas públicas que agora nos força a um forte ajuste fiscal. Não importa que na sanha de ajudar indústrias escolhidas a dedo se tenha jogado o setor energético na lama e que a inflação tenha ficado colada no teto da meta, mesmo com preços controlados represados.

Nada disso importa. Dilma não reconhece que errou no diagnóstico e nos remédios. Dilma é infalível e fez tudo o que podia. Se a economia não respondeu, a culpa não é dela.