Um belo monte de problemas

Nessa semana tivemos um apagão controlado em 11 estados brasileiros. O Ministério das Minas e Energia e Operador Nacional do Sistema (ONS) demoraram bastante a se pronunciar e até agora não deram uma explicação completa.

Os fatos conhecidos até o momento, segundo eles, são: batemos recorde de consumo no horário de pico, houve problemas na transmissão de energia de geradoras do norte e nordeste para o sudeste e centro-oeste.

Essa restrição levou a uma queda da frequência dos 60Hz normais para 59Hz, o que levou algumas geradoras a se desligarem para evitar danos a si mesmas. Para evitar um efeito dominó, o ONS pediu a grandes distribuidoras que fizessem uma redução controlada da disponibilidade de energia, o que foi feito com o desligamento de algumas subestações.

A partir daí há discordâncias entre o Ministério e o ONS: para o Ministério houve falha no sistema de segurança em pelo menos uma das geradoras, que não deveria ter se desligado.

O que parece é que o sistema não está capacitado para lidar com a demanda energética dessas duas regiões, seja porque está produzindo pouco, seja porque não consegue transmitir o suficiente a partir do norte/nordeste. Nos dias que seguiram o apagão, o Brasil importou energia da Argentina nos horários de pico, para garantir abastescimento.

O mais preocupante é que nossa demanda está reprimida: nós estamos há alguns anos com queda na atividade econômica e na produção industrial. A indústria é o setor que mais consome energia no país. Já imaginou se o país estivesse crescendo e a produção industrial estivesse crescendo? A julgar pelos acontecimentos dos últimos dias, já teríamos que estar em um racionamento.

O governo me parece ter falhado nas duas pontas da questão energética: oferta e demanda. Começo pela segunda: em 2012, Dilma foi para a televisão anunciar uma canetada para redução das contas de energia, principalmente as da indústria, através de renovação automática de contratos de concessão e de subsídios diretos.

Além disso o governo incentivava já há alguns anos a aquisição de novos bens que consomem energia através da redução de IPI e do programa Minha Casa Melhor. O governo fez isso tudo quando já se previa que um quadro hidrológico preocupante para os anos seguintes, o que indicaria a necessidade de fazer o contrário: criar incentivos para a reduçao do consumo de energia, inclusive a ampliação dos preços de energia.

O ideal mesmo seria que a demanda pudesse subir: que milhões de brasileiros pudessem pela primeira vez ter ar condicionado e lavadora de roupas. Isso nos coloca na outra ponta: o investimento para ampliação da oferta. Nós sabemos que houve casos de geradoras que ficaram sem poder ser usadas porque não foram construídas as linhas de transmissão.

Novas hidrelétricas que estão sendo construídas em rios na região norte estão com anos de atraso (se bem que, com restrições de transmissão não daria pra usar). Um terço das obras prioritárias para manutenção do sistema de acordo com o ONS não foram executadas. E aí veio a questão da falta de chuvas, que fez com que as termelétricas tivessem que ser ligadas, encarecendo a energia.

Na campanha e antes dela, Dilma garantia sempre que não havia risco de racionamento. Depois de eleita, várias das garantias feitas pela candidata foram por água abaixo, como sabemos. Talvez por isso mesmo ela esteja resistindo muito a ter que assumir a necessidade de prevenir um problema maior com um racionamento agora, mostrando que o planejamento de que se orgulha de ter feito não foi assim tão bom.

Tudo indica que Dilma vai imitar Geraldo Alckmin e deixar para declarar racionamento quando já estivermos na iminência de um colapso do sistema. Não sei vocês, mas eu já estou tomando mais cuidado com o uso de energia elétrica (e água, claro), porque não quero ficar sem.

Yay, the left won! Or did it?

I have been asked by a bunch of friends from outside of Brazil for my opinion regarding the recent elections we had in Brazil, and it is a bit complicated to explain it without some background, so I decided to write this piece providing a bit of history so that people can understand my opinion.

The elections this year were a rematch of our traditional polarization between the workers party (PT) and the social democracy party (PSDB), which has been going on since 1994. PT and PSDB used to be allies. In the 80s, when the dictatorship dropped the law that forbade more than 2 parties, the opposition party, MDB, began breaking up in several smaller ones.

PSDB was founded by politicians and intelectuals who were inspired by Europe’s social democracy and political systems. Parliamentarism, for instance, is one of the historical causes of the party. The workers party had a more grassroots origin, with union leaders, marxist intelectuals and marxist-inspired catholic priests being the main founders. They drew their inspiration from the USSR and Cuba, and were very close to social movements.

Lula and FHC campaigning together in 1981, by Clóvis Cranchi Sobrinho
Lula (PT) and FHC (PSDB) campaigning together in 1981, by Clóvis Cranchi Sobrinho

Some people have celebrated the reelection of Dilma Roussef as a victory of the left against the right. In my opinion that view is wrong for several reasons. First, because I disagree that PSDB and Aécio Neves in particular are right-wing, both in terms of economics and social/moral issues. Second, because I believe Dilma’s first government has taken a quite severe turn to the right in several topics that matter a lot to me. Since comparisons with PSDB’s government during the 90s has been one of the main strategies of the campaign this year, I’ll argue why I think it was actually a pretty good government with a lot of left in it.

Unlike what happens in most other places, Brazil does not really have an actual right-wing party, economics-wise. Although we might see the birth of a couple in the near future, no current party is really against public health, education and social security being provided by the state as rights, or wants to decrease state size and lower taxes significantly. It should come as no surprise that even though it has undergone a lot of liberal reforms over the last 20 years, Brazil is still a very closed country, with very high import tariffs and a huge presence of the state in the economy. There is a certain consensus about all of that, with disagreements being essentially on implementation details, not goals.

On the other hand, and contrary to popular belief, when it comes to social and moral issues we are a very conservative people. Ironically, the two parties which have been in power over the last 20 years are quite progressive, being historically proponents of diversity, minorities rights, reproductive rights. They have had to compromise on those causes to become viable alternatives, given the conservative nature of the majority of the voters.

Despite their different origins and beliefs, both parties share socialist inclinations and were allies from the onset. That changed in 1992, when president Collor, who had been elected on a runoff against Lula (who PSDB supported), was impeached by Congress for corruption. With no formal political support and a chaotic situation in his hands, Itamar Franco, the vice president, called for a “national union” government to go through the last two years of his term. PSDB answered the call, but the workers party decided against being part of the government.

Fernando Henrique Cardoso, a sociologist who was one of the leaders of PSDB was chosen to lead the Foreign Relations Ministry, but a few months later got nominated to the Economy. At the time, Brazil lived under hyperinflation of close to 1000% a year, and several stabilization plans had been attempted. Economy Ministers did not last very much in office at the time. FHC gathered a team of economists and sponsored their stabilization plan, which turned out to be highly successful: the Plano Real (“Real Plan”). In addition to introducing a new currency, something that was becoming pretty common to Brazilians by then, it also attacked the structural causes of inflation.

Lula was counting on the failure of the Plano Real when he ran against FHC in 1994, but the plan succeeded, giving FHC two terms as president. During those two terms, FHC introduced several institutional changes that made Brazil a saner country. In addition to the hyperinflation, Brazil had lived a debt crises for decades and was still in default. FHC’s team renegotiated the debts, reopened lines of credit, but most importantly, introduced reforms that made the Brazilian finances and financial system credible.

The problem was not even that Brazil had a fiscal déficit, it just did not have any control whatsoever of money supply and budget. Banks, regardless of whether they were private or public, had very little regulation and took advantage of the hyperinflation to hide monstrous holes in their balances. When inflation was gone and regulation became more strict, those became apparent, and it was pretty clear that the system would collapse if nothing was done.

Some people like to say that FHC was a president who ruled for the rich and didn’t care about the poor. I think the way the potential collapse of the banking system was handled is a great counter-example of that. The government passed laws that made the owners of the banks responsible for the financial problems, regardless of whether caused by mismanagement or fraud. If a bank went under, the central bank intervened and added enough money to protect the deposits, but that money was a loan that had to be repaid by the owners of the bank, and the owners’ properties were added as collateral to the loan. As a brazilian journalist once said, the people did not risk losing their deposits, the bankers did risk losing the banks, though. Today, we have a separate fund, filled with money from the banks, that does what the central bank did back then when required.

Compare that to countries where the banking system was saved with tax payer money and executives kept getting huge bonuses regardless, while owners kept their profits. It is hard to find an initiative that is more focused on the public interest against the interest of the rich people who caused the problem. This legislation, called PROER, is still in place today, and it came along with solid regulation of the banking system. It should come as no surprise that Brazil went through the financial crisis of 2008 with not a single hiccup of the banking system and no fear of bank runs. Despite having been against PROER back in the day, Lula celebrated its existence in 2008, when it was clear it was one of the reasons we would not suffer much. He even advertised it as something that should be adopted by the US and Europe.

It is also pretty common to hear that under FHC social questions were not a priority. I believe it is pretty simple to see that that was not the case both by inspecting the growth of social spending and the improvement of social indicators for the period, such as UN’s human development index. One area in which people are particularly critical of the FHC government is the investment on higher education, and they are actually quite right. Brazil has free Federal universities and those did not get a lot of priority in the 90s. However, I would argue that while it is a matter of priorities, it is not one of education versus something else, but rather of what to invest on inside education. The reality is basic education was the priority.

When FHC came to power, Brazil had a significant number of children who were not going to school at all. The goal was to make access to schools universal for young children, and that goal was reached. Every child has been going to school since the early 2000s, and that is a significant achievement which reaches the poorest. While the federal universities are attended essentially by the Brazilian elite, given the difficulty of passing the exams and the relative lack of quality of free public schools compared to private ones, which is still a reality to this day, investment on getting children to even go to school for the early years has a significant impact on the lives of the poorest.

It is important to remember that getting every child to go to school is also what gave birth to one of the most celebrated programs from the Lula era: Bolsa Família (“Family Allowance”) is a direct money transfer to poor families, particularly those who have children and has been an important contribution to lowering inequality and getting people out of extreme poverty. To get the money, the families need to ensure their children are 1)  attending school and 2) getting vaccinated.

That program comes from the FHC government, in which it was created with the name Bolsa Escola (“School Allowance”), in its turn inspired by a program of the same name by governor Cristovam Buarque, from PT. What Lula did, and he deserves a lot of credit for this, was to merge a series of smaller programs with Bolsa Escola, and then expand the program to ensure it got to more and more people. Interestingly, during the announcement of the program he credited the idea of doing that to a state governor from PSDB. You can see why I think these two should be allies again.

When faced with all these arguments, people will eventually say that FHC was bad because he privatized companies and used orthodox economic policies. Well, if that is what it takes, then we’ll have to take Lula down with him, because his first term was essentially a continuation of FHC’s second term: orthodox economic policies to keep inflation down, along with privatization of several state-owned companies and banks. But Lula, whom I voted for and whose government I believe was a good one, is not my subject: Dilma is.

On Lula’s second term, Dilma gained a lot of power when other major leaders of PT went down for corruption. She became second in command and started leading several programs. A big believer in developmentalism, she started pushing for a bigger role of the state in the coordination of the productive sector, with a clear focus on growing the industrial base.

One of the initiatives she sponsored was a sizable increase on the number and size of subsidized loans given out by the national development bank (BNDES). Brazil started an unnofficial “national champions” program, where the government elected a few big companies to get a huge amount of subsidized credit.

The goal was for these selected firms to get big enough to be competitive on the global market. The criteria for the choices is completely opaque, if it even exists, and includes handing out milions in subsidized credit for Eike Batista, who became Brazil’s richest enterpreneur for a while, and lost pretty much everything when it became clear the oil would not be pumping out of his camps after all, sinking with them a huge amount of public funds invested by BNDES.

The way this policy was enacted, it is unclear how much it really costs in terms of public funds: the Brazilian treasury emits debt to capitalize, lends that money to BNDES with higher than market interest, and BNDES then lends it out to the big companies with a lower than market interest rate. Although it is obviously unsustainable, the problem does not yet show in the balance because the grace period for BNDES debt with the treasury is 2040. The fact that this has a cost and, perhaps more importantly, a huge opportunity cost is not clear because it is not part of the government budget. Why are we putting money in this rather than quadrupling Bolsa Família, which studies show generates 1,78 reais in GDP for every 1 real invested? Worse, why are we not even updating Bolsa Família enough to cover inflation?

When Dilma got elected in 2010, the first signs were pretty bad. She was already seen as someone who did not care much for the environment, and on her first month in power she made good on that promise by pushing to get the Belo Monte Dam building started as soon as possible regardless of conditionalities being satisfied. To this day there are several issues with how the building of the dam is going: the handling of the indigenous people and the small city nearby are lacking, conditionalities are not met.

Beyond Belo Monte, indigenous leaders are being assassinated, deforestation in the Amazon forest has increased by 122% in 2014 alone. Dilma’s answer to people who question her on these kinds of issues is essentially: “would you rather not have electric power?”

Her populist authoritarian nature and obsession with industry are also pretty evident when it comes to her policies in the energy area as a whole. She showed up in national tv on the eve of our independence day celebration to announce a reduction in electric tariffs, mainly for industry, but also for homes. Nobody really knew how. The following week she sent a fast-track project to Congress to automatically renew concessions of power grid operators, requiring those who accepted it to lower tariffs, instead of doing an auction, which was already necessary anyway because the concessions were up on 2015. There was no discussion with stakeholders, there was just a populist announcement and a great deal of rhethoric to paint anyone who opposed as being against the people.

And now, everything went into the crapper because that represented a breach of contract that required indemnification, and we had a pretty bad drought that made power more expensive given the need to turn on the thermal generators. Combining the costs of the thermal generation, indemnity, and financial fallout that the grid operators suffered, we are already at 105 billion reais and counting, nobody knows how high the cost will reach. Any reduction in tariffs has long been invalidated. And the fact that industry has lowered production significantly ends up being good news, we would probably be under rationing already if that was not the case.

You would expect someone who fought a dictatorship to be pretty good in terms of human and civil rights. What we see in reality is a lack of respect for those things. During the world cup, Dilma has put the army on the streets and has supported arbitrary behaviour from state polices  throughout the country. They jailed a bunch of demonstrators preemptively. No shit. The would be demonstrators were kept in jail throghout the tournament under false accusations. Dilma’s Minister of Justice said several times that the case against them was solid and that the arrests were legal, but it turned out the case simply did not exist. Just this week we had a number of executions orchestrated by policemen in the state of Pará and there is zero reaction from the federal government.

In the oil industry, Dilma has enacted a policy of subsidizing gas prices by using a fixed price that used to be lower than the international prices (it is no longer the case with the fall in international prices). That would not be a problem if Brazil was selfsufficient in oild and gas, which we are not: we had to import a significant amount of both. The implicit subsidy cost Petrobrás a huge amount of cash – the more gas it sold, the bigger the losses. This lead not only to decreasing the company’s market value (it is a state-controlled, but open company), but to reducing its capacity of investment as well.

That is more problematic than it sounds because, with our current concession model, every single oil camp needs to have Petrobrás as a member of the consortium. Limiting the company’s investment capacity limits the rate at which our pre-salt oil camps can be explored and thus the speed at which we can become selfsufficient. Chicken and egg anyone?

To make things worse, Dilma has made policies that lowered taxes on car production, used to foster economic activity during the crisis in 2008-2010, essentially permanent. This lead to a significant increase in traffic and polution on Brazilian cities, while at the same time increasing the pressure on Petrobrás, which had to import more and more gas. Meanwhile, Brazilian cities suffer from a severe lack of mobility infrastructure. A recent study has shown that Brazil has spend almost twice as much subsidized money on pro-car policies than on pro-mass transit projects. Talk about good usage of public funds.

One of the only remaining good news the government was still able to mention was the constant reduction in extreme poverty. Dilma was actually ellected promising to erradicate extreme poverty and changed the government’s slogan to “A rich country is a country with no poverty” (País rico é país sem pobreza). Well, it turns out all of these policies caused inequality and extreme poverty both to stop falling as of 2013. And given the policies were actually deepened in 2014, I believe it is very likely we’ll see an increase in both when we get the data for 2014, next year.

Other than that, her policies ended up being a complete failure. Despite giving tax benefits to several sectors, investment has fallen, growth has fallen and inflation is quite high at 6,6% for the last 12 months. In terms of minorities, her government has been a severe set back, with the government going back on educational material against homophoby saying it would not do “advertisement of sexual choice”, and going back on a decree that allowed the public health system to perform abortions on the cases allowed by the law (essentially if the woman has been raped).

Looking at Dilma’s policies, I really can’t see that much of the left, honestly. So why, you might ask, has this victory been deemed a victory of the left over the right? My explanation is the aura the workers party still manages to keep over itself. There’s a notion that whatever PT does, it will still be more to the left than PSDB, which I think is just crazy.

There is also a fair amount of idealizing Dilma just because she is Lula’s protegé. People will forgive anything, provided it is the workers party doing it. Thankfully, the number of people aligned on the left that supported the candidate from PSDB this election tells me this is changing quite rapidly. Hopefully that leads to PT having to reinvent itself, and get in touch with the left again.

Achei que você era de esquerda

Várias pessoas que me viram defender o voto em Aécio no segundo turno me disseram alguma variação de “achei que você fosse de esquerda”. E sou. Votei em Eduardo Jorge no primeiro turno, por ter na minha opinião o melhor conjunto de propostas e decidi, assim como ele, que o melhor candidato no segundo turno era Aécio. Se quiser conhecer minhas posições em detalhes, escrevi sobre aqui.

Uma das minhas missões nessa eleição foi tentar desfazer essa visão muito arraigada no discurso político do meu círculo de que o PSDB seria um partido de direita ou, pelo menos, à direita do PT o suficiente para que seja uma decisão óbvia votar no PT. Olhando para a história podemos ver que o PSDB, assim como o PT, tem sua origem na esquerda. Foram inclusive aliados em algumas eleições, antes de o PT se recusar a fazer parte do governo Itamar Franco e escolher o PSDB como adversário em 1994. O PT esteve, sim, à esquerda do PSDB, mas assim como o PSDB, pendeu para a direita em nome da viabilidade e da governabilidade, ocupando o centro, para se tornar situação.

Há várias concepções equivocadas relacionadas ao PSDB e em particular ao governo FHC, que eu venho tentando ajudar a desfazer. Isso porque eu acho que é danoso para a democracia a noção de que o PT estará à esquerda do PSDB independente do que faça. Não importa que Dilma tenha sido bem pior que FHC em demarcações e questões indígenas, em reforma agrária, que esteja sendo vista como mandatária do pior governo da história para o meio ambiente. Por ser do PT está automaticamente perdoada por uma parte da esquerda.

Desfazer essa concepção me parece essencial para que tanto PSDB quanto PT tornem a fazer defesas concretas mais à esquerda: o PT não pende para a esquerda porque não precisa, o PSDB não pende para a esquerda porque não adianta: mesmo quando tem propostas mais progressistas, como foi o caso na questão LGBT esse ano, está previamente condenado a ser “menos confiável” ou qualquer coisa do tipo, mesmo com 4 anos de mandato concretos de retrocessos com Dilma. O mesmo vale para Marina, inclusive, e antes dela para Eduardo Campos, mostrando que não é só o preconceito contra o PSDB o problema, mas a defesa incondicional do PT.

Mesmo o fato de que políticas com foco social foram de fato adotadas por governos do PSDB geralmente não são suficientes para demover essa restrição. Em um texto, por exemplo, demonstrei como o aumento real de salários e investimentos sociais foram também características do governo FHC. Basta olhar o índice de GINI para ver que a queda da desigualdade vem desde o governo FHC, também, embora somente a partir do segundo mandato, depois que o pior tinha passado na estabilização da economia.

Também tentei mostrar como o PROER, que a campanha Dilma comparou injustamente com o Bolsa Família, foi uma reforma legislativa que impediu que a sociedade pagasse pelas estripulias dos banqueiros, fazendo com que eles pagassem com seus próprios bens por rombos de caixa. Há inúmeras críticas a serem feitas a FHC e eu tenho muitas, mas é difícil achar reforma mais focada em defender o interesse público contra os interesses privados dos ricos banqueiros. Há quem diga que quem vota no PSDB é porque não estudou história. Eu acho que quem só vê defeitos no governo FHC e o acusa de ser contra os pobres é que provavelmente precisa se desvencilhar dos argumentos rasos e estudar o que foi a década de 90.

Do outro lado, tentei mostrar que Lula manteve as políticas básicas do segundo mandato FHC criticadas duramente na campanha de Dilma, inclusive com subida de juros para atingir sua ambiciosa (para a época) meta de inflação de 4,5%. Há vários defensores e integrantes dos governos petistas que podem ser lidos a esse respeito, como Palocci e um dos cotados a Ministro da Fazenda para o segundo mandato Dilma, Nelson Barbosa, que escreveu “A inflexão do governo Lula: política econômica, crescimento e distribuição de renda“. Mais importante ainda, tentei mostrar que Dilma não representa continuidade das boas políticas que nos regeram de 2001 a 2010 e que a política de campeões nacionais, iniciada quando Dilma ganhou preponderância no governo Lula, essa sim foi grande geradora de desigualdades e privilégios para os ricos a um custo que ninguém conhece bem.

Não é a toa que eu já previa que o governo Dilma seria ruim e votei nulo no segundo turno em 2010. Junto com a nova matriz econômica, que veio com o novo governo, e os truques contábeis que se aprofundaram de forma significativa, essa política de financiamento barato de grandes empresas levou a um retrocesso enorme. O primeiro governo Dilma já foi capaz até mesmo de aumentar a miséria, que havia prometido erradicar, como mostrou estudo do IPEA cuja publicação foi atrasada para que só acontecesse após as eleiçoes. O governo chegou a mudar o slogan do governo federal para “País rico é país sem pobreza”, mas isso adiantou pouco.

Na economia, Dilma prometeu que faria uma revolução na indústria, aumentando investimentos e acelerando o crescimento. Sua obsessão pela indústria a levou a adotar medidas temerárias desejadas pela FIESP, como a redução exagerada dos juros em 2012, sendo obrigada a aumentá-los depois e ficando como a primeira presidente a entregar taxa de juros e inflação piores do que pegou. A redução na base da canetada das tarifas de energia, que gerou um custo que já chega a 105 bilhões mas ainda pode crescer foi outra medida tomada pela mesma razão. Redução que já foi anulada pelos aumentos desde então. Fez também um controle ferrenho do câmbio, via swaps cambiais feitos constantemente pelo BC. Por fim, entregou um péssimo nível de crescimento, especialmente no último ano de mandato, colocando a culpa numa crise que já não existe, visto que o mundo já se recupera.

Foram concedidas desonerações para setores específicos escolhidos a dedo, sem critério claro, que ajudaram a levar ao primeiro déficit fiscal da série histórica. O nível de investimento fez foi cair para 16,5%. A falta de continuidade no sucesso das políticas, tanto econômicas quanto sociais, fica clara na tática de sempre falar durante a campanha dos governos Lula e Dilma juntos, para esconder a piora trazida pelos quatro anos de Dilma. Nada do que fez deu certo e nem sou só eu que estou falando, até alguns petistas importante reconhecem quando não estão em campanha.

Alguns amigos chegaram a me dizer que era muito irônico eu que votei no PT e trabalhei em um dos famosos cargos de confiança no governo Lula estar me comportando como anti-petista. Não entendo que motivos dei para acreditarem que sou anti alguma coisa. Não sou anti-petista, voto e votarei no PT sempre que achar que é a melhor opção. Votei pela primeira vez em 2002 e foi no PT, o PT que tinha se aproximado da posição do PSDB e aceitado deixar de lado a agenda econômica que o PSOL ainda defende, o PT que acabou abraçando os programas iniciados na era FHC e levando-os a novos patamares. Além disso, gosto de muitos petistas, queria até importar o Haddad pra ser prefeito de BH. Haddad que vem sendo atrapalhado pelas políticas pró-carro da Dilma, diga-se de passagem.

Mas também não sou anti-psdbista, como deve ficar óbvio. Não tenho nenhuma dívida com o PT e me recuso a apoiar governos que eu considero retrocessos, seja de que partido for. Acompanho de perto o governo federal há mais de uma década e li tudo que pude sobre a história dos anos 90, que como criança e adolescente vivi com todas as suas esperanças e decepções, com todos os seus baques e sucessos, junto com minha irmã, como filhos de mãe viúva professora do estado. Minha consciência e meu conhecimento me deram bem claro o caminho, desde cedo: Eduardo Jorge representou o que houve de melhor em termos de propostas, no todo, e foi com ele que fui de mãos dadas ao primeiro turno, mas entre Marina ou Aécio e Dilma, não tive a menor dúvida sobre que caminho seguir.

A campanha só fez aumentar essa percepção. Muitos amigos meus votaram Dilma com ótimos motivos e comportamento republicano e democrático. No entanto, nunca vi a sujeira e a mentira tão presentes em uma campanha oficial petista. Foi algo comparável a Serra em 2010, com seu uso covarde da questão do aborto. A campanha de demonização de Marina, acusando-a de querer criar um quarto Poder da República a ser entregue aos bancos para tirar comida das mesas dos brasileiros, criando interpretações distorcidas das propostas da candidata, vai precisar de muito esforço para ser superada.

A constante chantagem de que os adversários acabariam com programas sociais, a retórica mentirosa de que inflação baixa significaria 15% de desemprego, baseada numa interpretação superada e distorcida da curva de Phillips, quando o próprio governo Lula serve de exemplo para desprovar tamanho disparate. Tudo isso só serve para criar tabus em tornos de temas que não merecem ser tabus, como foi feito com o próprio conceito de privatização.

Não quero com isso dizer que as campanhas de Marina e Aécio foram límpidas, não foram. Houve muita retórica, muito exagero, muita mentira. Mas nada há nas campanhas oficiais de ambos que se comparasse à cara de pau da campanha oficial petista.

Para além das campanhas oficiais, aí sim, a revista Veja, que é anti-petista desde há muito, cometeu novos recordes de baixeza, especialmente com o vazamento de uma suposta acusação pessoal a Lula e Dilma, vinda da delação do doleiro Youssef, adiantando a distribuição da revista para que chegasse a mão de eleitores com maior antecedência. Em termos de mídias, a Veja é hors concours em ter feito a mais baixa campanha contra o PT, como de costume.

No entanto, os inúmeros blogs e sites pseudo-jornalísticos chapa-branca mantidos com patrocínio de estatais, como os de Paulo Henrique Amorim, Brasil 247, Plantão Brasil, Pragmatismo Político, não pouparam esforços para inventar mentiras e distorcer dados. Divulgaram por meses a fio como se fosse atual uma ação no TJ MG sobre um suposto desvio de 4,3 bilhões da saúde em Minas. Ação que já estava arquivada por questões técnicas – a procuradora que a moveu não tinha competência para movê-la. O próprio TCE fez com o governo Anastasia, sucessor de Aécio, um termo de ajustamento de conduta e dizia claramente que a padronização do que poderia ser considerado saúde só veio a existir em 2011, com a regulamentação da emenda 29, o que foi consistentemente ignorado pelo pseudo jornalismo desses sites.

Do lado da Marina, os chapa-branca trabalharam fortemente em contribuir com a campanha oficial para pintar Marina como a candidata dos banqueiros, criando uma imagem distorcida de Neca Setúbal, reconhecida educadora que contribuiu inclusive para o programa de governo do petista Haddad em São Paulo. Diziam que por ser dona de uma fatia do Itaú só podia ser banqueira interessada exclusivamente no lucro. E por ter doado como pessoa física para a criação de um instituto de defesa do meio ambiente por Marina Silva, tinha comprado seu lugar no governo.

No limite da falta de noção, criaram um suposto economista alemão chamado Kurt Neueur que não entendia como Dilma estava com chances de perder. Verificou-se que se tratava de um comentário em um site de notícias alemão, de uma conta criada dias antes. Quando os absurdos ataques a nordestinos começaram, descobriu-se que perfis fake usados para engrossar likes de páginas petistas foram usados para criar posts falsos, que podiam ser explorados pela campanha. E o mais triste foi saber que tenho muitos amigos que acham que tudo isso “é do jogo”…

Depois de ter dito tudo isso, você talvez tenha estranhado eu não ter falado de corrupção. Concordo com uma amiga minha que votou Dilma: corrupção é questão estrutural, endêmica. Por mais que o PT tenha feito algo absurdo no governo, não sou ingênuo de achar que um governo Marina ou Aécio teriam menos corrupção. É certo que não acredito, como alguns, que Dirceu e Genoíno são heróis da nação, mas basta olhar para o fato de que o mensalão começou em Minas, numa campanha do PSDB para ver que a coisa é sistêmica. Não duvido que se investigarem a fundo vão achar PSDB no Petrolão também, como acharam PT e PSB.

Cabe ressaltar aqui que não acredito que seja o PSDB que tem que responder por quê o mensalão do PSDB não foi julgado até hoje: ele foi descoberto no governo Lula, em razão das investigações do mensalão do PT. O processo foi desmembrado por decisão do STF, majoritariamente indicado por governos do PT. A parte do STF estava pronta para ser julgada logo após o mensalão do PT e foi o mesmo STF majoritariamente indicado por governos do PT que decidiu remeter à primeira instância dado que não havia mais foro privilegiado com a renúncia do Azeredo.

Isso não isenta o PSDB dos casos de corrupção, tanto do mensalão quanto do caso do metrô em SP, mas é óbvio que quem tem que responder é o STF. Como deve ficar claro, não falo de corrupção porque não existe decidir quem é pior nesse caso. Além disso, acredito que a escolha de um projeto político tem um impacto muito maior no que o país será no futuro do que um caso de corrupção, mesmo que seja grande. Compare os 10 bilhões descobertos até agora no petrolão aos 105 bilhões de rombo já apurado no setor de energia, por exemplo.

Enfim, estou super aliviado com o fim da eleição. Se engana quem acha que eu estou triste! Muito menos quero sair do país: trabalho para uma empresa de fora que tem programa de relocação, poderia fazê-lo se quisesse. Mas me recuso a deixar o país, quero é ficar aqui para ajudar a melhorar, dizia isso para minha mãe desde criança. Defendi o projeto que eu acredito que teria sido o mais capaz de colocar o país de volta no caminho do crescimento, da justiça social, da erradicação da miséria. Vi que com essa campanha Aécio conseguiu dar um passo importante para nossa sociedade, de começar um desagravo do ex-presidente FHC e de recolocar o PSDB como um partido com projeto crível para o país, o que nos dá alternativas. Fico também feliz de

Por outro lado, fico muito mais tranquilo sabendo que quem vai ter que descascar os abacaxis plantados nesses quatro anos de governo, com a nova matriz econômica, a política de campeãs nacionais, as desonerações no varejo e a desestabilização da área energética será a própria presidenta que os plantou. Não vou deixar de debater, de apoiar o que achar bom e de criticar o que achar errado. Espero que possamos fazer isso de forma civilizada e com o alto nível que presenciei nos debates com amigos e não com a sujeira das campanhas, imprensa panfletária e sites chapa-branca.

Não vamos desistir do Brasil!

Subsídios e os EUA como régua

Dilma, em discurso na CNI (a partir de 39:55), criticou de uma forma meio confusa quem critica a manutenção do preço da gasolina e do Petróleo abaixo do preço internacional fazendo uma comparação com a política dos EUA com relação ao gás natural. Ela disse:

Pra fazer a mesma coisa, sabe o que a gente tem que fazer, pra fazer a mesma coisa? Também tomar as mesmas medidas. O que não é possível é comparar coisas que tem medidas diferentes.

Como eu falei disso anteriormente, me senti compelido a comentar. A Presidente parece querer argumentar que não se pode criticar a diferença do preço de petróleo e derivados no Brasil porque os EUA fazem o mesmo com o gás natural.

Ora, os EUA não são régua absoluta para determinar o que é certo e o que é errado, então a mera constatação de o que os EUA fazem alguma coisa não deveria servir para definir o que se pode ou não criticar no Brasil. Além disso, eu vou argumentar nesse texto que ao contrário do que a presidente disse, são sim coisas diferentes que estão sendo comparadas, o que invalida seu argumento.

De qualquer forma, antes de tudo, é bom colocar em perspectiva a questão nos EUA: eles instituíram políticas de subsídios para quase todas as fontes de energia, de acordo com o último estudo publicado pela EIA, a ANP e ANEEL deles. 42% dos subsídios foram para geração de energia por vento e apenas 5,5% para gás natural e petróleo, em 2010.

As diferenças entre as políticas lá e cá

Voltando para nosso petróleo e o gás deles, há uma grande diferença entre as políticas que tornam essa uma comparação de laranjas com maçãs. Diferentemente do caso da gasolina no Brasil, o preço do gás não é definido pelo governo no mercado interno dos EUA. É possível ver, também em relatórios da EIA, que o preço varia constantemente, de acordo com a demanda e a oferta.

Além disso, os EUA não dependem tanto de importação de gás, mas quando importa, importa por preços similares aos seus, como pode ser visto nesse relatório. A quantidade de importações vem caindo na última década e, ao contrário do que disse a presidente na CNI, o país não proíbe exportação: é possível ver nesse relatório que os EUA exportam gás liquefeito para países distantes e via tubulação para países próximos. É importante notar, porém que há sim restrições a quanto e a quem exportar, o que valida o  argumento da presidente de que isso afeta o preço local.

O Brasil foi auto-suficiente em petróleo por tão pouco tempo que nem merece ser lembrado, mas as políticas de incentivo ao consumo de carros e o crescimento econômico aumentaram muito a necessidade de importações, que estão sendo feitas a um preço maior do que o preço de venda, como eu disse no meu texto original. Vale lembrar o post do Drunkeynesian do começo de 2013 a respeito de como a Petrobrás ficou na situação insólita de perder mais dinheiro quanto mais vende gasolina. Em 2014, essa importação diminuiu bastante, em razão do aumento da porcentagem de álcool misturado à gasolina, mas continua representando uma forma de a Petrobrás ter prejuízo.

Para terminar, a mais importante das diferenças da política dos EUA e a nossa é a forma como se dá o subsídio: nos EUA, os subsídios a energia foram definidos em lei aprovada pelo Congresso e fazem parte do orçamento e da contabilidade da EIA – ou seja, foi discutido de forma democrática e fica transparente na contabilidade federal.

No caso do Brasil, o subsídio é dado de forma indireta e opaca, através da fixação do preço que a Petrobrás pode cobrar, sem que o subsídio tenha sido debatido no Congresso, sem que a escolha de usar o dinheiro para isso ao invés de para outra coisa, como investimentos no pré-sal ou mesmo dividendos para melhorar as contas públicas, tenha sido feita de forma democrática.

O dinheiro sai do caixa da Petrobrás, fazendo com que a dívida da empresa cresça e sem ser contabilizado transparentemente como subsídio. Além da queda de lucro, que causa uma geração de dividendos menor para o Estado brasileiro, é óbvio que essa é uma situação insustentável a longo prazo para uma empresa de capital aberto, e é bem provável que o governo federal tenha que acabar injetando mais capital na empresa, usando dinheiro que poderia ser usado para outras coisas. Ou quem sabe mais uma vez “permitindo” aos trabalhadores perder dinheiro fazendo investimentos em ações da Petrobrás com seu FGTS.

Concluindo

Como eu expliquei no meu outro texto, eu não sou contra o subsídio ao petróleo e seus derivados por ser um subsídio. Eu sou contra basicamente por dois motivos:

  1. Subsidiar petróleo e gasolina diminui os incentivos para investimento em fontes limpas e renováveis de energia e aumenta os incentivos para a compra e uso de automóveis, causando piora do trânsito nas cidades brasileiras. Eu não considero que esse subsídio seja do interesse do país.
  2. Subsídio que não passou pelo Congresso é ruim, porque não fica transparente que o dinheiro está sendo tirado de algum lugar para ser colocado nisso. É uma forma bastante eficiente de esconder o custo do subsídio para a população em geral ao mesmo tempo em que pressiona o caixa Petrobrás e causa prejuízos para seus acionistas (incluindo aí trabalhadores que investiram o FGTS e o próprio Tesouro Nacional).

Ou seja, não estou dizendo que fazer subsídio é, per se, uma coisa ruim, mas que isso devia ser melhor discutido e colocado na agenda de discussão democrática do país. Infelizmente, debate democrático é algo que faz muita falta no governo Dilma Rousseff. O setor da energia e as manifestações que o digam.

Pressionar o caixa da Petrobrás também é um problema com graves consequências de curto e médio prazo: o governo Lula modificou a política de exploração de poços de petróleo de modo que todos os consórcios de exploração do pré-sal precisam ter a Petrobrás como líder. Ou seja, só se tira petróleo do pré-sal com a Petrobrás investindo, o que fica prejudicado sem ter dinheiro em caixa e com uma quantidade grande de dívidas.

Volto também à questão da gasolina especificamente: petróleo, diesel, gás, pode até fazer sentido subsidiar para que a competitividade interna seja maior, mas gasolina? Continuo querendo entender de que forma a gasolina impacta na competitividade da indústria brasileira, se alguém tiver essa informação.

PS: a ANP e a ANEEL tem muito caminho pra chegar perto da transparência da EIA =(

Privatizaquê? Sobre aeroportos, teles e a redução da tarifa energética

Postado originalmente em 16 de setembro de 2012 no Observador Político e no Trezentos

Há um tempo atrás, com a privatização de 3 aeroportos anunciada pelo governo Dilma travei uma discussão muito interessante com um amigo psolista que é ávido defensor dos governos petistas, o Jonathan Simonin. Ao ser confrontado com o fato de que o governo Dilma está tomando a correta decisão de convidar a iniciativa privada para realizar os necessários investimentos de infra-estrutura ele já sapecou: não é privatização, é concessão – com data pra acabar! E disse mais: “pessoal do site tem que dar uma lida em direito administrativo pra saber a diferença da concessão pra privatização.”

Dados esses dois argumentos, coloquei alguns questionamentos: Primeiro, concessão tudo bem? Segundo, podemos parar de falar em privatização das telecomunicações, então, já que foi uma concessão? E, mais retoricamente, por que será que quem reclamava da “privatização” das teles não estudou direito administrativo antes? Acontece que meu amigo não acreditou que a concessão das telecomunicações o havia sido; “@gustavo tem data pra acabar? quando?”, disse ele.

Então expliquei pra ele que, sim, é uma concessão, e com data pra acabar! 2025. Em 2025 as concessões das teles para explorar o serviço de telefonia e inclusive os bens necessários para prestação do serviço, os chamados “bens reversíveis” voltam à União no final da concessão, o que permite ao Governo Federal, a partir daí tanto realizar uma nova concessão quanto voltar a operar o sistema, se achar que é o indicado.

falei desse assunto antes, então não vou entrar em detalhes aqui, mas acho interessante apontar que a banda larga não é uma concessão e que a lei criada no governo FHC permite ao Presidente da República colocar por decreto novos serviços de comunicação no que se chama de regime público, em que o serviço passa a ser um direito e o Estado tem obrigação de cuidar para que seja provido de forma universal, podendo licitar direitos e criar metas – prerrogativa que nem Lula nem Dilma usaram, deixando que o serviço fosse prestado no regime privado.

Mas voltando à discussão, meu amigo insistiu que no caso dos tucanos até concessão pode ser chamada de privatização porque eles sempre renovam. Aí eu o lembrei de uma coisa: em 2015 vencem diversos contratos de concessão relacionados a transmissão e distribuição de energia. Há quem acreditasse à época que, dado que não eram necessários mais grandes investimentos por parte das concessionárias – afinal essa parte do sistema elétrico está pronta, construída pelas concessões originais, seria uma boa oportunidade de reduzir os custos de tarifas e melhorar o serviço.

Disse que se o governo Dilma fosse responsável começaria a pensar numa licitação com antecedência, para criar concorrência similar à travada no caso dos aeroportos, chegando em 2015 com uma situação confortável. E lancei aí um desafio: caso Dilma realizasse uma renovação dessa concessão, seja de forma “automática” ou com licitação, poderíamos então chamá-la privatização, seguindo seu raciocínio?

Eis que Dilma aparece em rede nacional no dia 6 de setembro, no seu discurso oficial para o dia em que comemoramos nossa independência e anuncia uma redução da tarifa elétrica e eis que eu fico com uma baita pulga atrás da orelha. Como se daria essa tal redução? Algumas pessoas imaginaram que se tratava de uma devida correção de um erro de cálculo da ANEEL que fez com que o preço da eletricidade ficasse errado para milhões de consumidores, travestida de benesse para galgar popularidade.

Mas quando enfim se soube do que se tratava, pelo menos do meu ponto de vista, foi algo bem pior!

O Governo Federal decidiu renovar automaticamente, com antecipação de 3 anos e através de Medida Provisória, como de costume, as concessões existentes. Deixou de lado a prerrogativa de licitar e causou impressão de quebra de contrato. A redução tarifária inclui redução de encargos tributários, ou seja, subsidia com o dinheiro público a compra de energia, principalmente aquela usada pela indústria, que terá redução maior. Isso significa tirar dinheiro do imposto que todos pagam e privilegiar as indústrias.

Além disso, haverá uma indenização cujos valores serão conhecidos no dia primeiro de novembro. Até agora já se fala em até 47 bilhões. A incerteza gerada pelo anúncio também gerou uma queda de 15 bilhões no valor de mercado das diversas empresas de energia envolvidas nas concessões.

Enfim, acho que meu amigo vai ter que ceder e nos permitir taxar Dilma de privatista.

Leia Perguntas e respostas no site do Ministério de Minas e Energia para mais informações sobre o plano.

Atualização em 1 de outubro de 2014: o TCU vai tirar satisfações com o Ministério das Minas e Energias sobre a decisão de não fazer o leilão, que poderia ter reduzido os custos para o erário. O custo da canetada de 2012 para a Conta de Desenvolvimento Energético, só em 2013 e 2014, está estimado em 61 bilhões de reais.