Desconstruindo um caso de desonestidade intelectual

O crítico de cinema Pablo Villaça é um comentarista assíduo de política. Recentemente ele lançou uma campanha para tentar mostrar que a crise na verdade é algo construido pela mídia. O texto é um monumento à desonestidade intelectual e portanto vale perder um tempinho dissecando.

Seguem partes do texto com comentários intercalados, texto completo aqui.

Eu fico realmente impressionado ao perceber como os colunistas políticos da grande mídia sentem prazer em pintar o país em cores sombrias: tudo está sempre “terrível”, “desesperador”, “desalentador”. Nunca estivemos “tão mal” ou numa crise “tão grande”

Villaça começa usando uma técnica muito conhecida em debates políticos: a criação de espantalhos. Isso significa substituir a realidade complexa por uma simplificada e extremada, mais fácil de contrapor.

Temos sim notícias dizendo que a crise é grande e temos mesmo alguns indicadores que estão com os piores números em muito tempo. Isso é péssimo e desalentador, porque vínhamos de uma trajetória de melhoria e nos foi prometido que melhoraríamos mais quando na realidade ganhamos uma reversão da tendência. Mas dizer que a imprensa como um todo tem dito que nunca estivemos tão mal é um exagero calculado.

Em primeiro lugar, é preciso perguntar: estes colunistas não viveram os anos 90?! Mas, mesmo que não tenham vivido e realmente acreditem que “crise” é o que o Brasil enfrenta hoje, outra indagação se faz necessária: não lêem as informações que seus próprios jornais publicam, mesmo que escondidas em pequenas notas no meio dos cadernos?

Concordo com ele: houve muitas crises mesmo nos anos 90. A crise da hiperinflação por exemplo, que foi finalmente controlada pelo Plano Real. Depois, crises internacionais que impactaram muito nossa economia que ainda vinha se recuperando do total descontrole dos anos 80 e início dos 90.

As crises dos anos 90 foram realmente impactantes e de difícil solução por exigirem grande número de reformas que acabaram sendo feitas principalmente pelo governo FHC, abrindo o caminho para a bonança da era Lula. Mas isso não significa que o que vivemos agora não é crise.

Vejamos: a safra agrícola é recordista, o setor automobilístico tem imensas filas de espera por produtos, os supermercados seguem aumentando lucros, a estimativa de ganhos da Ambev para 2015 é 14,5% maior do que o de 2014, os aeroportos estão lotados e as cidades turísticas têm atraído número colossal de visitantes. Passem diante dos melhores bares e restaurantes de sua cidade no fim de semana e perceberá que seguem lotados.

Aqui vemos o cerne do argumento de Villaça: como pode haver crise se encontro nos jornais tantas notícias positivas? O problema é que nem tudo que ele diz aí é verdadeiro e o pouco que é não significa muito com relação a crise.

A Safra agrícola por exemplo não é afetada pela crise, é resultado do que foi feito em 2014. Ter safra recorde não significa que as vendas serão boas, mas nada impede que sejam, já que parte significativa da produção pode ser exportada. A capacidade de exportação tem mais a ver com o estado da economia dos países consumidores e a crise nesse caso ajuda, já que desvaloriza o real frente a outras moedas.

A desonestidade fica clara no segundo ponto: o setor automobilístico teria imensas filas de espera. Mas é mesmo? Então me explica a queda de 20% na venda de veículos em 2015, levando à menor em 8 anos. E a queda pela metade da venda de caminhões, que indica diminuição do investimento? Se há filas para adquirir os carros, por que os pátios estão lotados e trabalhadores sendo colocados em férias coletivas ou demitidos?

A única explicação que eu tenho é que Villaça tenha visto uma notícia dizendo que determinado modelo (que aposto ser de luxo) está com fila de espera e resolveu generalizar para ‘setor automobilístico’. Que é um fator importante que ele não levou em consideração: a crise não atinge todos igualmente.

Os mais ricos, como eu e ele inclusive (e como ele reconhece ao final do texto), podem demorar para sentí-la ou passar por ela sem perceber muito. Pessoas que tem dinheiro sobrando podem, na verdade, ganhar com a crise, aproveitando os juros elevados pagos por títulos públicos e privados. Daí o fato de os “melhores bares e restaurantes” estarem ainda cheios. Isso significa que não há crise?

Será que Villaça realmente acredita que a inflação dos últimos 12 meses, de quase 9%, não comeu boa parte da renda dos mais vulneráveis, que recebem Bolsa Família sem reajuste suficiente desde 2011? Ou será que ele não acredita nos dados publicados pelo IBGE, que indicam queda no nível de renda dos brasileiros e aumento do desemprego?

Ou será que está cego aos cortes que o Governo Federal tem feito, inclusive no que teoricamente é sua maior prioridade, a educação, com redução drástica no FIES, PROUNI, Pronatec, programas de pós graduação e até custeio de universidades, levando-as a passar um baita aperto financeiro? A UFBA teve a luz cortada, invenção da mídia?

Não. Tenho certeza de que Pablo Villaça não é tão cego. O que ele faz é colocar uma viseira e escolher os fatos que interessam. Fechar os olhos à situação do Brasil como um todo e focar no seu próprio círculo, na sua própria bolha. É como o cavalo que usa uma viseira para não ser distraído pela realidade que existe em volta. A diferença no caso dele, animal racional, é que o uso da viseira é sua própria escolha. O objetivo dele fica claro ao final do texto, em que ele diz:

Que é, afinal, o que eles querem. Porque nos momentos de verdadeira crise econômica, os mais abastados permanecem confortáveis – no máximo cortam uma viagem extra à Europa. Já da classe média para baixo, as consequências são devastadoras, criando um quadro no qual, em desespero, a população poderá tender a acreditar que a solução será devolver ao poder aqueles mesmos que encabeçaram a verdadeira crise dos anos 90. Uma “crise” neoliberal que sufocou os miseráveis, mas enriqueceu ainda mais os poderosos.

Para Villaça, não importa a realidade. Importa é não dar argumento para que alguma força política eventualmente convença seus seguidores de que podem, afinal, ser sim melhores que o PT que ele defende com unhas e dentes. Com a mesma garra que usou para ajudar a sujar as imagens de Marina e Aécio nas eleições de 2014, Pablo Villaça agora tenta fazer com que seus amigos e seguidores, menos vulneráveis e distantes do olho do furacão da crise, fechem os olhos à realidade que assola os mais pobres. Quer que escolham usar viseiras junto com ele.

Assim fica menos difícil defender a manutenção no poder do seu partido preferido daqui a alguns anos, quando tiver que explicar aos amigos e seguidores que fazem parte da sua bolha por que foi que a desigualdade e a miséria aumentaram, renda caiu, juros e inflação aumentaram, crescimento econômico foi desprezível: “Que crise?” dirá ele. “Esqueçam a imprensa, olhem suas fotos no Facebook, você não fez coisas boas?”, é 13 confirma!

O que é preciso pra entender desemprego no Brasil?

Somos bombardeados por indicadores relacionados à economia diariamente e fica muitas vezes difícil entender o que eles querem significam de fato. Um que eu acho especialmente complicado é o indicador do desemprego.

Primeiro, porque a metodologia pode não ser muito intuitiva. A taxa de desemprego por exemplo não mede a fração de pessoas que precisa de emprego e não tem, mas sim a fração de pessoas que estão no mercado de trabalho e se encontram desocupadas. Estar no mercado de trabalho significa estar trabalhando ou ter procurado emprego nos últimos 30 dias.

Ou seja não são considerados na estatística: quem está numa situação tão miserável que nem tenta procurar emprego, a pessoa que está recebendo seguro desemprego mas não procurou trabalho, quem arranjou um subemprego pra ter o que comer e parou de procurar trabalho e por aí vai. Dessa perspectiva, nem é tão estranho assim que o uso do seguro-desemprego tenha crescido enquanto a taxa de desemprego caía.

Segundo, porque o Brasil tem atualmente duas importantes pesquisas oficiais que medem a taxa de desocupação. A PME, Pesquisa Mensal de Emprego, é uma pesquisa feita pelo IBGE em 6 grandes regiões metropolitanas brasileiras. Vários estados ficam de fora e o interior dos estados que são contemplados com uma região metropolina também. Isso faz com que a PME seja uma estimativa bastante enviesada.

O IBGE planeja substituir a PME pela PNAD contínua (PNADc). A PNAD é como se fosse uma atualização constante do censo. Ao contrário do censo que visita cada domicílio, a PNAD é feita por amostragem. Mas ao contrário da PME que só enxerga 6 grandes metrópoles, a PNAD chega a mais de 3.500 municípios, conseguindo uma visão bem mais abrangente do que acontece país a fora.

Desde que a PNADc começou ela vem mostrando uma taxa de desemprego maior que aquela vista pela PME. Não por acaso o governo tende a usar sempre os dados da PME. O plano era que a PNADc passasse a ser a única pesquisa utilizada e que a PME deixasse de ser executada a partir de 2015. Com o aumento de desemprego, acho provável que o governo pressione o IBGE a continuar publicando a PME até que os problemas da economia sejam sanados.

Uma semana atrás, no dia do trabalhador, um perfil do governo no Twitter publicou um gráfico comparando a taxa de desemprego do Brasil com outros países com o objetivo de mostrar que apesar do aumento não estava tão ruim.

Gráfico do governo comparando desemprego medido pela PME com de outros países
Gráfico do governo comparando desemprego medido pela PME com de outros países

Comparar taxas de desemprego entre países pode ser uma coisa problemática porque países diferentes podem usar metodologias diferentes. E também porque cada um pode estar numa tragetória diferente. Considere por exemplo os EUA que estão com uma forte recuperação da atividade econômica e vêm tendo uma reduçao do desemprego nos últimos tempos com o Brasil que vai na direção inversa.

O governo, obviamente, escolheu usar o número da PME para sua comparação. Mas o gráfico é bizarro por muito mais que só esse problema: se você prestar atenção vai perceber que os 0,5 entre os 6,4 da Alemanha e os 6,9 da Argentina são maiores no gráfico do que os 1,7 entre os mesmos 6,9 e os 8,6 da Índia. E você aí achando que só a Globo News gosta de usar escalas bizarras pros gráficos, hein?

Nessa quinta dia 7 de maio saíram os dados da PNADc, com uma taxa de desemprego de 7,9%. Com os dados mais confiáveis e abrangentes da PNADc em mãos, resolvi fazer um pequeno exercício: peguei o gráfico do governo, selecionei a área da barra dos 6,9 da Argentina que fica acima dos 6,4 da Alemanha e considerei como 0,5. Daí empilhei até dar os 1,7 que precisa somar aos 6,2% da PME. O resultado:

Gráfico do governo consertado com os dados da PNADc. Escala do conserto é a da diferença entre Alemanha e Argentina
Gráfico do governo consertado com os dados da PNADc. Escala do conserto é a da diferença entre Alemanha e Argentina

Dois resultados do exercício: 1) os 7,9 do Brasil ficam bem maiores que os 8,6 da Índia com a escala usada entre Alemanha e Argentina, o que mostra que o gráfico é uma piada de mau gosto; 2) o Brasil não vai lá muito bem nessa comparação.

E, infelizmente, a perspectiva do Brasil não é boa, a expectativa é que o desemprego aumente, basta ver que temos notícias todos os dias de grandes demissões. Esse ano vai ser dureza.

Uma defesa do PL da terceirização

Está na pauta do país no momento o debate sobre a terceirização. Essa modalidade de contratação não é regulamentada na nossa legislação atual, o que há é um entendimento do TST de que só é lícito terceirizar atividades meio, ou seja, aquelas que são suporte para a atividade foco do negócio. Há, no entanto, uma série de questões que sofrem com o vácuo legislativo.

Por exemplo, uma empresa que desenvolve software pode terceirizar limpeza, segurança, manutenção, gerenciamento de rede dos escritórios. Não pode terceirizar programação e controle de qualidade do software que desenvolve. Ou pode? Há quem diga que teste não faz parte da atividade fim e que é só uma atividade suporte.

Eis um dos problemas com a nossa atual situação: a própria definição do que compõe a atividade fim de uma empresa é difícil e cria insegurança jurídica. Pode ser que você esteja terceirizando algo que a justiça vai decidir que é parte da sua atividade fim. Daí a necessidade de uma lei que regulamente e explicite o que pode e o que não pode.

Achei despolitizante a forma como o debate tem sido interditado, com apelos a exageros retóricos, binarismo e maniqueísmo. Acredito ser muito importante pensar nas novas formas de trabalho que a evolução das comunicações e da gestão trouxeram e acho que fazer desse assunto um tabu é um erro.

Vi gente dizer por exemplo que esse projeto seria o fim da CLT. Não será: ainda que todas as empresas demitissem todo mundo para contratar terceirizados no lugar (o que acho difícil acreditar que acontecerá), as empresas terceirizadas terão que contratar na CLT. E não concordo com as avaliações de alguns que todo mundo viraria “pejotinha” – criar uma empresa com somente uma pessoa para evadir a CLT. A legislação trabalhista já proíbe a prática e nada nesse projeto a torna permissível.

Algo que também me preocupa é o foco das discussões estar sempre em empregos de baixa produtividade e ignorando as implicações mais gerais para o avanço da economia brasileira. Será que não deixamos de avançar num tema que pode estar atrapalhando o Brasil a se aproveitar das mudanças por que o mundo e o mundo do trabalho tem passado?

Pesquisando sobre a questão tomei conhecimento de duas coisas muito importantes que acho que tem ganhado pouco destaque no debate. A primeira é que os números que vem sendo utilizados no debate (que terceirizados ganham 25% menos e se acidentam mais, por exemplo) são de uma pesquisa com grandes problemas metodológicos. Para se ter uma ideia, ao invés de comparar as mesmas atividades quando terceirizadas ou não, a pesquisa compara atividades “geralmente terceirizadas” com atividades “geralmente não terceirizadas”. Ao invés de comparar pedreiros com pedreiros, compara pedreiros com engenheiros. Há uma pesquisa vindo aí com mais rigor que mostra resultados bem diferentes, recomendo esse texto dos autores n’O Gusmão.

A segunda é que a única norma legal sobre a terceirização está prestes a cair. Essa norma é a súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho que definiu que só pode ser terceirizada atividade meio. O STF está decidindo sobre a validade da súmula 331 e já tem inclusive maioria formada para derrubá-la. O entendimento é que não há em lei nada que impeça a terceirização de qualquer atividade e que a é inconstitucional.

Em outras palavras: quem quer que a terceirização não seja completamente liberada precisa que um projeto de lei seja aprovado dizendo isso. Engavetar o projeto atual pode ser um tiro no pé, mais sensato torná-lo uma lei que define melhor o que pode e o que não pode ser terceirizado.

Outra coisa interessante é que a súmula é de 2011, ou seja, só passou a valer já no governo Dilma. O entendimento não existia nas duas décadas anteriores e o mundo não veio abaixo.

Agora um pouco sobre minha experiência pessoal. Em 2006 e 2007 eu fui terceirizado no Ministério do Desenvolvimento Social. Como o MDS não conseguia fazer um contrato de terceirização que passasse pelo crivo do TCU, nós funcionários passamos por vários contratos de várias empresas terceirizadas. Eu fui contratado por um detentor de cargo de confiança, reportava pra ele, trabalhava dentro do Ministério e praticamente nem conhecia a empresa que me contratava. A cada 6 meses, prazo máximo de um contrato emergencial no setor público, nós éramos demitidos e recontratados pela nova empresa.

Isso não era bom para os funcionários, você deve imaginar: como nunca completávamos 1 ano de trabalho na mesma empresa, não tínhamos direito a férias, por exemplo. O projeto de lei que está em discussão no Congresso permite explicitamente essa contratação em série por empresas diferentes mantendo alocação do funcionário na contratante, o que pode ser bom ou ruim dependendo de como você olha pra a questão.

Mas o projeto inova ao colocar explicitamente a contratante como responsável subsidiária pela garantia dos direitos trabalhistas. No meu entendimento, isso significa que o MDS seria obrigado a garantir o direito a férias independente das demissões e recontratações. Ponto pro projeto. Isso inclusive resolveria mais facilmente a treta que virou o Comperj: empresas terceirizadas da Petrobrás faliram e deixaram os trabalhadores sem direitos trabalhistas.

O PL coloca a Petrobrás como responsável por garantí-los e inclusive a reservar um percentual do valor do contrato para isso. Há quem ache que a responsabilidade não deve ser subsidiária, que significa que a contratante é cobrada se a contratada falhar, mas solidária, que significa que responde juntamente. Há uma emenda inclusive para tornar a contratante a responsável primária.

Mas tem uma exceção: a União está isenta da obrigação. Hah, ponto negativo pro projeto. Considerando que muitos dos exemplos que as pessoas deram nas conversas que tive até agora envolviam órgãos ou empresas da União – MDS, Caixa, Petrobrás, TJ-RN – lá está grande parte da vulnerabilidade dos terceirizados e não faz sentido isentá-la. O PSDB propôs e conseguiu aprovar uma emenda que proíbe terceirização de atividade fim em autarquias e empresas públicas e de capital misto, como a Petrobrás. Pode ser uma forma de reduzir esse ponto negativo.

Voltando ao exemplo da empresa de software: nessa área é bastante comum pessoas trabalhando de casa. E nada impede que sejam pessoas de todo canto do mundo. A Collabora, empresa pra que eu presto serviço, por exemplo, tem sede em Cambridge na Inglaterra. Uma das nossas concorrentes (e parceira em muitos projetos!), a Igalia, tem sede em A Coruña, na Espanha.

Ambas as empresas adotam a política de não exigir que as pessoas que contratam se mudem para onde há escritórios. Isso faz com que elas possam contratar os melhores desenvolvedores nas áreas em que a empresa atua independentemente de se estão dispostos a se mudar. Alguém que não queira sair do Brasil, como é meu caso, pode trabalhar de casa tranquilamente.

A legislação que dá suporte pra algo desse tipo de acordo com uma amiga que entende de direito trabalhista é o decreto-lei 691 de 1969, criado com base nos poderes dados ao executivo pelo AI 5. Não está claro para mim que esse modelo poderia ser utilizado por uma empresa como a Collabora, já que o decreto fala em provisoriedade, que não é o caso (mesmo que os contratos tenham termo definido) e que fala também que o serviço deve ser prestado no Brasil. Ainda tenho dúvidas a respeito de se esse tipo de contrato pode ser visto como terceirização da atividade fim.

Se eu estiver errado por favor me corrijam, mas no meu entendimento não é possível criar uma empresa aqui no Brasil que consiga aproveitar com segurança jurídica os melhores desenvolvedores do mundo onde quer que eles estejam. Se for o caso, é só mais um item na imensa lista que torna o Brasil um dos piores lugares pra inovar. Abrir uma startup aqui pra quê? Melhor abrir em San Francisco ou em Londres, onde esse novo modelo de trabalho é possível.

Usando ainda a Collabora como exemplo: nós temos um certo foco em determinadas tecnologias, mas vez ou outra pegamos um projeto grande que tem partes menores em que não somos especialistas. Nesses casos, não faz sentido contratar alguém: não queremos nos especializar naquela tecnologia e não sabemos se teremos uso pra alguém que o seja depois daquele projeto. Se contratássemos alguém, haveria grandes chances de que essa pessoa fosse demitida assim que o projeto acabasse.

A alternativa que usamos é subcontratar. E é subcontratar para nossa atividade fim: desenvolvimento de software. Contratamos uma empresa especialista naquela tecnologia para fornecer desenvolvedores que são integrados temporariamente ao nosso time para desenvolver aquela parte do projeto.

Ao fim do projeto, o desenvolvedor continua empregado, na empresa especialista, bom pra ele, e nós não temos que nos preocupar com ter alguém redundante que precisa ser retreinado ou mandado embora, bom pra nós. Aqui no Brasil não teríamos essa alternativa.

Ter a possibilidade de subcontratar fez com que a Collabora tivesse menos funcionários ou precarizasse a relação de trabalho dos que contrata? Não. Que eu saiba o Reino Unido não degringolou para o caos por causa desse liberalismo nas políticas de contratação e, pelo contrário, é capaz de aproveitar bem melhor as sinergias de um mercado de trabalho complexo e moderno.

Acho que vale a pena olhar para essa questão com menos paixão e preconceito, comparar com o que existe no mundo e ler o que de fato está escrito no projeto e nas emendas propostas. Dica: não tem lá o fim da CLT, muito menos tortura e escravidão como li por aí. Tratando a questão de forma superficial podemos estar perdendo uma oportunidade de melhorar a vida dos trabalhadores que já vivem a terceirização das atividades meio. Talvez mais importante para nosso desejo de ser o país do futuro, a capacidade do Brasil de se modernizar.

Meta de inflação de 3% dá em 15% de desemprego?

Durante as eleições, a presidente Dilma Roussef disse num debate que os candidatos da oposição propunham reduzir a meta de inflação dos atuais 4,5% para 3% e que isso significaria 15% de desemprego. Antes disso, em maio, ela havia dito que uma meta de 3% geraria desemprego “lá pelos 8,5%, 9%, 10%, 11%, 12%. Por aí“.

Ignorando a falta de precisão que indica falta de amparo teórico sólido, de onde ela tirou isso? Suponho que seja da teoria relacionada à chamada curva de Phillips. Quando foi criada, na década de 50, a curva de Phillips representava a realidade empírica do mundo da época: existia uma correlação entre níveis mais altos de inflação e níveis mais baixos de desemprego. Olhando essa realidade, acreditava-se na existência dessa relação inversa.

Mas a teoria foi posta a prova alguns anos depois pelo que veio a ser chamada “estagflação”: desemprego e inflação altos, indicando que não havia uma relação inversa assim tão forte. Diante da nova realidade empírica, a teoria foi revista e incorporou as novas informações. Depois de muito debate, os economistas chegaram à conclusão de que políticas anti-inflacionárias tinham sim relação inversa com taxas de desemprego, mas somente no curto prazo. Diante de políticas restritivas, a inflação cai, o desemprego pode aumentar, mas nada impede que volte a cair em seguida, sem que a inflação volte a crescer.

Nem precisa ir muito longe para confirmar essa visão. Veja o gráfico abaixo que eu produzi com os dados do IPEA para desemprego (dados da PNAD – que tem taxas maiores que as da PME do IBGE em razão da melhor cobertura) e do Banco Central para inflação e taxa de juros durante o governo Lula, por exemplo:

Inflação vs desemprego: dados do IPEA e do BC
Inflação vs desemprego: dados do IPEA e do BC

A SELIC é a taxa básica de juros, um dos instrumentos utilizados pelo Banco Central para controle da inflação. Em 2003 a meta de inflação foi de 8,5%. Durante o primeiro ano de mandato, Lula decidiu com Palocci quais seriam as metas para 2004 e 2005: para 2004 a meta baixou para 5,5%, para 2005 caiu para os atuais 4,5%. Para atingir essa meta é que a taxa de juros foi aumentada de 2004 para 2005 como pode ser visto no gráfico e dá pra perceber que o governo teve bastante sucesso em reduzir a inflação medida, sem que crescimento equivalente e persistente da taxa de desemprego acompanhassem, muito menos nos níveis absurdos sugeridos por Dilma.

Se Lula conseguiu baixar em 4 pontos percentuais a meta de inflação sem produzir desemprego, por que será que Dilma acha que reduzir 1,5 pontos causaria uma explosão dos níveis de desemprego? Não tenho explicação racional. Será que Dilma não acompanhou a evolução do conhecimento econômico? Não acompanhou as medidas e os resultados do governo de que participava? Não conhece os níveis de inflação e emprego de vizinhos nossos como o Chile, ou dos EUA, que já está com nível de emprego recuperado depois da crise, com inflação baixa? Ou a China, que tem inflação próxima de 2%, com desemprego de 4%?

Acho que ela sabe disso tudo, sim. A defesa feita por Dilma me parece uma tentativa de usar a retórica para defender suas políticas sem escancarar o que acredita de fato. Ela acredita ser essencial para o crescimento do país que o governo continue gastando, que se continue colocando bilhões no mercado através de empréstimos via BNDES e desonerações fiscais para setores que o governo ache que precisam, mesmo que isso custe inflação maior

Mais do que isso: Dilma acredita que um pouco de inflação faz bem ao crescimento, mesmo que os estudos disponíveis sobre o assunto mostrem que só há relação estatisticamente significativa entre crescimento e inflação nos casos de inflações acima de 20%. Ou seja, não há indicação nenhuma de que deixar a inflação subir de 4,5% para 6,5%, como fez o governo, ajude com crescimento. Isso só faz atrapalhar a vida das pessoas, especialmente as mais pobres, que são mais afetadas por aumentos de preços. Até porque, o Bolsa Família, de que os extremamente pobres dependem, teve perda real de valor por ter ficado 3 anos sem reajuste e ser reajustado em somente 10%, quando a inflação acumulada no período foi de 19,6%.

Voltando às desonerações e desemprego, dizem Dilma e Mercadante que essas políticas foram as responsáveis por manter o nível de emprego até agora. Será? Existem números demonstrando que os setores que receberam desonerações demitiram menos? O que eu sei é que o setor automobilístico está demitindo, apesar de ter sido beneficiário das desonerações. Mas ainda que fosse o caso e as medidas estivessem salvando postos de trabalho, gostaria de propor a seguinte reflexão: só até setembro de 2014, a política de desonerações gastou 76 bilhões (que agora o governo quer mudar a lei pra poder abater da meta de superávit!) e atingiu apenas alguns poucos setores escolhidos a dedo pelo governo. Por que esses postos de trabalho merecem ser salvos em detrimento dos outros?

É possível que o setor não fosse demitir sem as desonerações ou que tenha demitido mesmo as tendo recebido. Qualquer que seja o caso, o que foi feito com o dinheiro que foi economizado, já que não foi reinvestido no país, como mostra a queda do nível de investimento de 18% do PIB para 16,5% do PIB no governo Dilma? Colocaram no banco pra render? Tiraram como lucro? Existe alguma avaliação dessa política que demonstre o real benefício social? Quantos empregos foram salvos? Qual nível de renda ajudou a garantir? E por que os outros setores que não foram beneficiados não demitiram em maior número? É muito dinheiro pra gastar sem avaliar, não acha?

É sabido que os preços de carros no Brasil são muito maiores do que poderiam ser, algo que fica evidente ao ver que carros produzidos aqui e exportados para Argentina e México são mais baratos lá, mesmo com a necessidade adicional de logística! O país é um paraíso para essas empresas montadoras de carros: qualquer risco de redução de compras leva o governo a dar uma ajudinha, vai reduzir preço pra quê? Há um risco grande de que essa política esteja na verdade protegendo lucros dos empresários ao invés de proteger empregos de trabalhadores, principalmente diante da realidade de que há demissões no setor.

Vamos pensar num caso alternativo: os trabalhadores são demitidos. Nesse caso, eles poderiam receber o seguro desemprego, que nesse ano vai custar 35 bilhões. Só com as desonerações feitas para setores específicos da indústria até setembro daria para triplicar o seguro desemprego, atendendo mais pessoas ou aumentando os vencimentos dos beneficiários. Como ainda tem outubro a dezembro faltando na conta das desonerações, é possível que esse valor ainda cresça de forma significativa, talvez dê até pra quadruplicar o seguro desemprego. O dinheiro iria diretamente para os trabalhadores, não incorrendo no risco de fazer distribuição de renda às avessas.

Infelizmente, acho que a realidade está prestes a mostrar para Dilma, Mercadante e seus eleitores que as políticas deles é que acabam sendo recessivas e que se há algum número macroeconômico altamente correlacionado com nível de emprego, principalmente num país com crescimento populacional significativo como o nosso, é o do crescimento do PIB. Já tivemos o pior mês para o emprego desde 1999, com 30 mil demissões a mais que contratações. Se o nível de emprego ceder, talvez percebam que as desonerações amiúde não ajudam.

O baixo nível de desemprego é o último bastião de defesa do governo Dilma, mas se a política econômica não sofrer mudança de rumo, e nada indica que vá, não acho que vai durar muito. E não, não vai ter nada a ver com meta de inflação baixa.