“Com Aécio seria pior”

Alguns defensores do governo e do partido do governo, ao se depararem com críticas ao segundo mandato da presidente Dilma costumam contra-argumentar com “Com Aécio seria pior”.

Eu acho que seria muito melhor e explico: em primeiro lugar, teríamos um presidente competente em política, que não estaria cometendo gafes bizarras a cada dia de mandato, como Dilma. A inabilidade política do atual governo é tamanha que conseguiu causar a inversão da relação de forças entre executivo e legislativo, que historicamente pende para o lado do executivo. Inauguramos em Dilma 2 um Parlamentarismo à brasileira.

Segundo, Aécio teria crebilidade. Dilma passou a campanha inteira negando que houvesse problemas, negando que faria tarifaço (que agora chamam de realismo tarifário), negando que aumentaria juros, negando que faria ajuste fiscal. Aécio, ao contrário, passou a campanha inteira chamando atenção aos desequilíbrios da economia e à necessidade de fazer um ajuste fiscal sério para proteger os programas sociais. E Marina também, diga-se.

Em terceiro lugar, Aécio teria um time inteiro comprometido com essa melhoria da gestão e da economia. Nós sabíamos que o Ministro da Fazenda seria Armínio Fraga, que foi professor de Joaquim Levy. Mansueto Almeida, grande conhecedor das contas públicas, provavelmente faria parte da equipe também. Não teríamos Luciano Coutinho tentando esconder os dados das operações financeiras no BNDES, que seria saneado. E assim seria em outros Ministérios importantes, como o do Planejamento. Dilma, ao contrário, tem uma colcha de retalhos com uma ilha de sanidade: Joaquim Levy.

Mas em uma coisa eu concordo com esses defensores do governo: mesmo que Aécio tivesse entrado, nós não escaparíamos desse 2015 difícil que já estamos vivendo, com tarifaço, inflação e juros altos e possivelmente de um 2016 bem fraco, com tudo que vem junto: desemprego, precarização de serviços públicos, queda no investimento. A grande diferença seria a velocidade com que venceríamos essas dificuldades e a qualidade do esforço feito.

Na verdade, do ponto de vista do debate político acho que foi até uma coisa boa Dilma ter ganhado. É bom que seja ela a lidar com os problemas que criou. Até consigo imaginar esses defensores incondicionais dos governos petistas a plenos pumões colocando a culpa no novo presidente por todas as mazelas. Como estão fazendo no DF, destruído pelo petista Agnelo Queiroz, diga-se de passagem.

Mas a verdade é que tudo isso é consequência do primeiro mandato de Dilma. De fato não adiantava ter evitado sua reeleição. Se nós que fizemos campanha contra tivéssemos conseguido, teríamos uma recuperação bem menos dolorida e muito mais rápida, não tenho dúvidas. Mas para evitar que uma recuperação fosse necessária o único jeito era não tê-la eleito em 2010.

E dava pra perceber que isso seria uma boa ideia, bastava prestar atenção no que fazia a Ministra-chefe da Casa Civil Dilma Roussef, no segundo governo Lula. E eu, depois de votar duas vezes em Lula, votei nulo em 2010, porque prestei bastante atenção e não gostei do que vi.

Foi com o aumento da preponderância de Dilma no governo Lula que começou a famigerada política de dar dinheiro público para grandes empresas nacionais via BNDES, com a intenção de formar campeões nacionais que pudessem competir lá fora. A Oi, a JBS e as empreiteiras agradecem. Digo dar porque os empréstimos são subsidiados, ou seja, com juros abaixo do valor de mercado. E a diferença quem paga somos nós, os brasileiros que pagam impostos.

Além disso o BNDES fez bilhões e bilhões em empréstimos subsidiados para aventureiros, como Eike Batista, cujos projetos deram errado e agora não têm como devolver o que receberam emprestado. Um banco que era pra ser “Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social” investindo em negócios de um empresário amigo, sem nenhum retorno social e de altíssimo risco.

E para fazer esses empréstimos, o BNDES pegou recursos emprestados do Tesouro Nacional, que emitiu dívida para bancá-los. Ou seja, aumentamos a dívida que todos os brasileiros pagam às maiores taxas de juros do mundo para emprestar a taxas menores que as de mercado a empresários amigos.

Para piorar a situação, o BNDES se recusa a abrir os detalhes de empréstimos feitos. O presidente do banco, Luciano Coutinho, está inclusive levando multas do TCU por se recusar a dar transparência aos contratos. A Câmara acaba de aprovar emenda do PSDB a uma medida provisória que obriga o BNDES a publicar esses dados. Vamos ver se passa no Senado e se Dilma assina.

Durante os anos 2000 tivemos uma oportunidade única nas nossas mãos. Os ventos internacionais sopravam nos empurrando e chegamos a conseguir fazer superávits bastante acima da meta. Foi um momento em que poderíamos ter reduzido nossa meta de inflação e em decorrência disso as taxas de juros, no médio prazo.

Poderíamos ter feito reformas tributárias que fizessem que os pobres deixassem de ser os que sustentam o Estado, tornando nossa carga tributária progressiva. Com a economia em crescimento sem a necessidade de muita ajuda estatal, poderíamos ter feito um ajuste fiscal de longo prazo, que nos colocasse em outro patamar de poupança doméstica e investimento público, mais compatíveis com os de um país em desenvolvimento.

E veja, foi exatamente isso que os Ministros Palocci e Paulo Bernardo pensaram! Começaram a pensar sobre um ajuste com horizonte de 5 anos. O que fez Dilma? Garantiu que o debate nascesse morto: desautorizou os Ministros e disse que plano de longo prazo não cabe. Disse Dilma (para ver a página ampliada basta criar uma conta, não é necessário assinar):

Esse debate é absolutamente desqualificado, não há autorização do governo para que ele ocorra

Fazer um exercício dentro do meu gabinete e achar que ele será compatível com o nosso país não é consistente. Quando você fala em dez anos,  Tem de “combinar com os russos”, que são as 180 milhões de pessoas que vivem no Brasil

Veja bem: tem que “combinar com os russos”, é claro, é óbvio, é ululante. Mas para combinar com os brasileiros tem que antes ter uma proposta pra apresentar. E Dilma já detonou a proposta incipiente antes que ela ganhasse forma. O jeito de pensar da futura presidente está todo aí nessa entrevista: pensar longo prazo é besteira, ajuste fiscal não se debate, o negócio é gastar e, acima de tudo, se quer fazer alguma coisa tem que ter autorização da comandate Dilma. Não viu quem não prestou atenção.

Se a proposta do ajuste fiscal de longo prazo planejado e em tempos de bonança tivesse prosperado, talvez nós não fôssemos hoje forçados a fazer um ajuste recessivo.

A recessão econômica que começa a apontar em Dilma 2 seria inevitável qualquer que fosse o eleito em 2014, isso não se discute. Dava pra eleger alguém que nos tirasse dela mais rápido, o que infelizmente não fizemos. Para evitar que a recessão viesse, só se o Brasil tivesse prestado mais atenção em quem estava elegendo para presidente em 2010. Fica pra próxima.

Tudo o que disser pode e será usado contra seu argumento

Pode até não parecer pra quem me acompanha só recentemente, mas eu costumo ser bem compreensivo com presidentes do Brasil. Presidentes têm que lutar diariamente com um Congresso acostumado ao patrimonialismo, cheio de coronéis clientelistas sem os quais não se governa.

Dá pra discutir no detalhe cada aliança e o custo/benefício das concessões feitas, mas não tem nada de errado em fazer alianças: o povo colocou lá os parlamentares e o presidente tem que fazer o possível para criar uma coalizão que permita avançar na agenda nacional. Um presidente habilidoso consegue mais por menos. Foi assim com FHC e foi assim com Lula.

As razões que me levam a ter muito menos paciência com o governo Dilma estão listados nos vários textos desse blog. Seu completo amadorismo na articulação política tem garantido que o Congresso ruim cobre um preço muito mais caro do que devia. Mas o assunto desse post é outro: o ajuste fiscal do governo Dilma.

Ajuste fiscal não é novidade no país. Durante o governo FHC, ajuste fiscal foi um dos passos mais importantes para garantir o sucesso do plano Real e da estabilização. Além do aperto orçamentário, o Brasil sofria naquela época de uma série de problemas estruturais e conjunturais que abalavam nossa economia.

Pra começar, tínhamos acabado de sair de um período em que a inflação anual era de mil porcento ao ano, em que o orçamento era uma peça de ficção, em que os estados podiam na prática emitir dinheiro! E de um governo que confiscou a poupança dos brasileiros. E quem acha que isso se resolveu em 1994, 1995 se engana muito. A desvalorização cambial de 1999 que teve forte impacto na nossa economia, por exemplo, a Lei de Responsabilidade Fiscal, criada no segundo mandato, e muitas outras reformas estruturais foram também passos essenciais da estabilização.

O Congresso por onde essas medidas tinham que passar não era manso, claro: basta dizer que Antônio Carlos Magalhães era um dos aliados pero no mucho da época e gostava de fazer uma cena. Pra completar, a década ainda foi salpicada de crises internacionais: dos tigres asiáticos, da Rússia, do México e por aí vai.

Tudo isso fez com que o governo FHC acontecesse num período muito difícil. Eu gosto de brincar que ele pegou o país no modo hard. Foi necessário que gastos fossem priorizados (o que significa que alguns tinham que diminuir ou acabar) e impostos fossem aumentados para financiar gastos essenciais, vide criação da CPMF para financiar o SUS, por exemplo.

Seus adversários políticos gostam de culpá-lo por todos os problemas, como se ele fizesse por querer, por mal. Que ele errou em muitas coisas não há dúvidas, ele mesmo reconhece alguns erros, que poderia ter consertado o câmbio em 1997, por exemplo, que foi ruim esperar tanto e ser obrigado a fazer de supetão. Mas fazer por querer o mal do povo?

Lula também fez um ajuste fiscal em 2003, conduzido inclusive com a ajuda de Joaquim Levy que é hoje Ministro da Fazenda. Na época, ele havia sido herdado do governo FHC e mantido como secretário do Tesouro Nacional. Ganhou nessa época o apelido de Levy mãos de tesoura.

O ajuste de Lula foi um ajuste sério também, mas ele tinha pegado o país no modo normal: os grandes problemas da instabilidade econômica já tinham sido resolvidos, a agenda de reformas tinha avançado tanto que não havia mais água batendo na bunda, o que infelizmente permitiu que a agenda não avançasse, também, mas isso é assunto pra outro post. O ponto principal é que o ajuste não precisou ser duro porque a situação estava boa.

Com alguns anos de mandato, Lula tirou a sorte grande: o aumento do preço das commodities fez com que o Brasil ganhasse fortes e bons ventos internacionais, que impulsionaram a economia. A descoberta do pré-sal fez com que as possibilidades ficassem ainda maiores.

Em alguns anos, o governo teve problema até mesmo pra gastar tudo o que podia, acabou fazendo mais superávit primário do que precisava! Tem gente que gosta de comparar os governos Lula e FHC, mas se esquece dessa enorme diferença de conjuntura que torna qualquer comparação meio injusta.

Mas os ventos internacionais começaram a ralear ao final do governo Lula e uma crise internacional fez com que a economia global diminuísse seu ritmo abruptamente. O governo tomou medidas importantes que impediram que o pior da crise chegasse aqui e entregou até mesmo um crescimento surpreendente em 2010.

Foi nesse clima que Dilma assumiu seu primeiro mandato. Assim como Lula, Dilma pegou o país no modo normal. Apesar das maquiagens na contabilidade, ainda não havia problemas com aumento de dívida, os fundamentos ainda estavam sólidos e se já não havia ventos internacionais soprando, não havia também problemas graves nem fora nem dentro do país. Basta ver os documentos da época para ver que havia imenso otimismo dentro do governo, que previa crescimento médio de 5,5% ao ano para o primeiro mandato.

Mas depois de quatro anos de erros que não reconhece, Dilma acabou deixando o país numa situação bastante ruim que já exige um esforço fiscal sério. Colocou o país no modo hard. Não há crises internacionais no momento: os Estados Unidos já se recuperaram e já têm desemprego menor que o nosso, assim como o Reino Unido, Alemanha e muitos dos nossos vizinhos. Mas suas próprias medidas criaram um caminhão de problemas domésticos que precisam ser resolvidos.

Resultado: Dilma agora se vê obrigada a lidar com uma situação bem mais comparável com o que foi o governo FHC. Se vê obrigada a fazer um ajuste fiscal de gente grande, que já está tendo efeitos significativos nos orçamentos do setor público, incluindo aí as universidades federais programas ligados à educação, como PRONATEC e FIES.

Os efeitos também já começam a atingir o setor privado: pessoas perdem seus empregos (2015 teve o pior fevereiro desde 1999), vendas, intenção de consumo, confiança do consumidor estão em queda… Tudo indica que nosso PIB encolheu nos dois primeiros meses de 2015 e nós estamos só começando. A inflaçao em alta, resultado das barbeiragens do governo com a conta de luz e os preços de combustíveis que foram segurados por anos em níveis irreais também não ajuda.

Dilma agora vai se ver em situaçao parecida à em que FHC se viu: tendo que defender medidas difíceis, impopulares, que vão cobrar seu preço do país. Vai aumentar impostos, cortar gastos públicos. Ideal seria uma reforma tributária que tornasse a carga tributária mais progressiva – ou seja, que os ricos pagassem mais pelo governo que os mais pobres, ao contrário do que é hoje, sem dúvida.

Mas esse é o tipo de coisa que é muito mais fácil fazer em períodos de bonança e alta popularidade. E infelizmente o período de bonança e alta popularidade que foi de 2003 a 2008 foi desperdiçado, não se avançou (o que também merece outro post). Esperar que Dilma consiga passar uma legislação complexa como essa num momento de crise e com o Congresso rebelde é querer demais.

Podemos e devemos lutar pelo ideal, pode ser até que se consiga algum meio termo. Mas exigir isso de Dilma ou colocar só nela a culpa por não chegar lá, nesse momento, seria injusto. Mesmo que ela torne a coordenação política menos amadora, será difícil.

E sim, não vai dar pra dizer que Dilma faz tudo por mal. Assim como FHC, Dilma quer o melhor para o Brasil, não tenho dúvidas. Daqueles que ainda tem coragem de defender o governo virão várias justificativas perfeitamente razoáveis para as medidas – e é bem provável que eu concorde com muitas. Só lembro o seguinte: tudo que você disser para justificar o que Dilma está fazendo pode e será usado contra seus argumentos a respeito de FHC.

Ninguém pode negar

Há pouco mais de 10 anos eu estava começando num trabalho novo como coordenador de tecnologia. Havia diversos problemas com os serviços de TI que a equipe de então lutava constantemente para resolver. Um dos maiores era um servidor de arquivos, o computador que guardava os arquivos compartilhados por todos os funcionários.

As pessoas viviam reclamando que o acesso era lento, que caía com frequëncia e por aí vai. Perguntei à equipe qual era o problema e me disseram que já tinham colocado 3 placas de rede adicionais no servidor e que tinha mais uma já a caminho, para reforçar a comunicação do servidor com o restante da rede.

O administrador que eu tinha trazido comigo e eu achamos estranho. Ao invés de falar do problema e do diagnóstico falaram da solução. Questionamos: mas vocês tem certeza que o problema é comunicação do servidor com a rede? Cara de interrogação.

Depois de fazermos uma análise do desempenho do servidor descobrimos que o problema da lentidão era o tempo de acesso ao disco que estava muito ruim. Não havia nenhum problema na comunicação com a rede: o servidor não usava sequer 30% da capacidade de uma única placa de rede.

A equipe que estava tentando resolver o problema achava que tinha feito tudo o que podia. O único problema é que tinham errado no diagnóstico e estavam tratando o problema errado. Colocar placas de rede adicionais até pode ser solução pra alguns casos, mas pra esse não ajudava em absolutamente nada. E a equipe não sabia porque sequer tinha informações…

Sempre lembro dessa situação quando vejo Dilma falar de economia. “Fizemos desonerações”, diz ela, como se fosse óbvio que esse é o remédio adequado. Se erraram, diz ela, foi na dosagem das medidas. Como se houvesse uma dose maior ou menor de veneno que faça bem.

“Ninguém pode negar que nós fizemos de tudo para a economia reagir”, disse a presidente hoje. Dá a entender que não havia políticas alternativas que pudessem ser aplicadas com maior sucesso que as que escolheu. Até parece que não houve um coro de economistas chamando atenção para o diagnóstico errado.

Não importa que nada tenha funcionado. Não importa que o investimento tenha caído. Não importa que o mercado de trabalho tenha desacelerado. Não importa que o próprio Ministro da Fazenda da presidenta tenha reconhecido que as desonerações foram uma política cara e ineficiente.

Não importa que isso tenha causado um rombo nas contas públicas que agora nos força a um forte ajuste fiscal. Não importa que na sanha de ajudar indústrias escolhidas a dedo se tenha jogado o setor energético na lama e que a inflação tenha ficado colada no teto da meta, mesmo com preços controlados represados.

Nada disso importa. Dilma não reconhece que errou no diagnóstico e nos remédios. Dilma é infalível e fez tudo o que podia. Se a economia não respondeu, a culpa não é dela.

Levy: o Armínio possível

O Ministro da Casa Civil, Mercadante, defendeu ao fechar das cortinas do governo Lula sua tese de doutorado na UNICAMP. Com uma banca de aliados do governo petista, como Delfim Netto e Luiz Carlos Bresser Pereira, recebeu muitas críticas a respeito da essência da sua proposta, mas teve a tese aprovada assim mesmo. E a proposta era a de que o governo FHC tinha sido um governo neoliberal que havia sido superado por um novo modelo de desenvolvimento com Lula.

Essa narrativa sem respaldo na realidade não foi criada a toa. Mercadante, assim como Dilma, é defensor da escola desenvolvimentista que passou a comer pelas beiradas a política econômica com a ascensão de Dilma e Guido Mantega no segundo governo Lula, depois da queda das principais lideranças do governo no escândalo do mensalão.

O desenvolvimentismo começou a se fazer perceber no governo através do agigantamento do BNDES e da concessão de empréstimos gordos e baratos a grandes empresários escolhidos a dedo e sem critério claro, mas só se tornou central na política econômica com a eleição de Dilma. Foi aí que veio a Nova Matriz Econômica e o plano Brasil Maior que pretendiam ampliar e coordenar os investimentos, dando a setores específicos da economia benefícios fiscais, além da canetada que desorganizou o sistema energético do país.

A política econômica do governo Lula, especialmente do primeiro mandato, foi trazida do segundo mandato do governo FHC e aprofundada. Palocci, que foi escolhido Ministro da Fazenda, não só recebeu de bom grado sugestões de Armínio Fraga, como conta em seu livro De formigas e cigarras, como manteve no Ministério e em outros postos chave da política econômica vários quadros herdados do governo FHC, como o próprio Joaquim Levy. Levy ficou responsável na época por cuidar do Tesouro Nacional e ajudar nos cortes necessários para fazer um superávit primário forte. Foi com os cortes implementados que ganhou o apelido de “mãos de tesoura”.

Reconhecer que houve uma manutenção e aprofundamento das políticas adotadas por Pedro Malan e Armínio Fraga não serve às campanhas eleitorais petistas que querem criar a ideia de que são eles os únicos que se preocupam com os pobres. Aqueles quem propõe o mesmo que Lula prometeu em 2002, defendem, querem é desemprego e arrocho salarial, governarão para os bancos e para a bolsa de valores.

Não dá pra acusar de serem contra a população políticas que foram a base do bem sucedido primeiro mandato de Lula. Fica difícil criar a falsa dicotomia entre investimento em políticas sociais e de distribuição de renda com esse exemplo tão significativo. Daí a criação dessa narrativa, que estica a experiência desenvolvimentista para chegar a 2003, negando a realidade.

Acontece que a experiência desenvolvimentista, que só começou de forma plena a partir de 2011, deu no que deu: uma falha estrondosa, sem conseguir alcançar qualquer das metas do plano Brasil Maior, com redução da queda da desigualdade e da miséria, com as desonerações fiscais levando a um desequilíbrio fiscal preocupante. Tudo isso levou o governo a dar um exemplo de dupli-pensar de dar inveja a George Orwell.

Ao mesmo tempo em que negava haver problemas na política adotada e demonizava fortemente as propostas econômicas dos candidatos de oposição, criando interpretações exageradas e distorcidas, fica claro agora que Dilma já reconhecia a falha e planejava a mudança para adotar exatamente essas propostas. Ou no mínimo que Lula e o PT reconhecem e dobraram Dilma.

Agora, com a escolha de um Ministro da Fazenda que é pupilo de Armínio Fraga (tem até um teste na Internet pra tentar decidir a partir de frases quem disse o que, se Fraga ou Levy), que colaborou informalmente com as propostas econômicas da candidatura de Aécio, e que defende a ortodoxia, o governo já está tendo que dizer que na verdade ele se converteu ao desenvolvimentismo. Melhor isso que defender a continuidade dos erros como fazem economistas desenvolvimentistas como Belluzzo, que pelo menos reconhecem que o ministro escolhido está mais alinhado ao que Aécio defendeu na campanha.

Para coroar a hipocrisia do governo, depois de uma campanha de demonização de Marina, tentando colar nela a imagem de candidata dos bancos e do mercado financeiro, escolhem ninguém menos do que o diretor superintendente do Bradesco Asset Management, uma gestora de fundos de investimentos do banco Bradesco, para cuidar da política econômica.

Quem votou Dilma acreditando na campanha deve (ou deveria) estar se sentindo traído. Mas eu estou satisfeito. Os próximos anos serão difíceis, não tenho dúvidas: a quantidade de problemas que o governo acumulou já contratou um caminhão de dificuldades para o ano que vem, incluindo a questão do emprego que já vem mostrando sinais de enfraquecimento.

Mas creio que começamos com o pé direito escolhendo uma equipe que, embora represente um estelionato eleitoral, é séria e tem capacidade e credibilidade para fazer o que é necessário – se tiver autonomia para isso, o que ainda resta saber se terá. Vai ser dolorido, mas seria ainda mais se continuássemos com uma equipe desacreditada seguindo uma agenda responsável por colocar o Brasil de joelhos.

Daqui a 4 anos, se tiver dado errado, vão colocar a culpa no Ministro que não adotou políticas desenvolvimentistas. Se der certo, daqui a 4 anos estaremos ouvindo odes ao desenvolvimentismo, como se não tivéssemos dando meia volta e adotado novamente as políticas de FHC2 e Lula.

Não se engane: Aécio não ganhou a eleição, mas o escolhido para a Fazenda é o Armínio Fraga possível para esse governo.

Meta de inflação de 3% dá em 15% de desemprego?

Durante as eleições, a presidente Dilma Roussef disse num debate que os candidatos da oposição propunham reduzir a meta de inflação dos atuais 4,5% para 3% e que isso significaria 15% de desemprego. Antes disso, em maio, ela havia dito que uma meta de 3% geraria desemprego “lá pelos 8,5%, 9%, 10%, 11%, 12%. Por aí“.

Ignorando a falta de precisão que indica falta de amparo teórico sólido, de onde ela tirou isso? Suponho que seja da teoria relacionada à chamada curva de Phillips. Quando foi criada, na década de 50, a curva de Phillips representava a realidade empírica do mundo da época: existia uma correlação entre níveis mais altos de inflação e níveis mais baixos de desemprego. Olhando essa realidade, acreditava-se na existência dessa relação inversa.

Mas a teoria foi posta a prova alguns anos depois pelo que veio a ser chamada “estagflação”: desemprego e inflação altos, indicando que não havia uma relação inversa assim tão forte. Diante da nova realidade empírica, a teoria foi revista e incorporou as novas informações. Depois de muito debate, os economistas chegaram à conclusão de que políticas anti-inflacionárias tinham sim relação inversa com taxas de desemprego, mas somente no curto prazo. Diante de políticas restritivas, a inflação cai, o desemprego pode aumentar, mas nada impede que volte a cair em seguida, sem que a inflação volte a crescer.

Nem precisa ir muito longe para confirmar essa visão. Veja o gráfico abaixo que eu produzi com os dados do IPEA para desemprego (dados da PNAD – que tem taxas maiores que as da PME do IBGE em razão da melhor cobertura) e do Banco Central para inflação e taxa de juros durante o governo Lula, por exemplo:

Inflação vs desemprego: dados do IPEA e do BC
Inflação vs desemprego: dados do IPEA e do BC

A SELIC é a taxa básica de juros, um dos instrumentos utilizados pelo Banco Central para controle da inflação. Em 2003 a meta de inflação foi de 8,5%. Durante o primeiro ano de mandato, Lula decidiu com Palocci quais seriam as metas para 2004 e 2005: para 2004 a meta baixou para 5,5%, para 2005 caiu para os atuais 4,5%. Para atingir essa meta é que a taxa de juros foi aumentada de 2004 para 2005 como pode ser visto no gráfico e dá pra perceber que o governo teve bastante sucesso em reduzir a inflação medida, sem que crescimento equivalente e persistente da taxa de desemprego acompanhassem, muito menos nos níveis absurdos sugeridos por Dilma.

Se Lula conseguiu baixar em 4 pontos percentuais a meta de inflação sem produzir desemprego, por que será que Dilma acha que reduzir 1,5 pontos causaria uma explosão dos níveis de desemprego? Não tenho explicação racional. Será que Dilma não acompanhou a evolução do conhecimento econômico? Não acompanhou as medidas e os resultados do governo de que participava? Não conhece os níveis de inflação e emprego de vizinhos nossos como o Chile, ou dos EUA, que já está com nível de emprego recuperado depois da crise, com inflação baixa? Ou a China, que tem inflação próxima de 2%, com desemprego de 4%?

Acho que ela sabe disso tudo, sim. A defesa feita por Dilma me parece uma tentativa de usar a retórica para defender suas políticas sem escancarar o que acredita de fato. Ela acredita ser essencial para o crescimento do país que o governo continue gastando, que se continue colocando bilhões no mercado através de empréstimos via BNDES e desonerações fiscais para setores que o governo ache que precisam, mesmo que isso custe inflação maior

Mais do que isso: Dilma acredita que um pouco de inflação faz bem ao crescimento, mesmo que os estudos disponíveis sobre o assunto mostrem que só há relação estatisticamente significativa entre crescimento e inflação nos casos de inflações acima de 20%. Ou seja, não há indicação nenhuma de que deixar a inflação subir de 4,5% para 6,5%, como fez o governo, ajude com crescimento. Isso só faz atrapalhar a vida das pessoas, especialmente as mais pobres, que são mais afetadas por aumentos de preços. Até porque, o Bolsa Família, de que os extremamente pobres dependem, teve perda real de valor por ter ficado 3 anos sem reajuste e ser reajustado em somente 10%, quando a inflação acumulada no período foi de 19,6%.

Voltando às desonerações e desemprego, dizem Dilma e Mercadante que essas políticas foram as responsáveis por manter o nível de emprego até agora. Será? Existem números demonstrando que os setores que receberam desonerações demitiram menos? O que eu sei é que o setor automobilístico está demitindo, apesar de ter sido beneficiário das desonerações. Mas ainda que fosse o caso e as medidas estivessem salvando postos de trabalho, gostaria de propor a seguinte reflexão: só até setembro de 2014, a política de desonerações gastou 76 bilhões (que agora o governo quer mudar a lei pra poder abater da meta de superávit!) e atingiu apenas alguns poucos setores escolhidos a dedo pelo governo. Por que esses postos de trabalho merecem ser salvos em detrimento dos outros?

É possível que o setor não fosse demitir sem as desonerações ou que tenha demitido mesmo as tendo recebido. Qualquer que seja o caso, o que foi feito com o dinheiro que foi economizado, já que não foi reinvestido no país, como mostra a queda do nível de investimento de 18% do PIB para 16,5% do PIB no governo Dilma? Colocaram no banco pra render? Tiraram como lucro? Existe alguma avaliação dessa política que demonstre o real benefício social? Quantos empregos foram salvos? Qual nível de renda ajudou a garantir? E por que os outros setores que não foram beneficiados não demitiram em maior número? É muito dinheiro pra gastar sem avaliar, não acha?

É sabido que os preços de carros no Brasil são muito maiores do que poderiam ser, algo que fica evidente ao ver que carros produzidos aqui e exportados para Argentina e México são mais baratos lá, mesmo com a necessidade adicional de logística! O país é um paraíso para essas empresas montadoras de carros: qualquer risco de redução de compras leva o governo a dar uma ajudinha, vai reduzir preço pra quê? Há um risco grande de que essa política esteja na verdade protegendo lucros dos empresários ao invés de proteger empregos de trabalhadores, principalmente diante da realidade de que há demissões no setor.

Vamos pensar num caso alternativo: os trabalhadores são demitidos. Nesse caso, eles poderiam receber o seguro desemprego, que nesse ano vai custar 35 bilhões. Só com as desonerações feitas para setores específicos da indústria até setembro daria para triplicar o seguro desemprego, atendendo mais pessoas ou aumentando os vencimentos dos beneficiários. Como ainda tem outubro a dezembro faltando na conta das desonerações, é possível que esse valor ainda cresça de forma significativa, talvez dê até pra quadruplicar o seguro desemprego. O dinheiro iria diretamente para os trabalhadores, não incorrendo no risco de fazer distribuição de renda às avessas.

Infelizmente, acho que a realidade está prestes a mostrar para Dilma, Mercadante e seus eleitores que as políticas deles é que acabam sendo recessivas e que se há algum número macroeconômico altamente correlacionado com nível de emprego, principalmente num país com crescimento populacional significativo como o nosso, é o do crescimento do PIB. Já tivemos o pior mês para o emprego desde 1999, com 30 mil demissões a mais que contratações. Se o nível de emprego ceder, talvez percebam que as desonerações amiúde não ajudam.

O baixo nível de desemprego é o último bastião de defesa do governo Dilma, mas se a política econômica não sofrer mudança de rumo, e nada indica que vá, não acho que vai durar muito. E não, não vai ter nada a ver com meta de inflação baixa.

Entendendo o PIB

O PIB é o Produto Interno Bruto. É uma medida de tudo que se produz e se consome no país. As variáveis que são somadas para obter o tamanho do PIB são: consumo privado, consumo do governo, investimento e a diferença entre exportações e importações.

Quando olhamos quanto o tamanho do PIB mudou de um ano por outro, temos que levar em consideração o problema dos números absolutos, de que eu tratei num outro texto. Pensa comigo: se eu compro 10 refrigerantes em 2013 e os mesmos 10 em 2014, o consumo foi o mesmo. Mas em razão da inflação, os refrigerantes podem custar mais caro em 2014 e só isso já vai fazer o cálculo do PIB aumentar, já que é com os preços que se calcula o gasto do consumo. Esses números absolutos, sem nenhum tipo de correção, são chamados de nominais. O PIB sem correção é chamado de PIB nominal e o crescimento de um ano para o outro é chamado de crescimento nominal.

Como resolver o problema dos números absolutos? Para levar em consideração a mudança dos preços, escolhe-se um ano base para o cálculo e se aplica a taxa de inflação entre esse ano e o ano cujo PIB se quer calcular. Por exemplo, podemos pegar o valor do dinheiro de 2009 e calcular quanto de inflação houve de 2009 a 2014, aplicamos essa inflação para reduzir o PIB nominal de 2014 e pronto: temos o chamado PIB real. Quando a gente sabe qual é o PIB real, com base no valor do dinheiro para um determinado ano, podemos calcular quanto de crescimento real do PIB houve entre os anos.

Um outro conceito que ouvimos menos é o de crescimento potencial do PIB. Eu ouvi isso várias vezes na imprensa e achava que se referia a uma previsão feita pelos economistas. Mas não, acontece que esse é um conceito da economia que indica o crescimento saudável. O crescimento potencial é determinado pela quantidade de investimento: muito investimento gera grande capacidade de crescer sem que esse crescimento cause problemas para o país.

Que tipo de problema? O principal efeito de crescer acima do crescimento potencial é geração de inflação. Faz sentido? Se houve crescimento grande sem um nível adequado de crescimento do investimento, isso significa que consumo privado e do governo ficaram com um naco maior do PIB. Crescimento do consumo muito acima do que o investimento preparou o país para ter causa uma pressão da demanda sem que haja contra-partida do lado da oferta, fazendo com que os preços aumentem.

Olhando para a situação atual do Brasil, esse tipo de análise é preocupante: se nós temos crescimento próximo de zero e inflação acima do teto da meta, é provável que nosso crescimento potencial esteja muito baixo, talvez até negativo, indicando que o investimento está insuficiente. E olha só: de fato o investimento caiu de forma significativa nos últimos anos: de 18,9% em 2010 a 16,5% em 2014. Será que o segundo governo Dilma vai conseguir reverter essa tendência?