A brutalidade policial desconhece partidos

Em 2013 eu participei dos protestos de junho. Mais até do que o aumento das passagens, fui protestar contra a violência policial, que tinha sido especialmente brutal em São Paulo. Mas São Paulo infelizmente não foi a única: no Rio de Janeiro a polícia cercou manifestantes que se refugiaram na Quinta da Boa Vista. Chegaram a jogar bombas de gás lacrimogênio lá dentro.

Em Belo Horizonte, em São Paulo, em Salvador, pra todo lado houve protesto e houve violência policial. Até jornalistas foram vítimas: uma repórter da TV Folha levou um tiro de bala de borracha no olho sem estar perto de qualquer vandalismo e sem representar qualquer tipo de ameaça.

Em Porto Alegre, pessoas que tentavam filmar a violência policial acabavam engrossando a estatística das vítimas. No Distrito Federal um policial ficou famoso por justificar violência desnecessária com um singelo “porque eu quis“. Fatos muito parecidos voltaram a acontecer em 2014. Além da violência gratuita, o que relaciona todos esses eventos é o fato de que nada nunca acontece aos policiais que cometem os exageros.

A PM é subordinada aos govenos dos estados. SP e MG eram governadas pelo PSDB, RS e DF pelo PT, o Rio de Janeiro pelo PMDB. Todos os governadores de todos os partidos bancaram as ações de suas polícias, assim como o Governo Federal. Se há alguma coisa que é monopólio de um só partido, a violência policial certamente não é essa coisa.

Orlando Silva sobre violencia policial no Paraná
Orlando Silva sobre violencia policial no Paraná

Mas vemos tentativas constantes de partidarizar essa nossa chaga, como essa aí de cima do antigo Ministro do Esporte, Orlando Silva, do PC do B. Quando a PM do Paraná agiu com violência contra professores que protestavam perto da Assembléia Legislativa, as redes sociais explodiram em denúncias contra o que, segundo os petistas e seus aliados, seria uma característica do PSDB. Mas, ao fazerem isso, nos deram um ótimo exemplo de como a violência é generalizada: usaram fotos de outros eventos como se fossem do Paraná.

Professor do Ceará sofrendo ataque
Professor do Ceará sofrendo ataque

A foto acima, por exemplo, usada em vários posts de petistas e aliados como se fosse do Paraná, é na verade de 2011, no Ceará. Nessa época o estado era governado por Cid Gomes, do PROS, que mais tarde foi escolhido para o Ministério da Educação do segundo mandato de Dilma.

Fotos de professoras feridas
Fotos de professoras feridas

Outra foto muito utilizada foi a dessa professora sangrando. Essa foto era de 2015 mesmo, mas não era do Paraná e sim de Goiânia, onde a guarda municipal foi a responsável pelos ataques. A prefeitura é do PT. Apesar dos fortes e louváveis protestos de petistas e seus aliados contra o acontecido no Paraná, a reação deles ao mesmo problema em Goiânia foi o silêncio.

Hoje eles voltam a protestar fortemente (e corretamente) contra a PM paulista, que pode ter cometido uma chacina em represália à morte de um dos seus. Infelizmente preferiram o silêncio quando houve uma chacina sabidamente cometida pela PM na Bahia e o governador, petista, comparou os policiais a artilheiros na cara do gol.

Também recentemente, a PM mineira reprimiu manifestações contra o segundo aumento de passagem de ônibus em menos de um ano. Eu vi gente que chegou a tentar jogar nas costas do prefeito da cidade a responsabilidade, confundindo a PM com a guarda municipal, talvez. Mas não, foi a PM mesmo. Por que tentar jogar pro prefeito? Porque agora o estado é governado pelo PT, não pelo PSDB.

Partidarizar temas que são problemas nacionais e endêmicos é sempre ruim para o debate público. Mas é um grande desrespeito a todas as vítimas da violência policial, muitas delas fatais, desvirtuar o debate numa tentativa de pixar o adversário político.

Cobrar responsabilidade dos governadores e seus partidos sim, devemos sempre fazer, pressioná-los para que assumam seu papel e segurem as rédeas das polícias. O que não dá pra aceitar é a seletividade na tentativa de associar o problema a um partido.

Basta não fechar os olhos e não ser desonesto pra ver que o problema é bem mais geral e o buraco bem mais embaixo. A violência policial desconhece partidos, é geral, um problema do Brasil todo e para o Brasil todo resolver.

Democratização das comunicações

É bastante comum ver defensores do governo defenderem a democratização ou a regulação das comunicações. Sou favorável a ambos (mais sobre adiante). As razões para essa defesa feita pelos governistas, no entanto, não me parecem ser sempre as melhores.

Devem-se essencialmente a acreditar que a chamada grande imprensa é enviesada contra o governo e promove um pessimismo exagerado. Serei o primeiro a concordar que a imprensa é, em geral, péssima. O que não falta é notícia superficial, com manchetes exageradas ou falsas, com informações erradas e foco enviesado. Também conheço números que indicam que de fato a grande imprensa tem mais má vontade com os governos petistas.

Mas perguntaria: será que a grande imprensa tem todo esse poder que parecem querer atribuir a ela? Tomando como verdadeira a premissa de que a imprensa tem algum tipo de viés contra os governos petistas, como é possível ela ser assim tão poderosa e influente quando nós estamos vivendo o quarto governo federal petista seguido?

Além dos resultados eleitorais, podemos olhar dados como a aprovação da presidente e confiança das pessoas na economia. Vejamos o índice de confiança do consumidor, medido pela FGV, por exemlo:

Mostra a confiança do consumidor caindo aos poucos desde 2011 e de forma aguda em 2015
Índice de confiança do consumidor. Fonte: FGV

Dá pra ver pelo gráfico que a confiança dos consumidores vinha caindo desde 2012, mas cresceu bastante em 2009 depois do pior momento da crise mundial e ficou bastante alta por um tempo. A imprensa é que mudou seu viés ou foi a situação que foi piorando mesmo?

E que dizer do mergulho a partir de novembro, logo depois da eleição? Foi a imprensa que finalmente convenceu ou foi a população percebendo que havia sido enganada pela campanha da presidente, que começou a fazer o que acusou os outros de querer fazer já na semana seguinte à eleição?

A conclusão que tiro olhando esses dados, além dos dados de aprovação da presidente, é que mesmo que a imprensa seja enviesada contra os governos petistas, não tem tanta influência quanto parecem pensar os governistas. E algumas das soluções que apareceram do lado governista não são muito melhores.

Portais como Brasil 247 não deixam nada a dever a revistas como Veja em termos de servirem como panfletos do seu grupo político preferido. Sites de ex-jornalistas como Paulo Henrique Amorim poderiam ser facilmente confundidos com sátiras como o Sensacionalista. Mas pior de todos é um tal Portal Metrópole, que ganhou certa visibilidade durante as eleições.

O Portal Metrópole divulgou durante a campanha um texto de um economista alemão chamado Kurt Neuer que não conseguia entender Dilma ter chance de perder. Como postaram isso pra me mostrar que a imprensa brasileira era pessimista demais fui atrás de descobrir quem era o tal Kurt e por que eu deveria escutar o que ele tem a dizer.

Não achei um economista com esse nome que tivesse qualquer vulto. Pelo contrário, acabei achando Kurt Neuer, e o texto traduzido pelo Portal, num comentário no portal noticioso alemão Spiegel. Aliás, um não, três, iguais. E a conta parece ter sido criada só pra isso, repare:

Comentários do Kurt Neuer
Comentários do Kurt Neuer

Fico até pensando se não foi o próprio portal metrópole quem criou esse comentário para traduzir e postar a tradução. O que isso nos mostra? Que temos que ser sempre cuidadosos com as informações que obtemos. Não dá pra sair acreditando em tudo só porque concorda com o que a gente pensa.

Mas enfim, acho essa aí uma péssima razão para pensar em regulação da mídia. Por quê? Porque está associada ao conteúdo, ao que é postado. Se partir pra esse lado, não demora e vamos ter algum tipo de censura. Sou totalmente a favor de responsabilizar e punir quem publica informações erradas – pra isso existe a justiça.

A lei poderia melhorar para garantir que a punição sirva como incentivo para evitar publicação temerária, sem dúvidas, mas discordarei também sem dúvidas de qualquer tentativa de criar punição sem devido processo. Que tipo de regulação eu toparia facilmente? Regulação econômica: tentar evitar uma monopolização dos meios de comunicação por exemplo é um objetivo muito bom.

Mas acho que outra expressão que se ouve muito de governistas é até mais importante: democratização das comunicações. Como se faz democratização das comunicações? Uma das formas mais simples, eu acho, é facilitando o acesso das comunidades a concessões de rádios comunitárias.

E é quando eu lembro disso que eu questiono se dão mesmo importância à democratização ou se é só outro jeito de falar ‘queremos dinheiro para os nossos blogs’. Por quê? Porque há 12 anos no poder, nenhuma palha foi movida para tornar o processo de regularização de rádios comunitárias menos kafkiano. Não é algo que sequer depende de apoio congressual para acontecer. E nem dá pra dizer que é porque o Ministério está na mão de um aliado de conveniência, já que o Ministro é do partido do governo há vários anos.

Outra, para mim mais desejável ainda, é aumentando a inclusão digital. A Internet independe de concessões, de outorgas. É possível entrar e produzir, compartilhar, ver o que quiser, inclusive porcarias como o Portal Metrópole.

A boa notícia é que há muitas novidades para além das porcarias, também: jornalistas interessados no futuro do jornalismo de verdade tem aproveitado essas novas possibilidade trazidas pela tecnologia para lançarem portais de jornalismo independentes. Indo além das manchetes chamativas, pretendem fazer um jornalismo aprofundado, detalhado, expremendo o que houver de sumo e informação nas matérias.

A primeira que sempre me vem à mente é a Agência Pública, que usa financiamento coletivo como uma das formas de financiar seu trabalho, dando aos financiadores o poder de influenciar nas pautas. A Pública já fez matérias sensacionais sobre prisões privatizadas, a situação de Belo Monte, sobre a JBS e sua Friboi, sobre questões indígenas e assim vai.

Oene fica bem longe das manchetes sensacionalistas seguidas de merrecas de informação quase seca. Já fez séries de matérias longas e ponderadas sobre a evolução do trabalho, os rolezinhos, terceirização. As matérias são de graça, o Oene deixa para o leitor a decisão de fazer ou não uma assinatura para doar de 5 a 20 reais por mês.

O recém-lançado BRIO tem uma proposta diferente, servindo como se fosse uma “app store” de notícias, em que jornalistas podem publicar e vender reportagens individuais num formato ‘a la carte’ – várias das reportagens estão abertas para o lançamento.

Isso sem contar várias outras iniciativas que me levam a acreditar que acesso a Internet pode ser um ótimo caminho para a democratização da mídia e para o aumento da diversidade de informação. Mas esse é outro objetivo que não passa perto dos objetivos do governo. Tudo que foi anunciado, como o Plano Nacional de Banda Larga, é mal implementado ou fica no anúncio.

Inclusive, fica também no anúncio a ideia de propor qualquer tipo de regulação ou democratização. Quando a militância dá sinais de que vai debandar, a ideia de regulação sempre volta: foi assim em 2010, por exemplo, quando em tese foi feita uma proposta de lei.

A coisa já começou estranha porque quem ficou responsável pela proposta à época foi Franklin Martins, que era o chefe da propaganda da presidência, não o Ministério das Comunicações. Mas no final das contas ninguém sequer viu a proposta, que ficou engavetada.

Eleita, Dilma disse que não topava esse tipo de proposta, que preferia o barulho da democracia ao silêncio da ditadura. Palmas pra ela, concordo plenamente. Mas bastou ter risco de não ser reeleita e lá foram os governistas prometer o quê?

Exatamente: regulação da mídia, que em teoria seria priorizada pelo novo Ministro das Comunicações. De lá pra cá já esqueceram de novo. É a bandeira que acenam toda vez que os militantes começam a ficar raivosos, pra guardar de novo assim que não precisam mais deles.

Como se vê, acho que tem muito espaço para um debate e para melhorias tanto na legislação quanto nas prioridades do governo que não dependem delas. Mas é importante tomar cuidado com ideias que beirem a censura e ainda mais importante enxergar o problema em toda sua amplitude ao invés de focar meramente nos conflitos entre imprensa e governo.

A esperança venceu o medo…

Em 2002 eu tinha 19 anos e votei pela primeira vez. Assim como milhões de brasileiros eu achava que havia chegado a hora de dar uma chance ao Lula e ao PT. As ideias mais heterodoxas, de suspender o pagamento da dívida externa e o posicionamento contrário ao Plano Real e outras políticas econômicas adotadas nos anos FHC haviam sido superadas pela Carta ao Povo Brasileiro e pelo apoio dado pelo então candidato Lula aos termos do último acordo feito com o FMI. Essas iniciativas me convenceram de que candidato e partido tinham criado juízo.

Tudo bem que Lula nunca tinha exercido cargo majoritário e não se sabia ainda quem ocuparia postos importantes na economia: era uma aposta. E havia muita gente que não estava convencida, ou que queria deixar as pessoas em dúvida. A campanha de José Serra deu ótimo exemplo do que se chama de tragicômico levando ao horário eleitoral gratuito a atriz Regina Duarte para dizer que sentia medo de Lula e do PT.

Com Lula eleito, cunhou-se a frase que eternizaria a tragicomicidade da campanha serrista: a esperança venceu o medo. E havia, de fato, esperança de que muita coisa seria diferente daí em diante. A aposta a respeito da condução econômica foi acertada: Lula não só abraçou a responsabilidade e o combate à inflação na condução da economia, inaugurada nos anos FHC, como aprofundou ainda mais sua aplicação.

Antônio Palocci, Ministro da Fazenda dos primeiros anos Lula descreve em seu livro várias situações em que Lula demonstrou claramente ter consciência da importância de abraçar essas causas com empenho. Conta também que Lula, após se reunir pela segunda vez com Armínio Fraga disse:

- Às vezes, a gente constrói um enorme preconceito em relação a uma pessoa simplesmente por não conhecê-la (Lula, citado por Palocci em seu livro “Sobre formigas e cigarras”, 2007, Editora Objetiva , p. 67)

Em seu livro Palocci relata também que a montagem da equipe econômica sofreu forte influência de um texto indicado por Armínio Fraga. A Agenda Perdida, título do capítulo 4 do livro, é também o título de um trabalho feito por economistas sobre problemas da realidade brasileira a pedido de Ciro Gomes, cuja leitura foi recomendada por Armínio Fraga após as eleições.

Ainda sobre Armínio Fraga, Palocci relata que Lula e ele chegaram até a considerar mantê-lo por um tempo. Armínio Fraga foi presidente do Banco Central de 1999 ao final do governo FHC e contribuiu, portanto, tanto com a criação do famoso “tripé macroeconômico”, quanto com a transição do governo FHC para o governo Lula.

Transição que viu, aliás, Armínio Fraga ser substituído por ninguém menos que o deputado federal – eleito pelo PSDB em Goiás – Henrique Meirelles, que ocupou o cargo até o final do governo Lula e só foi substituído já sob o governo Dilma, por Alexandre Tombini.

Em outra passagem, Palocci conta a reunião em que foi discutida qual seria a meta de inflação do terceiro ano de mandato do governo. A equipe econômica debateu e trouxe a proposta de 5%. Lula não gostou:

- Palocci, como é que eu vou explicar para as pessoas que a meta de inflação para o meu terceiro ano de governo será de 5%? Não dá, meu caro … Eu passei a minha vida de líder sindical correndo atrás da inflação – prosseguiu, agora me olhando mais fixamente. – Como eu vou encarar as pessoas e dizer a elas, agora que sou presidente, que minha meta de inflação é de 5% ao ano?! Vamos baixar isso! (Lula, citado por Palocci, p. 111)

Naquele momento a inflação acumulada em 12 meses era de 17%. Palocci, imaginando que Lula não estava considerando todas as implicações ao bater o pé por uma meta menor, procurou esclarecer:

- Presidente, eu não quero ser chato – apressei em me justificar, mas já encarnando, mais uma vez, o papel de advogado do diabo. – O senhor sabe o que significa uma meta muito apertada de inflação, não é?
– Eu sei que vai significar mais juros – afirmou, sério. – Isso está claro para mim. (Diálogo entre Palocci e Lula, citado por Palocci, p. 113)

A esperança de que o país continuasse nos trilhos da estabilidade, portanto, venceu o medo. Mas essa não era a única esperança. Havia muitas outras esperanças. O PT tinha até então uma história de lutas pelos trabalhadores e pelos mais pobres e havia a esperança de que o governo Lula aprofundasse e de certa forma radicalizasse programas sociais. E em certa medida isso aconteceu.

O governo Lula criou o Ministério do Desenvolvimento Social e, aceitando sugestão do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), fundiu a bolsa escola, o vale alimentação e o vale gás, criados sob FHC, no conhecido e bem-sucedido Bolsa Família.

… a decepção venceu a esperança.

O Bolsa Família era uma parte de um programa maior chamado Fome Zero, coordenado inicialmente por Frei Betto, antigo colega de ativismo de Lula. Frei Betto saiu do governo em 2004 decepcionado com o andamento do Fome Zero. Ele reclamou basicamente de duas coisas principais: do entrave que a burocracia estatal representava para o avanço do programa e do foco excessivo no componente assistencialista (o Bolsa Família) do programa.

Em entrevista concedida em 2008, por exemplo, Frei Betto questiona: por que comemorar 4 anos de bolsa família ao invés de 5 anos de Fome Zero? E onde estariam as reformas estruturais e outras políticas emancipatórias que deveriam ser associadas à política assistencial? Talvez mais importante, onde foram parar os comitês gestores, com participação da sociedade?

Talvez pelo fascínio do capital eleitoral que um programa da dimensão do Bolsa Família gera, o governo Lula deixou para trás a crítica ao assistencialismo e passou a se concentrar quase que praticamente nele e em políticas análogas, deixando para trás causas historicamente defendidas por seus militantes.

Longe de mim querer compactuar com críticas ao Bolsa Família: eu acredito que é um programa essencial e um passo importantíssimo na emancipação a que Frei Betto se referiu. O que me parece importante aqui é que no frigir dos ovos não há nada de tão novo no Bolsa Família se comparado aos programas sociais da era FHC, exceto o alcance sem precedentes. Depois da estabilização da economia, com o controle da inflação e do início de programas de renda mínima associadas a condicionantes esperava-se um terceiro passo.

E isso não aconteceu somente na área do desenvolvimento social. De segurança à ciência e tecnologia, passando por saúde e educação, a esperança era muito grande e o que se encontrou no meio do caminho foi decepção. Não chega a ser o fim do mundo, mas tenho certeza de que muita gente esperava mais.

Na área da Cultura, iniciativas importantes e com visão de futuro, como a reforma da Lei de Direito Autoral nadaram, nadaram e, depois de anos de promessas, morreram na praia, sepultadas de vez pela indicação de Anna de Holanda pela presidenta Dilma, o que demonstra que não havia nenhum compromisso real do governo ou do partido com as políticas propostas, como argumentei em outros textos. Isso mesmo depois e Dilma ter ido a eventos fazer elogios ao projeto de lei. Pura enganação.

A promessa de um diálogo mais aberto sobre liberdade de software e os anúncios grandiosos feitos por integrantes do governo deram em praticamente nada de prático. Ao invés de melhorar, o governo federal petista acabou por piorar a liberdade de software dos brasileiros, obrigando-os a instalar em seus computadores um software não-livre para fazer a declaração de imposto de renda. Com desvirtuação de instituições e ações desarticuladas, mal planejadas e mal feitas, o que se conseguiu foi no geral criar uma reputação ruim não merecida para os softwares que protegem a liberdade das pessoas.

A única iniciativa que salva os governos petistas de uma avaliação 100% negativa na questão é a do Portal do Software Público Brasileiro que, longe de ter sido uma iniciativa institucional, foi o trabalho incessante de convencimento diário de uma turma liderada pelo Corinto Meffe, trazendo para dentro do estado brasileiro ideias de cooperação e compartilhamento de software.

Também escutei histórias de pessoas envolvidas com saúde pública a respeito da decepção com os governos petistas. Não é pra menos. O tratamento do uso de drogas como questão de segurança ao invés de questão de saúde avolumou as fileiras do pensamento conservador dentro do governo brasileiro, em particular com a chegada ao poder da Presidente Dilma Roussef, que escolheu um Ministro da Justiça que não só se auto-critica por fazer um péssimo trabalho com as prisões do país, como advoga endurecimento no combate às drogas como crime, lotando as cadeias medievais com pequenos traficantes, culminando na perda do ótimo quadro Pedro Abramovay e indo na contra-mão do pensamento progressista na questão representado em tempos recentes, ironia é mato, por FHC.

Em 2008, com alguns anos de ascenção de Dilma Roussef no vácuo de poder criado pela debandada em massa da cúpula do governo por denúncias de corrupção, a área do meio ambiente viu também suas esperanças serem esgarçadas pela decepção. Numa queda de braço com Dilma Roussef, Marina Silva se viu forçada a sair do governo (e do partido) para não contribuir com políticas das quais discorda.

Entre alianças com ruralistas como Kátia Abreu, que Dilma apoia para o Senado em 2014, o descobrimento de grandes depósitos de petróleo na camada pré-sal e condução questionável de projetos como Belo Monte, as causas indígenas, ambientais e o desenvolvimento sustentável deram lugar ao desenvolvimentismo a qualquer custo e à proteção dos velhos amigos do poder de sempre.

Que causas, enfim, se conseguiu atender com a governabilidade?

Conversando com amigos simpatizantes do governo eu tenho geralmente feito um desafio: quais foram as grandes mudanças estruturais, legais, institucionais ou avanços sociais que os governos petistas conseguiram com o poder e as alianças para a governabilidade?

As grandes reformas legais e institucionais foram interrompidas, as grandes causas foram rifadas. Sobrou o que? Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida e ProUNI? Sinceramente, eu consigo ver qualquer presidente com chances de eleição tocar esses programas. E se for do PSDB vai ser certamente violentamente criticado pelo sucateamento das universidade públicas e pelo entreguismo representado pelo ProUNI…

Apesar da falação da militância a respeito da democratização das comunicações, o Ministério das Comunicações dos governos petistas sequer melhoraram o procedimento kafkiano para legalizar rádios comunitárias; a única iniciativa que se viu foi a redação de uma proposta pela Secretaria de Comunicação – encarregada da propaganda do governo, que nunca deu as caras. 1984 feelings. Direitos de LGBTs foram rifados em campanha e governo e tiveram que ser acudidos pelo STF. A questão da criminalização do aborto virou tabu, aliados conservadores do Planalto ganharam mais e mais espaço no Congresso. O que era pra ser um governo progressista, de esquerda, entrou numa curva errada em algum lugar.

Mas hipocrisias à parte, o que me chamou mesmo a atenção foi a resposta de uma amiga: segundo ela, simplesmente o fato de o governo Lula ter interrompido Belo Monte já valia. Isso me assustou e me fez perceber que junto com a esperança veio uma certa dose de alienação, talvez uma sensação de ‘agora está tudo nas mãos certas, posso despreocupar’. E isso, talvez, tenha sido o que mais me motivou a começar esse blog.

Lula não só não interrompeu Belo Monte como fez centenas de discursos inflamados a respeito de como era irônico ele ter feito tantos protestos contra e ser justamente em seu governo que o projeto seria realizado. O governo federal inventou inúmeras formas de atropelar o processo, tirando da cartola coisas que nunca antes na história desse país se havia visto, como uma licença ambiental parcial para desmatamento da região para instalação de estruturas de apoio à construção mesmo antes dos cumprimentos das condicionalidades impostas por lei – como os investimentos necessários na comunidade local para compensar os danos causados e a remoção de pessoas.

E a pendenga se arrasta até hoje, com o governo e o consórcio usando até mesmo de artifícios como espiões e restrição de acesso pela imprensa para cobertura de protestos.

Uma nova esperança

Eu sou otimista e acho que essa situação pode mudar. E, pra ser honesto, até há alguns pequenos progressos institucionais que merecem ser creditados aos governos petistas, mesmo que com ressalvas, como a lei de acesso a informação e a comissão da verdade – e eu falarei deles mais adiante, como também falarei em maiores detalhes sobre todos os pontos negativos que levantei sumarizadamente nesse post.

O fato é que infelizmente eu não acredito que essa mudança possa acontecer com o permanecimento do atual grupo político no poder. A atitude que eu decidi tomar para tentar ajudar a criar um ambiente propício para o debate de alto nível em 2014 foi trazer esses temas para discussão aqui, espero que de forma apaixonada mas sem a apaixonite das militâncias partidárias cegas.

Eu espero que novos grupos políticos se tornem opções que possam, de novo, representar a esperança. E eu espero mais ainda que a esperança não se torne tanto decepção assim. Eu quero ajudar a tirar as pessoas da  alienação e da sensação de que estamos nas melhores mãos possíveis. Com a pressão da sociedade e discussão de alto nível eu acredito que essa história pode ter um rumo mais feliz.