Nem tudo que reluz é ouro

Tem algum tempo que eu me interesso bastante por economia. Estou bem longe de ser um conhecedor do assunto, mas já aprendi muita coisa interessante. Se eu pudesse escolher um único conceito de economia dos que aprendi até hoje para ensinar a todos os meus amigos, esse conceito seria custo de oportunidade.

De forma bastante simplificada, custo de oportunidade é um jeito de quantificar o que você deixa de fazer ao escolher fazer alguma coisa. Por exemplo, numa sexta-feira você talvez decida sair pra beber com a turma. Para isso você desiste de outros programas possíveis como ficar em casa assistindo séries confortavelmente no sofá.

No caso do programa da sexta à noite, o custo de oportunidade é bastante subjetivo: depende de quanto valor você dá para cada uma das opções. Tem gente que gosta mais de sair, tem gente que é mais caseira, cada um dará um valor bastante diferente para cada opção.

Mas há algumas coisas para as quais o custo de oportunidade pode ser medido de forma bastante objetiva! Por exemplo, quando se decide onde investir dinheiro. Existe um investimento que é considerado o mais seguro de todos, que é emprestar dinheiro para o governo através do chamado Tesouro Direto. A ideia é que o governo é o último a deixar de pagar dívidas, se o governo der calote é bem provável que outros devedores já tenham tido problemas também.

Mas há outros investimentos que podem render bem mais, apesar de serem mais arriscados. Por exemplo, investir em ações. Se eu invisto numa ação, eu estou para isso deixando de ganhar o rendimento seguro do Tesouro Direto, essa é uma forma bastante simples de calcular de uma forma objetiva o custo de oportunidade do meu investimento.

Suponha que eu compre ações de uma empresa e elas tenham um ganho de 10%. Parece um rendimento bastante bom, certo? Mas acontece que a inflação também está a 10% nesse ano e o Tesouro Direto tem títulos que pagam inflação (IPCA) mais 5% a 7%, poderia ter ganhado 15% a 17% no ano se tivesse investido nesse título. Se eu considerar só o rendimento da ação, eu tive lucro, mas se eu considerar o custo de oportunidade, tive prejuízo de 5% a 7%.

Petrobrás vs Selic

O gráfico acima mostra a ideia de uma forma bem simples num caso real. Se no começo do ano eu investisse R$100 no título do Tesouro que segue a taxa de juros oficial, a Selic, eu teria hoje R$112. Se ao invés de investir no Tesouro Selic, eu tivesse colocado o dinheiro na PETR4, a ação preferencial da Petrobrás, eu teria um prejuízo de pouco menos de R$21. Mas se eu colocar na conta o custo de oportunidade de ter deixado de investir no Tesouro Selic, eu tive na verdade um prejuízo de quase R$33 reais. Os 21 que perdi, mais os 12 que deixei de ganhar.

Essa medida de lucro que considera custo de oportunidade (e outros fatores) é conhecido como lucro econômico, é bastante diferente do lucro contábil que só considera o que saiu e o que entrou. O conceito de lucro econômico é super poderoso, porque permite pensar melhor sobre que investimentos valeram a pena mesmo e quais deram uma falsa impressão de ser bons só por terem rendido alguma coisa.

O BNDES é um bom exemplo para pensar sobre isso. O banco tem se aproveitado de pouca gente conhecer essas ideias para divulgar que seus empréstimos foram bons por terem gerado lucro contábil.

Nos últimos anos, o governo fez um aporte de quase meio trilhão de reais no BNDES. Para isso, o governo se endividou. Como? Vendendo os títulos do tesouro a que me referi acima. O governo pegou dinheiro emprestado pagando de 11% a 17% de juros e emprestou ao BNDES cobrando dele 5%. Fica claro que o Tesouro, nós brasileiros melhor dizendo, estamos tomando um prejuízo nessa história.

O aumento da dívida já é em si um problema para o país, porque afeta a confiança de que o país honre seus compromissos no futuro. Além disso, o diferencial de juros faz com que o custo do financiamento do BNDES seja enorme (há um cálculo bastante detalhado aqui). Esse custo é pago por todos os brasileiros, até mesmo aquele que recebe Bolsa Família. Portanto, o que se faz com esse dinheiro tem que ser muito, muito bom pra valer a pena.

Quando o BNDES diz que teve lucro de X bilhões em investimentos feitos no frigorífico JBS, por exemplo, o banco está se aproveitando da ignorância das pessoas a respeito de toda essa complexa engenharia financeira armada pelo governo e do próprio propósito do BNDES. O objetivo do BNDES não é nem pode ser ter lucro contábil, até por ser um banco de desenvolvimento, não um banco de investimento.

O objetivo do BNDES é fazer investimentos que gerem lucro econômico, mas que acima de tudo devolvam a toda a sociedade, que está pagando caro, algo bastante valioso. Ao financiar obras de infraestrutura como um metrô, ampliação e modernização de aeroporto, energia limpa, o BNDES está cumprindo seu papel de usar o dinheiro do povo para viabilizar serviços públicos que geram benefícios para a população, desenvolvendo o país econômica e socialmente.

Quando se trata de ajudar um negócio privado como a JBS, o que o BNDES tem que esclarecer não é quanto de lucro contábil teve, mas sim que benefícios sociais foram gerados a partir desse investimento. E é importante que esses benefícios superem em muito os benefícios privados obtidos pelos donos do frigorífico.

Em outras palavras: o BNDES tem que considerar o custo de oportunidade gerado pelo aumento do endividamento do Tesouro e os benefícios sociais desse investimento sobre outras possibilidades. Tem que demonstrar não só que teve lucro, mas que o investimento gerou mais benefícios sociais do que teria gerado investimento em transporte público nas capitais do país.

No mínimo o banco tem que mostrar que o benefício supera o custo do endividamento do Tesouro. Pode fazer muito sentido o pobre e a classe média pagarem o custo do aumento do envididamente para ter serviços públicos melhores que farão sua vida e das próximas gerações melhores, o que justificará finalmente o custo. Mas que sentido há em o pobre pagar pelo aumento de riqueza dos donos da JBS?

O que é e como funciona uma bolsa de valores?

Petrobrás vs Chevron e Exxon
Petrobrás vs Chevron e Exxon. Ainda acha que a Petrobrás caiu porque as petroleiras caíram?

A gente vê muito falar que a bolsa de valores caiu ou subiu de acordo com as notícias ou o humor do “mercado”. Com quedas seguidas no valor das ações da Petrobrás, houve muita gente dizendo que isso era um ataque dos especuladores para punir o governo. Será que faz sentido essa acusação? Resolvi escrever o que eu aprendi até agora – não sou da área, então se achar erros ficarei feliz com correções ;).

Empresas têm capital que é composto por dinheiro, equipamentos, propriedades. Os sócios geralmente entram com dinheiro próprio ou conseguem investidores que passam a ser donos de partes do capital da empresa. A bolsa de valores é uma instituição que compõe o sistema financeiro e permite a empresas venderem participação na empresa em troca do aumento do seu capital. É um jeito de juntar dinheiro através da incorporação de novos sócios.

Esse processo é geralmente chamado de IPO, sigla em inglês que significa Initial Public Offering – Oferta Pública Inicial. Na oferta inicial, decide-se quantas ações comporão o total do capital da empresa, quantos porcento dele cada sócio deve manter e quantas serão ofertadas. Uma instituição financeira é contratada para avaliar o preço inicial adequado para a ação. Bancos de investimento compram todas as ações e passam a oferecê-las na bolsa.

O objetivo dessa oferta pública é basicamente, deve ficar claro, levantar dinheiro para o caixa da empresa, para que ela possa ampliar investimentos. A empresa passa a ter vários donos que podem mudar conforme as ações são renegociadas, daí passar a ser chamada de Sociedade Anônima (as famosas S.A.). Há outras formas de se tornar S.A. sem ter que abrir ações na bolsa, mas toda empresa que está na bolsa é uma S.A.

Porque esses novos donos são geralmente minoritários, não conseguem ter grande poder de decisão sobre a empresa e podem sofrer com más decisões tomadas pelos majoritários e por isso precisam de alguma proteção.

Além da lei, que tem dispostivos para proteger minoritários, a bolsa de valores também tem um papel importante: para tornar pública uma empresa, a bolsa exige que determinadas práticas de governança e transparência sejam adotadas, tais como a publicação trimestral de resultado financeiro. Há regras também para obrigar que a empresa faça anúncio de fatos que sejam relevantes para todos os sócios e potenciais sócios.

Uma coisa que eu demorei a entender é qual o benefício para a empresa depois da capitalização na oferta inicial. Depois da oferta inicial a empresa pode também obter financiamento através de emissão própria de dívida, as chamadas debêntures: você empresta dinheiro para a empresa comprando as debêntures e ela promete pagar de volta depois de determinado tempo com juros. A transparência exigida pela bolsa é essencial para que seja possível avaliar o risco de emprestar dinheiro para as empresas.

Além disso, a própria capitalização pode ser repetida com emissão de novos blocos de ações. Foi o que a Petrobrás fez em 2010, por exemplo: criou novas ações e as vendeu inclusive para trabalhadores, que puderam usar para isso seu FGTS. O capital da empresa é ampliado pelo dinheiro pago pelos compradores, que vai para seu caixa e passa a poder ser usado para investimentos.

Quando novas ações são emitidas para aumentar o capital total, o percentual dos sócios já existentes sofre uma redução. Pense comigo: se eu tenho 1 parte de 5, tenho 20%; se crio mais 5 partes, passo a ter 1 em 10, 10%. Para evitar essa perda de tamanho da participação, os sócios existentes têm que aportar mais dinheiro para comprar mais ações. O Governo Federal fez isso em 2010 para se manter dono de mais da metade da empresa. Para isso usou uma manobra financeira que envolveu inclusive vender à Petrobrás barris de petróleo que estavam ainda em poços que sequer haviam sido furados.

Voltemos à bolsa. Além das ações individuais, há também os índices, que consideram as cotações de várias ações para formar uma cotação única que procura representar o todo. Há indices para setores específicos como energia e, no caso da Bovespa, o ibov, um índice que tenta representar o mercado como um todo, com ações de vários setores, cada uma com um peso. Ações da Vale e da Petrobrás têm um peso bem grande no ibov por serem duas das maiores S.A.s do país, grandes quedas ou grandes ganhos nelas vão provavelmente carregar o índice para o mesmo lado.

Muito bem. E o que faz os preços das ações subirem e caírem? O famoso mercado: investidores institucionais (fundos de investimento e de pensão, por exemplo) ou individuais (eu, por exemplo) tentam usar as informações fornecidas pela empresa, perspectivas do setor e situação da economia em geral para adivinhar se os lucros da empresa crescerão ou cairão. É a esse trabalho de adivinhação que se chama de especulação.

Se alguém acha que a empresa vai piorar, a tendência é querer vender a ação. Ela olha a cotação do momento e coloca as ações a venda naquele preço. Se as ações forem vendidas rapidamente, tudo bem. Se não, o investidor tem duas opções: ficar com as ações ou baixar o preço para torná-las mais atrativas. É assim que a cotação cai.

Pensemos pelo lado do comprador: se eu acreditar que a empresa terá bons lucros no meu horizonte de investimento, vou comprar. Então coloco uma proposta de compra pelo preço da cotação atual e temos aí o mesmo caso do vendedor: se ninguém me vender, eu posso desistir da compra ou aumentar o valor da minha oferta para conseguir comprar. É assim que a cotação sobe.

Ofertas de compra e de venda para ações da CEMIG
Ofertas de compra e de venda para ações da CEMIG

Observe a caixinha de cotação acima de uma corretora de ações. Dá pra ver que no lado da venda as ofertas são de preços maiores que o da cotação atual e as ofertas de compra estão na cotação. Se as coisas continuarem assim nada acontece, então um dos lados vai ter que dar um passo na direção do outro, ou novas ofertas terão que aparecer para que negócios sejam concretizados.

Agora que entendemos como são formadas as cotações, suponha que um investidor queira “punir” o governo fazendo a cotação das ações da Petrobrás cair, por exemplo. Durante as eleições havia quem acreditasse que os investidores faziam isso como forma de incentivar o voto contra Dilma, já que sempre que ela subia nas pesquisas as ações caíam.

O que o investidor precisa fazer é induzir a venda de muitas ações a preços baixos. Caso ele tenha o poder de induzir uma histeria generalizada, ótimo: caso tenha ações da empresa, ele pode vender as suas pelo preço atual, logo antes de causar a histeria, não sofrendo ele próprio o revés.

A outra possibilidade é ele próprio colocar muitas ações a venda por um preço bastante baixo, levando investidores a não aceitarem comprar por preços mais altos. Isso faria muito mal a ele próprio, já que vai receber por suas ações um preço bem abaixo do que elas valeriam na verdade.

E o pior: provavelmente o investidor só conseguiria manter o preço artificialmente baixo por pouco tempo, já que com cabeça fria outros investidores conseguiriam perceber que a ação está barata e começariam a ir atrás delas aceitando pagar cada vez valores mais elevados, quando as mais baratas parassem de ser vendidas. Isso faria o preço voltar ao patamar mais próximo do real.

Pensando de forma mais realista, o mais provável é que os investidores estivessem reagindo a expectativas do que aconteceria caso os respectivos candidatos fossem eleitos. Com um histórico de má gestão na Petrobrás pelo governo Dilma, era de se esperar que a gestão ruim e o uso político continuariam e que com as outras opções a situação melhoraria. Eu sei que eu estava.

As bolsas de valores são instrumentos muito interessantes, que dão a empresas acesso a muitas possibilidades de se financiar. Além disso, é uma ferramenta interessante para dar acesso à população em geral não só aos riscos, mas aos lucros das empresas. É um jeito de ser dono de um pedacinho de empresas em que você acredita. Espero que tenha ajudado um pouco a entender o que elas são.

Obrigado ao Leonardo D’Angelo por me ensinar que quem compra as emissões iniciais de ações são bancos de investimentos e não corretoras.

Obrigado ao Sílvio Cruz por me ensinar que nem toda S.A. é também aberta (ou seja, tem ações na bolsa).

Emmanuel Goldstein vive

Emmanuel Goldstein vive

2 minutos de ódio, a catarse coletiva contra o inimigo Emmanuel Goldstein

Tico Santa Cruz postou recentemente no Facebook um vídeo do filme O Substituto em que o professor dá uma aula sobre conceitos de assimilação, ubiquidade e dupli-pensar, este último do livro 1984. A ideia que o professor passa é que existe uma narrativa dominante da qual devemos nos libertar (ou desalienar, palavra da moda tempos atrás) para que nossas consciências não sejam esmagadas.

1984 é talvez o romance distópico mais famoso do mundo. Mesmo quem nunca leu o livro já se deparou com conceitos que saíram dele como o Grande Irmão (Big Brother) e dupli-pensar. O autor do livro, Eric Arthur Blair, mais conhecido por seu pseudônimo George Orwell, era um ávido defensor do socialismo.

Mas não a corrente autoritária do socialismo: queria um socialismo democrático. Daí as críticas feitas por ele em Revolução dos Bichos, escrito antes de 1984, a regimes socialistas que se tornam oligarquias e o aviso do que poderia se tornar o mundo caso o socialismo totalitário nos moldes stalinista ou maoísta vencesse, com 1984.

Tico Santa Cruz postou o vídeo como uma forma de criticar o ódio anti-petista que tem ficado cada vez mais forte no país. Uma certa dose de revolta com o partido se justifica, claro: antes tido como o defensor da ética na política, o partido, através de sua cúpula, montou claramente uma estrutura criminosa para sua própria manutenção no poder, com o chamado mensalão.

Quem diz isso nem sou só eu. Carlos Ayres Britto, presidente do STF quando foi julgado o mensalão também diz. Britto foi petista e candidato pelo PT à Câmara no passado e repetiu isso em várias oportunidades durante e depois do julgamento da AP470. E tudo indica que o esquema tenha sido ampliado e espalhado pelo Estado como câncer em metástase.

Então, sim, o PT merece que o condenemos por ter feito essas coisas, precisa ser punido e ter suas partes podres removidas da política.

Mas isso não justifica de maneira nenhuma atacar pessoas em momentos de dor e sofrimento como fizeram no velório do Zé Dutra, dizendo que petista bom era petista morto. Isso é barbárie. Nem faz sentido negar que há forças na sociedade que são representadas por correntes internas do partido que não se corromperam. Por isso mesmo acho bastante válida a crítica dele e concordo plenamente que faz mal para o país demonizar uma força política.

Mas gostaria de propor uma reflexão e para isso vou falar um pouco mais sobre 1984.

1984 retrata um super-país chamado Oceania, formado pelas Américas e o Império Britânico. A capital é a Inglaterra pós-revolução em que um único partido, o Socialismo Inglês (ou IngSoc), comanda um Estado totalitário.

Há uma polícia de pensamento que impede que as pessoas discordem do governo, livros são basicamente proibidos, crianças são ensinadas nas escolas a procurarem sinais de pensamentos “incorretos” em seus pais e vizinhos e a denunciá-los à polícia de pensamento. Para controlar o pensamento das pessoas e subjulgá-las, o Ministério da Verdade reescreve a história, inclusive notícias de jornais ao sabor das necessidades do Partido.

É nesse contexto que aparece o dupli-pensar, citado pelo professor do filme: as pessoas são treinadas a acreditarem em afirmativas contraditórias como se ambas fossem verdades inquestionáveis e sem sentirem qualquer desconforto com isso. Ao ponto de mudarem quem são os aliados e inimigos na guerra mundial perene sem que a população ache estranho. Se ontem Eurasia era a inimiga e hoje é aliada, não se questiona: Eurasia sempre foi aliada. Se alguém disser que Eurasia era inimiga precisa de uma sessão de “ajustamento” (leia-se tortura física e psicológica) no Ministério do Amor (sim, o nome é esse mesmo).

Mas talvez mais importantes do que as formas de indução a essa crença quase religiosa no partido seja a criação e constante lembrança de inimigos reais ou imaginários, usados pelo Estado para manter constantemente a noção de nós contra eles. A guerra perene é usada para justificar toda sorte de mazelas sociais e há até um suposto movimento terrorista que pretende sobrepor o Partido chamado de “A Irmandade”.

O líder dessa irmandade, Emmanuel Goldstein, é usado pelo Grande Irmão para representar o principal inimigo da sociedade, que estaria constantemente na iminência de uma ação destrutiva. O povo de Oceania participa diariamente de uma sessão de catarse chamada de “2 minutos de ódio” em que imagens de Goldstein são projetadas num telão enquanto todos gritam xingamentos e deixam a raiva fluir.

O resto deixo pra você ler, se não já tiver lido. Recomendo muito: é provavelmente o livro mais marcante que já li na vida e tem uma trama sensacional.

1984 é uma ótima fonte de metáforas para o fla x flu que o debate político no país se tornou. Tico tem razão de que muitas pessoas deixaram de lado a razoabilidade e a civilidade para praticar momentos de “2 minutos de ódio” contra Lula, Dilma, o PT e os petistas.

Mas Lula e o PT não são os únicos Goldsteins do debate público do país. FHC, Aécio, Serra, o PSDB estão lá ao lado de Lula, como os Goldsteins preferido dos petistas. FHC então, coitado, 13 anos depois de ter deixado o governo ainda é lembrado como se tivesse culpa da situação das telecomunicações. É a definição do que é governo ruim, destruidor de mundos.

Do mesmo ambiente torpe de debate que vem o anti-petismo irracional vem também o anti-tucanismo irracional e o petismo boçal que ignora a realidade em nome do partido.

O professor do filme nos lembra que há uma enxurrada de informação enlatada que nos é empurrada constantemente pela mídia e outros entes sociais: religião, Estado, família com o objetivo de nos alienar. Eu concordo, mas adicionaria que tão importante quanto saber fugir desse enlatadomainstream é não se deixar ser capturado por outro conjunto de ideias enlatadas e tão embuídas de preconceitos ideológicos quanto aquelas.

Quando se defende acriticamente que Dilma era a única opção possível, inquestionavelmente melhor que o PSDB, sem olhar para a realidade, isso é também comer um enlatado sem questionar. Pode ser que seja verdade? Até poderia ser, mas bastava ver que Dilma deixou minguar o Bolsa Família, principal contribuição dos governos petistas, uma evolução do Cadastro Único e Bolsa Escola, ambos herdados do governo FHC.

Governo Dilma começa com o BF valendo 6% menos do que quando criado e já chega a mais de 20% de perda, mesmo com o aumento de 2014.

Percebe-se claramente no gráfico o descolamento do valor do Bolsa Família da inflação a partir de 2011.

Basta lembrar que Dilma pouco se importou com causas históricas do partido como a demarcação de terras indígenas e reforma agrária. Ela não foi só ruim, Dilma foi muito pior que o principal parâmetro usado por petistas para o que é ser ruim: FHC. Sem falar em questões de gênero, LGBT, entre outras, em que ela não avançou um milímetro.

E em nome de quê? De construir projetos gigantescos em terras indígenas sem respeitar minimamente as populações locais? De investir até dinheiro que não tínhamos em fontes poluentes de energia, deixando totalmente de lado a questão ambiental? Sobrou o quê, afinal, do governo pretensamente de esquerda?

Quando se ignora a realidade e se começa a acreditar acriticamente que um grupo sempre é melhor, mesmo que ele mude completamente, o que você fez não foi só se desalienar do discurso mainstream. Foi se realienar com outro discurso, tão enlatado e preconceituoso quanto.

Tico Santa Cruz está certíssimo em recomendar essa reflexão sobre o anti-petismo irracional. Espero que ele também reflita sobre a racionalidade das suas próprias defesas.

É importantíssimo questionar o pensamento enlatado que nos é fornecido pelos poderosos e pela mídia, pela família e pelas escolas. Mas não adianta nada se no processo entregarmos nossa consciência a outro enlatado de pensamento. Questionar tudo, inclusive a si mesmo, sempre, pensar por si mesmo, é o único caminho para não ser massa de manobra de ninguém.