A brutalidade policial desconhece partidos

Em 2013 eu participei dos protestos de junho. Mais até do que o aumento das passagens, fui protestar contra a violência policial, que tinha sido especialmente brutal em São Paulo. Mas São Paulo infelizmente não foi a única: no Rio de Janeiro a polícia cercou manifestantes que se refugiaram na Quinta da Boa Vista. Chegaram a jogar bombas de gás lacrimogênio lá dentro.

Em Belo Horizonte, em São Paulo, em Salvador, pra todo lado houve protesto e houve violência policial. Até jornalistas foram vítimas: uma repórter da TV Folha levou um tiro de bala de borracha no olho sem estar perto de qualquer vandalismo e sem representar qualquer tipo de ameaça.

Em Porto Alegre, pessoas que tentavam filmar a violência policial acabavam engrossando a estatística das vítimas. No Distrito Federal um policial ficou famoso por justificar violência desnecessária com um singelo “porque eu quis“. Fatos muito parecidos voltaram a acontecer em 2014. Além da violência gratuita, o que relaciona todos esses eventos é o fato de que nada nunca acontece aos policiais que cometem os exageros.

A PM é subordinada aos govenos dos estados. SP e MG eram governadas pelo PSDB, RS e DF pelo PT, o Rio de Janeiro pelo PMDB. Todos os governadores de todos os partidos bancaram as ações de suas polícias, assim como o Governo Federal. Se há alguma coisa que é monopólio de um só partido, a violência policial certamente não é essa coisa.

Orlando Silva sobre violencia policial no Paraná
Orlando Silva sobre violencia policial no Paraná

Mas vemos tentativas constantes de partidarizar essa nossa chaga, como essa aí de cima do antigo Ministro do Esporte, Orlando Silva, do PC do B. Quando a PM do Paraná agiu com violência contra professores que protestavam perto da Assembléia Legislativa, as redes sociais explodiram em denúncias contra o que, segundo os petistas e seus aliados, seria uma característica do PSDB. Mas, ao fazerem isso, nos deram um ótimo exemplo de como a violência é generalizada: usaram fotos de outros eventos como se fossem do Paraná.

Professor do Ceará sofrendo ataque
Professor do Ceará sofrendo ataque

A foto acima, por exemplo, usada em vários posts de petistas e aliados como se fosse do Paraná, é na verade de 2011, no Ceará. Nessa época o estado era governado por Cid Gomes, do PROS, que mais tarde foi escolhido para o Ministério da Educação do segundo mandato de Dilma.

Fotos de professoras feridas
Fotos de professoras feridas

Outra foto muito utilizada foi a dessa professora sangrando. Essa foto era de 2015 mesmo, mas não era do Paraná e sim de Goiânia, onde a guarda municipal foi a responsável pelos ataques. A prefeitura é do PT. Apesar dos fortes e louváveis protestos de petistas e seus aliados contra o acontecido no Paraná, a reação deles ao mesmo problema em Goiânia foi o silêncio.

Hoje eles voltam a protestar fortemente (e corretamente) contra a PM paulista, que pode ter cometido uma chacina em represália à morte de um dos seus. Infelizmente preferiram o silêncio quando houve uma chacina sabidamente cometida pela PM na Bahia e o governador, petista, comparou os policiais a artilheiros na cara do gol.

Também recentemente, a PM mineira reprimiu manifestações contra o segundo aumento de passagem de ônibus em menos de um ano. Eu vi gente que chegou a tentar jogar nas costas do prefeito da cidade a responsabilidade, confundindo a PM com a guarda municipal, talvez. Mas não, foi a PM mesmo. Por que tentar jogar pro prefeito? Porque agora o estado é governado pelo PT, não pelo PSDB.

Partidarizar temas que são problemas nacionais e endêmicos é sempre ruim para o debate público. Mas é um grande desrespeito a todas as vítimas da violência policial, muitas delas fatais, desvirtuar o debate numa tentativa de pixar o adversário político.

Cobrar responsabilidade dos governadores e seus partidos sim, devemos sempre fazer, pressioná-los para que assumam seu papel e segurem as rédeas das polícias. O que não dá pra aceitar é a seletividade na tentativa de associar o problema a um partido.

Basta não fechar os olhos e não ser desonesto pra ver que o problema é bem mais geral e o buraco bem mais embaixo. A violência policial desconhece partidos, é geral, um problema do Brasil todo e para o Brasil todo resolver.

Era uma vez os movimentos sociais

Há poucos dias, o MST saiu de um período grande de quietude e ocupou prédios do Ministério da Fazenda em protesto contra o ajuste fiscal e, em especial, redução de recursos para a reforma agrária. O que causa espanto é que tenham demorado tanto para agir, visto que Dilma é reconhecidamente a presidente que menos fez reforma agrária nos últimos 20 anos.

No começo do ano me propus o exercício de comparar Dilma com o que, a julgar pelas críticas de seus correligionários, é o padrão de ruindade: Fernando Henrique Cardoso. Comecei a olhar alguns dados de coisas que são tradicionalmente defendidas por petistas como reforma agrária e demarcação de terras indígenas.

No caso da reforma agrária, peguei dados do governo de assentamentos desde 1995 e coloquei os primeiros quatro anos dos dois presidentes em gráficos para comparação:

Área de assentamentos criados
Área de assentamentos criados
Famílias assentadas
Famílias assentadas

Enquanto FHC assentou quase 270 mil famílias, Dilma chegou a pouco mais de 30 mil. Em termos de área de assentamentos, mais uma vez FHC ganha de lavada, tendo criado assentamentos cuja área total representa 4 vezes a de Dilma.

Era de se esperar que com um desempenho pífio desses o MST estivesse fazendo invasões diariamente sob o governo Dilma, mas quem eles atazanavam mesmo era FHC. Ao invés de invasões e protestos, Dilma ganhou o singelo apoio do líder do MST no começo do segundo mandato, em evento oficial do governo, ocasião em que disse que Dilma era quase uma santa.

Na semana que passou, houve em Brasília a quinta edição da Marcha das Margaridas, um movimento criado no ano 2000, com nome que homenageia uma militante que lutava por direitos trabalhistas e foi assassinada.

O movimento, em tese, é favorável à reforma agrária, à demarcação de terras indígenas e contrário ao que pessoas como Kátia Abreu, que chegou a organizar um leilão de armas para organizar resistência armada ao que ela chama de invasões indígenas a propriedades rurais.

A presidente atual não é só a que menos fez reforma agrária, mas é também a que fez campanha para que Kátia Abreu fosse eleita senadora, mas a transformou em Ministra da Agricultura. E não se engane, não foi uma cessão ao PMDB, que sequer foi consultado: Kátia Abreu é cota pessoal da presidente. O que vocês acham que as Margaridas fizeram na manifestação?

Se sua aposta é que elas denunciaram essa situação, você perdeu. As Margaridas deram palanque a Lula no primeiro dia do evento para defender o governo e atacar a oposição e fizeram ato de desagravo para Dilma no segundo, tendo ela como convidada de honra. As causas ficaram para segundo plano, a defesa do governo que foi muito pior que o do sempre denunciado FHC se tornou o principal. Talvez não supreenda saber que o evento contou com forte patrocínio estatal. BNDES, Banco do Brasil, Caixa, Itaipú, deram quase um milhão em patrocínio para a marcha.

Anteriormente eu falei de demarcações de terras indígenas, uma defesa histórica do petismo e de movimentos como o da Marcha das Margaridas. Dilma não só alterou o processo de demarcação, retirando poder da FUNAI e dando mais voz aos ruralistas, como também orientou a FUNAI a interromper os processos. Não a toa, ela tem desempenho pífio nisso também, comparada a FHC, como mostram os gráficos que fiz com dados do governo para os primeiros anos de mandato de Dilma e FHC:

Tamanho da área de terras indígenas homologadas
Tamanho da área de terras indígenas homologadas
Número de áreas de terras indígenas homologadas
Número de áreas de terras indígenas homologadas

Alguns gostam de dizer que o caso é de diminishing returns – que o grosso das terras já teriam sido demarcadas, ou no caso da reforma agrária, já redistribuídas, o que naturalmente reduziria a velocidade do processo. É um argumento ridículo no caso das homologações de terras indígenas, porque há mais de 20 processos prontos na mesa da Dilma, só precisa assinar (esses dados também estão nas planilhas).

No caso da reforma agrária, acho risível argumentar isso, mas a Ministra Kátia Abreu disse que não há mais latifúndio. Bom, se vocês concordam que ela está certa, espero que no próximo governo que não seja do PT o MST e a Marcha das Margaridas sejam tão compreensivos com o presidente quanto têm sido com Dilma.

Mas não é só nas áreas fundiárias que os movimentos sociais se tornaram apêndices do governo. A então presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), Vic Barros, prometeu em maio de 2015 que caso houvesse cortes na educação, haveria protestos. A promessa é bizarra, já que em maio de 2015 os cortes na educação já abundavam desde janeiro.

Kátia Abreu com as presidentes da UNE e UBRES
Kátia Abreu com as presidentes da UNE (que usa broche pró-Dilma) e UBRES

A nova presidente da UNE, Carina Vitral, na foto acima com broche pró-Dilma, ao lado da Ministra Kátia Abreu (que a postou em seu twitter), decidiu levar a cabo a promessa feita por sua antecessora: foi a Brasília participar de ato de desagravo da presidente Dilma. Sim, os protestos prometidos acabaram sendo a favor do governo que faz os cortes que a UNE repudia. A lógica mandou lembranças.

O líder do movimento dos sem teto (MTST), Guilherme Boulos, também foi ao evento. Fez duras críticas a políticas do governo, mas deixou claro que prefere isso a um governo de qualquer das alternativas que, segundo ele, são os que governaram por 500 anos antes dos governos do PT. A mensagem dele é clara: o governo é uma porcaria, mas é o nosso governo. Pode ser pior que o “deles”, mas é “nosso” (leia-se do PT, o partido a quem tudo se perdoa).

Depois de fazer críticas à política econômica do governo, foi até a presidente a quem deu caloroso abraço sob gritos de “Fora já, fora já daqui, o Eduardo Cunha junto com o Levy”. Isso sim é diálogo.

Para coroar esse ato, por falar nisso, o presidente CUT não deixou por menos. Discursou prometendo que se qualquer tentativa de interferir no mandato da presidente Dilma ou de atacar Lula, iriam para as ruas “entricheirados, de armas na mão“. Mais tarde disse que não se referia a armas de verdade, que era mera figura de linguagem. Tá certo, então.

O último argumento que costuma sobrar para quem tenta defender de alguma forma esse governo é o de que “nos últimos anos” houve aumento do salário mínimo e redução da miséria. Pois bem. Esquecem de perceber que FHC deu aumento real de salário mínimo bem maior que o de Dilma.

Além disso, já sabemos que a partir de 2013 o número de miseráveis não só parou de cair como voltou a aumentar, resultado mais do que esperado dado que Dilma despriorizou o poder de compra do Bolsa Família.

Gráfico Bolsa Família vs Inflação mostrando que a falta de ajuste descolou o benefício da inflação
Gráfico Bolsa Família vs Inflação

Não há defesa possível para esse governo, do ponto de vista dos movimentos sociais e, ainda assim, é exatamente o que eles fazem, sob o pretexto de estarem defendendo a democracia.

Os movimentos sociais no Brasil acabaram. É o resultado de 13 anos de cooptação, de acomodação de interesses das lideranças, da criação de boquinhas aqui e ali dentro da estrutura do Estado para os aliados. Dilma é muito pior que o padrão de ruindade dos movimentos sociais, o governo “neoliberal” de FHC. E mesmo assim merece uma defesa quase incondicional.

É mesmo hora de tirar esse grupo do poder.