Desconstruindo um caso de desonestidade intelectual

O crítico de cinema Pablo Villaça é um comentarista assíduo de política. Recentemente ele lançou uma campanha para tentar mostrar que a crise na verdade é algo construido pela mídia. O texto é um monumento à desonestidade intelectual e portanto vale perder um tempinho dissecando.

Seguem partes do texto com comentários intercalados, texto completo aqui.

Eu fico realmente impressionado ao perceber como os colunistas políticos da grande mídia sentem prazer em pintar o país em cores sombrias: tudo está sempre “terrível”, “desesperador”, “desalentador”. Nunca estivemos “tão mal” ou numa crise “tão grande”

Villaça começa usando uma técnica muito conhecida em debates políticos: a criação de espantalhos. Isso significa substituir a realidade complexa por uma simplificada e extremada, mais fácil de contrapor.

Temos sim notícias dizendo que a crise é grande e temos mesmo alguns indicadores que estão com os piores números em muito tempo. Isso é péssimo e desalentador, porque vínhamos de uma trajetória de melhoria e nos foi prometido que melhoraríamos mais quando na realidade ganhamos uma reversão da tendência. Mas dizer que a imprensa como um todo tem dito que nunca estivemos tão mal é um exagero calculado.

Em primeiro lugar, é preciso perguntar: estes colunistas não viveram os anos 90?! Mas, mesmo que não tenham vivido e realmente acreditem que “crise” é o que o Brasil enfrenta hoje, outra indagação se faz necessária: não lêem as informações que seus próprios jornais publicam, mesmo que escondidas em pequenas notas no meio dos cadernos?

Concordo com ele: houve muitas crises mesmo nos anos 90. A crise da hiperinflação por exemplo, que foi finalmente controlada pelo Plano Real. Depois, crises internacionais que impactaram muito nossa economia que ainda vinha se recuperando do total descontrole dos anos 80 e início dos 90.

As crises dos anos 90 foram realmente impactantes e de difícil solução por exigirem grande número de reformas que acabaram sendo feitas principalmente pelo governo FHC, abrindo o caminho para a bonança da era Lula. Mas isso não significa que o que vivemos agora não é crise.

Vejamos: a safra agrícola é recordista, o setor automobilístico tem imensas filas de espera por produtos, os supermercados seguem aumentando lucros, a estimativa de ganhos da Ambev para 2015 é 14,5% maior do que o de 2014, os aeroportos estão lotados e as cidades turísticas têm atraído número colossal de visitantes. Passem diante dos melhores bares e restaurantes de sua cidade no fim de semana e perceberá que seguem lotados.

Aqui vemos o cerne do argumento de Villaça: como pode haver crise se encontro nos jornais tantas notícias positivas? O problema é que nem tudo que ele diz aí é verdadeiro e o pouco que é não significa muito com relação a crise.

A Safra agrícola por exemplo não é afetada pela crise, é resultado do que foi feito em 2014. Ter safra recorde não significa que as vendas serão boas, mas nada impede que sejam, já que parte significativa da produção pode ser exportada. A capacidade de exportação tem mais a ver com o estado da economia dos países consumidores e a crise nesse caso ajuda, já que desvaloriza o real frente a outras moedas.

A desonestidade fica clara no segundo ponto: o setor automobilístico teria imensas filas de espera. Mas é mesmo? Então me explica a queda de 20% na venda de veículos em 2015, levando à menor em 8 anos. E a queda pela metade da venda de caminhões, que indica diminuição do investimento? Se há filas para adquirir os carros, por que os pátios estão lotados e trabalhadores sendo colocados em férias coletivas ou demitidos?

A única explicação que eu tenho é que Villaça tenha visto uma notícia dizendo que determinado modelo (que aposto ser de luxo) está com fila de espera e resolveu generalizar para ‘setor automobilístico’. Que é um fator importante que ele não levou em consideração: a crise não atinge todos igualmente.

Os mais ricos, como eu e ele inclusive (e como ele reconhece ao final do texto), podem demorar para sentí-la ou passar por ela sem perceber muito. Pessoas que tem dinheiro sobrando podem, na verdade, ganhar com a crise, aproveitando os juros elevados pagos por títulos públicos e privados. Daí o fato de os “melhores bares e restaurantes” estarem ainda cheios. Isso significa que não há crise?

Será que Villaça realmente acredita que a inflação dos últimos 12 meses, de quase 9%, não comeu boa parte da renda dos mais vulneráveis, que recebem Bolsa Família sem reajuste suficiente desde 2011? Ou será que ele não acredita nos dados publicados pelo IBGE, que indicam queda no nível de renda dos brasileiros e aumento do desemprego?

Ou será que está cego aos cortes que o Governo Federal tem feito, inclusive no que teoricamente é sua maior prioridade, a educação, com redução drástica no FIES, PROUNI, Pronatec, programas de pós graduação e até custeio de universidades, levando-as a passar um baita aperto financeiro? A UFBA teve a luz cortada, invenção da mídia?

Não. Tenho certeza de que Pablo Villaça não é tão cego. O que ele faz é colocar uma viseira e escolher os fatos que interessam. Fechar os olhos à situação do Brasil como um todo e focar no seu próprio círculo, na sua própria bolha. É como o cavalo que usa uma viseira para não ser distraído pela realidade que existe em volta. A diferença no caso dele, animal racional, é que o uso da viseira é sua própria escolha. O objetivo dele fica claro ao final do texto, em que ele diz:

Que é, afinal, o que eles querem. Porque nos momentos de verdadeira crise econômica, os mais abastados permanecem confortáveis – no máximo cortam uma viagem extra à Europa. Já da classe média para baixo, as consequências são devastadoras, criando um quadro no qual, em desespero, a população poderá tender a acreditar que a solução será devolver ao poder aqueles mesmos que encabeçaram a verdadeira crise dos anos 90. Uma “crise” neoliberal que sufocou os miseráveis, mas enriqueceu ainda mais os poderosos.

Para Villaça, não importa a realidade. Importa é não dar argumento para que alguma força política eventualmente convença seus seguidores de que podem, afinal, ser sim melhores que o PT que ele defende com unhas e dentes. Com a mesma garra que usou para ajudar a sujar as imagens de Marina e Aécio nas eleições de 2014, Pablo Villaça agora tenta fazer com que seus amigos e seguidores, menos vulneráveis e distantes do olho do furacão da crise, fechem os olhos à realidade que assola os mais pobres. Quer que escolham usar viseiras junto com ele.

Assim fica menos difícil defender a manutenção no poder do seu partido preferido daqui a alguns anos, quando tiver que explicar aos amigos e seguidores que fazem parte da sua bolha por que foi que a desigualdade e a miséria aumentaram, renda caiu, juros e inflação aumentaram, crescimento econômico foi desprezível: “Que crise?” dirá ele. “Esqueçam a imprensa, olhem suas fotos no Facebook, você não fez coisas boas?”, é 13 confirma!