“Votei pelo pobre”

Muita gente que votou pela reeleição da presidente Dilma, ao ser confrontada com os grandes problemas do primeiro mandato, argumentava: “voto pelo que é melhor para o pobre e Dilma priorizou os mais pobres”. Lembro até de uma pessoa dizer que preferia a estratégia de Dilma de crescer menos mas com mais apoio aos mais pobres – como se o crescimento baixo fosse parte da estratégia. A mim parece claro que quem falava isso não tinha prestado atenção no primeiro mandato de Dilma.

Não precisava ir muito longe. Enquanto a inflação crescia, programas como Bolsa Família ficaram anos sem reajuste. Devia ser óbvio para qualquer pessoa que se interessasse um mínimo por se informar que os mais vulneráveis estavam sofrendo uma corrosão brutal da sua renda.

Isso era tão claro pra mim que eu nunca parei pra olhar os dados, mas acabei ficando com uma coceirinha de curiosidade pra ver afinal qual era o tamanho do problema, então sentei e fiz uma planilha e um gráfico:

Gráfico Bolsa Família vs Inflação mostrando que a falta de ajuste descolou o benefício da inflação
O benefício manteve poder de compra no governo Lula, perdeu no governo Dilma

Fica claro olhando o gráfico que houve um descolamento entre o valor do benefício e a inflação depois do ano de 2011. Hoje o benefício básico está em 77 reais e deveria estar próximo de 94 reais para que mantivesse o mesmo poder de compra do governo Lula. 18% menor do que devia.

Dá pra ver também que no início de 2014, ano eleitoral, o governo se lembrou de que nenhum reajuste tinha sido dado desde 2011 e que ficaria menos fácil  enganar os militantes e deu um aumento. Digo menos fácil porque difícil não seria. Quem votou pelos pobres votando em Dilma ou decidiu ignorar a realidade ou é dogmático, acredita que independentemente do que fizer o PT sempre será a melhor opção, defende de forma praticamente incondicional. É o militante capaz de defender que Dilma seria a melhor opção para questões indígenas mesmo sendo a presidente que menos demarcou terras indígenas depois da democratização.

E qual o resultado dessa redução da prioridade do Bolsa Família? O governo fez o que pôde para segurar dados ruins que deveriam ter sido publicados antes das eleições, como por exemplo os dados do IPEA sobre a miséria. Dilma havia prometido erradicar a miséria, chegou a adotar como slogan do governo “País rico é país sem pobreza”.

Mas, de novo, bastava usar um pouquinho a cabeça! Se a inflação está alta e o principal programa que serviu para tirar as pessoas da miséria foi corroído por ela, é óbvio que a miséria aumentaria. A única forma de a miséria não ter aumentado seria falsear os dados, usar uma faixa de miséria que fosse completamente incompatível com 4 anos de inflação (e sempre acima da meta!).

Alguém poderia tentar dizer que foi porque havia restrições orçamentárias. Seria até engraçado, visto que o governo torrou dinheiro como se não houvesse amanhã justamente no mesmo período, desembocando num gasto imenso em 2014.

Mas eu acho ainda mais interessante colocar esse argumento frente aos seguintes fatos: no mesmo período, o governo deu desonerações de folha de pagamento que só no ano de 2014 consumiram 1 ano de Bolsa Família e não produziram efeito no emprego, segundo o próprio Ministro da Fazenda. Houve outras desoneração não ligadas à folha de pagamento, que somadas a essa atingiram mais de R$100 bilhões: 4 vezes o Bolsa Família.

Isso sem contar o gasto enorme do BNDES, através de empréstimo subsidiado (ou seja, pago em parte pelo povo brasileiro) para empresários. Tudo isso, segundo a justificativa oficial, para aumentar a taxa de investimento. Dilma prometeu elevá-la a 24% do PIB, conseguiu foi fazê-la cair para 19%.

Já agora, no segundo mandato, mesmo reconhecendo que as contas do país estão desajustadas e que um ajuste fiscal é necessário, Dilma decidiu aumentar os empréstimos feitos pelo BNDES em 2 vezes o valor anual do Bolsa Família: 50 bilhões, através de mais um aporte do tesouro.

Bolsa Família? Dilma se empenhou foi em ampliar a Bolsa Empresário. Parabéns pra você que votou em Dilma pelo pobre. Vamos prestar mais atenção da próxima vez?

O que é preciso pra entender desemprego no Brasil?

Somos bombardeados por indicadores relacionados à economia diariamente e fica muitas vezes difícil entender o que eles querem significam de fato. Um que eu acho especialmente complicado é o indicador do desemprego.

Primeiro, porque a metodologia pode não ser muito intuitiva. A taxa de desemprego por exemplo não mede a fração de pessoas que precisa de emprego e não tem, mas sim a fração de pessoas que estão no mercado de trabalho e se encontram desocupadas. Estar no mercado de trabalho significa estar trabalhando ou ter procurado emprego nos últimos 30 dias.

Ou seja não são considerados na estatística: quem está numa situação tão miserável que nem tenta procurar emprego, a pessoa que está recebendo seguro desemprego mas não procurou trabalho, quem arranjou um subemprego pra ter o que comer e parou de procurar trabalho e por aí vai. Dessa perspectiva, nem é tão estranho assim que o uso do seguro-desemprego tenha crescido enquanto a taxa de desemprego caía.

Segundo, porque o Brasil tem atualmente duas importantes pesquisas oficiais que medem a taxa de desocupação. A PME, Pesquisa Mensal de Emprego, é uma pesquisa feita pelo IBGE em 6 grandes regiões metropolitanas brasileiras. Vários estados ficam de fora e o interior dos estados que são contemplados com uma região metropolina também. Isso faz com que a PME seja uma estimativa bastante enviesada.

O IBGE planeja substituir a PME pela PNAD contínua (PNADc). A PNAD é como se fosse uma atualização constante do censo. Ao contrário do censo que visita cada domicílio, a PNAD é feita por amostragem. Mas ao contrário da PME que só enxerga 6 grandes metrópoles, a PNAD chega a mais de 3.500 municípios, conseguindo uma visão bem mais abrangente do que acontece país a fora.

Desde que a PNADc começou ela vem mostrando uma taxa de desemprego maior que aquela vista pela PME. Não por acaso o governo tende a usar sempre os dados da PME. O plano era que a PNADc passasse a ser a única pesquisa utilizada e que a PME deixasse de ser executada a partir de 2015. Com o aumento de desemprego, acho provável que o governo pressione o IBGE a continuar publicando a PME até que os problemas da economia sejam sanados.

Uma semana atrás, no dia do trabalhador, um perfil do governo no Twitter publicou um gráfico comparando a taxa de desemprego do Brasil com outros países com o objetivo de mostrar que apesar do aumento não estava tão ruim.

Gráfico do governo comparando desemprego medido pela PME com de outros países
Gráfico do governo comparando desemprego medido pela PME com de outros países

Comparar taxas de desemprego entre países pode ser uma coisa problemática porque países diferentes podem usar metodologias diferentes. E também porque cada um pode estar numa tragetória diferente. Considere por exemplo os EUA que estão com uma forte recuperação da atividade econômica e vêm tendo uma reduçao do desemprego nos últimos tempos com o Brasil que vai na direção inversa.

O governo, obviamente, escolheu usar o número da PME para sua comparação. Mas o gráfico é bizarro por muito mais que só esse problema: se você prestar atenção vai perceber que os 0,5 entre os 6,4 da Alemanha e os 6,9 da Argentina são maiores no gráfico do que os 1,7 entre os mesmos 6,9 e os 8,6 da Índia. E você aí achando que só a Globo News gosta de usar escalas bizarras pros gráficos, hein?

Nessa quinta dia 7 de maio saíram os dados da PNADc, com uma taxa de desemprego de 7,9%. Com os dados mais confiáveis e abrangentes da PNADc em mãos, resolvi fazer um pequeno exercício: peguei o gráfico do governo, selecionei a área da barra dos 6,9 da Argentina que fica acima dos 6,4 da Alemanha e considerei como 0,5. Daí empilhei até dar os 1,7 que precisa somar aos 6,2% da PME. O resultado:

Gráfico do governo consertado com os dados da PNADc. Escala do conserto é a da diferença entre Alemanha e Argentina
Gráfico do governo consertado com os dados da PNADc. Escala do conserto é a da diferença entre Alemanha e Argentina

Dois resultados do exercício: 1) os 7,9 do Brasil ficam bem maiores que os 8,6 da Índia com a escala usada entre Alemanha e Argentina, o que mostra que o gráfico é uma piada de mau gosto; 2) o Brasil não vai lá muito bem nessa comparação.

E, infelizmente, a perspectiva do Brasil não é boa, a expectativa é que o desemprego aumente, basta ver que temos notícias todos os dias de grandes demissões. Esse ano vai ser dureza.