Melhor que o esperado

Uma das coisas mais importantes que aprendi sobre interpretação de textos da imprensa e de militantes é que se deve detectar palavras ou expressões que podem esconder uma situação muito pior ou melhor do que a reportada. Dentre essas, expressões que indicam que algo teria saído melhor que o esperado é rainha que merece toda nossa atenção.

Em um texto há alguns anos, comentei uma matéria do Conversa Afiada que fazia uso desse expediente ao tratar do lucro de 2012 da Petrobrás: criticava as chamadas dos grandes jornais que destacavam a redução do lucro e usava como exemplo a publicação especializada InfoMoney que distoava dizendo que o lucro havia superado expectativas. Aí é que tá: superar expectativas pode até ser relativamente positivo por significar que os receios eram excessivamente pessimistas, mas não conserta o fato de que houve uma queda de 36,4% com relação ao ano anterior. Em outras palavras: os mais pessimistas estavam errados, mas os que acertaram continuam sendo os pessimistas.

Governo e governistas usaram estratégia parecida para falar da Copa de 2014, declarando-a um sucesso. “Os aeroportos não entraram em colapso”, disseram, comemorando que os mais pessimistas erraram ao prever o caos. É verdade: as pessoas conseguiram vir, chegar aos estádios, que também se comportaram durante os jogos, protestos foram coibidos. Mas se esquecem de que a régua que mede o sucesso não é o pior caso previsto pelos mais pessimistas e sim o que foi prometido. Evitar o caos pode ser positivo, mas não significa sucesso.

 http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL1181261-9356,00.html
Em 2009, Dilma Rousseff afirmou que trem bala entre Campinas e Rio ficaria pronto para a copa.

Uma das obras mais badaladas era o trem bala. Ideia esdrúxula na minha opinião, tentativa de criar uma imagem de país desenvolvido ao invés de resolver problemas reais de mobilidade. O governo chegou a preparar um leilão que acabou adiado indefinidamente por falta de concorrentes. Mesmo sem ser construído, o trem bala já gastou 1 bilhão. Há rumores de que a nova estatal de logística esteja recomeçando os estudos agora no começo de 2015.

Obras de mobilidade que de fato serviriam para resolver problemas reais também ficaram no anúncio ou deixaram a desejar. Das 51 obras prometidas originalmente, 35 foram mantidas nos vários cortes e apenas 9 foram concluídas, com 11 parcialmente em operação, totalizando 20. Para evitar problemas com trânsito em dias de jogos foram decretados feriados.

Das 70 obras no total, incluindo aeroportos, portos e outras intervenções, somente 24 foram concluídas. Outro dia estive no aeroporto de BH, que sofreu ampliações para a Copa, e ainda há inúmeras salas de embarque fechadas. A novidade ficou por conta das goteiras que eu pude ver em primeira mão por ser um dia chuvoso e estão por toda parte na área recém construída.

Durante o lançamento do edital do trem bala em 2010, o então presidente Lula criticou aqueles que duvidavam da capacidade do Brasil de entregar tantas obras que vinham sendo prometidas:

Terminou a Copa da África agora e já começam a dizer: ‘ Cadê os aeroportos brasileiros? Cadê os corredores de ônibus brasileiros? Cadê os corredores de trens do Brasil?’ Enfim, como se nós fôssemos um bando de idiotas que não soubéssemos fazer as coisas e definir as nossas prioridades. (Presidente Lula, 2010)

Em 2014, com a realidade batendo à porta, Lula decidiu que idiotas mesmo são os que esperavam que o governo fosse conseguir entregar:

Nós nunca tivemos problemas em andar a pé. Vai a pé, vai descalço, vai de bicicleta, vai de jumento, vai de qualquer coisa. Mas o que a gente está preocupado é que tem que ter metrô, tem que ir até dentro do estádio? Que babaquice é essa? (Lula em 2014)

Os estádios são um caso a parte. A FIFA exige 8, o Brasil insistiu em construir 12, alguns em áreas sem nenhuma tradição de futebol local, como Manaus. Prometeu-se que não haveria dinheiro público investido em construção de estádios, promessa que não chegou nem perto de ser mantida.

Com o final do mundial, já há estádios fechados para reformas emergenciais e outros alugando espaço até para festas infantis a preços baixos, pois não há demanda de eventos. O estádio de Brasília custou quase 2 bilhões de reais e gerou somente 1,3 milhões no primeiro ano de vida – precisará de mais de mil anos para ter o investimento de volta nesse ritmo. Importante lembrar que o estádio é do governo do DF, que terminou 2014 numa pindaíba financeira de dar dó, com funcionários sem salário, greves pipocando, estado de emergência decretado na saúde.

Na economia, falava-se muito em como a Copa traria bonança e mais arrecadação de impostos. Acontece que a FIFA e todos os seus parceiros tiveram isenção total de impostos, o que frustrou essa expectativa bastante rápido.

Com crescimento baixo da economia desde 2011, o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, manteve o otimismo com relação ao impacto da Copa na economia até maio de 2014, véspera do mundial, dizendo que a Copa ajudaria o PIB do país a ter crescimento maior no segundo trimestre, depois de ter crescido só 0,2% no primeiro – o que depois foi revisado para uma queda de 0,2%. Em agosto, com os dados indicando que o segundo trimestre teve queda de 0,6% no PIB, Mantega culpou: cenário externo, seca e… Copa! Well, that escalated quickly.

Não sei vocês mas, olhando o quadro geral, posso até concordar que os mais pessimistas que previam o colapso total do país estavam errados. Agora, daí a chamar de sucesso? Não, acho que não.

Um belo monte de problemas

Nessa semana tivemos um apagão controlado em 11 estados brasileiros. O Ministério das Minas e Energia e Operador Nacional do Sistema (ONS) demoraram bastante a se pronunciar e até agora não deram uma explicação completa.

Os fatos conhecidos até o momento, segundo eles, são: batemos recorde de consumo no horário de pico, houve problemas na transmissão de energia de geradoras do norte e nordeste para o sudeste e centro-oeste.

Essa restrição levou a uma queda da frequência dos 60Hz normais para 59Hz, o que levou algumas geradoras a se desligarem para evitar danos a si mesmas. Para evitar um efeito dominó, o ONS pediu a grandes distribuidoras que fizessem uma redução controlada da disponibilidade de energia, o que foi feito com o desligamento de algumas subestações.

A partir daí há discordâncias entre o Ministério e o ONS: para o Ministério houve falha no sistema de segurança em pelo menos uma das geradoras, que não deveria ter se desligado.

O que parece é que o sistema não está capacitado para lidar com a demanda energética dessas duas regiões, seja porque está produzindo pouco, seja porque não consegue transmitir o suficiente a partir do norte/nordeste. Nos dias que seguiram o apagão, o Brasil importou energia da Argentina nos horários de pico, para garantir abastescimento.

O mais preocupante é que nossa demanda está reprimida: nós estamos há alguns anos com queda na atividade econômica e na produção industrial. A indústria é o setor que mais consome energia no país. Já imaginou se o país estivesse crescendo e a produção industrial estivesse crescendo? A julgar pelos acontecimentos dos últimos dias, já teríamos que estar em um racionamento.

O governo me parece ter falhado nas duas pontas da questão energética: oferta e demanda. Começo pela segunda: em 2012, Dilma foi para a televisão anunciar uma canetada para redução das contas de energia, principalmente as da indústria, através de renovação automática de contratos de concessão e de subsídios diretos.

Além disso o governo incentivava já há alguns anos a aquisição de novos bens que consomem energia através da redução de IPI e do programa Minha Casa Melhor. O governo fez isso tudo quando já se previa que um quadro hidrológico preocupante para os anos seguintes, o que indicaria a necessidade de fazer o contrário: criar incentivos para a reduçao do consumo de energia, inclusive a ampliação dos preços de energia.

O ideal mesmo seria que a demanda pudesse subir: que milhões de brasileiros pudessem pela primeira vez ter ar condicionado e lavadora de roupas. Isso nos coloca na outra ponta: o investimento para ampliação da oferta. Nós sabemos que houve casos de geradoras que ficaram sem poder ser usadas porque não foram construídas as linhas de transmissão.

Novas hidrelétricas que estão sendo construídas em rios na região norte estão com anos de atraso (se bem que, com restrições de transmissão não daria pra usar). Um terço das obras prioritárias para manutenção do sistema de acordo com o ONS não foram executadas. E aí veio a questão da falta de chuvas, que fez com que as termelétricas tivessem que ser ligadas, encarecendo a energia.

Na campanha e antes dela, Dilma garantia sempre que não havia risco de racionamento. Depois de eleita, várias das garantias feitas pela candidata foram por água abaixo, como sabemos. Talvez por isso mesmo ela esteja resistindo muito a ter que assumir a necessidade de prevenir um problema maior com um racionamento agora, mostrando que o planejamento de que se orgulha de ter feito não foi assim tão bom.

Tudo indica que Dilma vai imitar Geraldo Alckmin e deixar para declarar racionamento quando já estivermos na iminência de um colapso do sistema. Não sei vocês, mas eu já estou tomando mais cuidado com o uso de energia elétrica (e água, claro), porque não quero ficar sem.